Coluna À procura da poesia: As flores do mal – parte II

Por Talles Azigon*
“Poesia é o que se perde na tradução” 
Robert Frost

Na primeira parte de nossa conversa sobre Baudelaire fizemos uma proposta de experimentar a poesia, relaxar um pouco dessa perspectiva do texto em prosa na qual sempre buscamos entender os sentidos (ou decodificar as mensagens).
No caso do poema, propomos uma leitura como se fosse um quadro; primeiro você percebe as cores, depois as formas, o jogo de luz/sombra. Só depois vá apalpando as sugestões de sentidos que ele nos oferece.
Quando o livro é de poemas traduzidos, o caso das Flores do Mal, temos uma “possível barreira”. Você não está lendo necessariamente o poema escrito, mas uma espécie de versão dele. Afinal de contas – se esse lance de poema é tão “de sentir” “de ver” – cada idioma tem seus materiais próprios na composição de suas tintas.
Um exemplo, eis dois poemas da Flores do Mal com traduções diferentes:
O Inimigo
A mocidade foi-me um temporal bem triste,
Onde raro brilhou a luz d’um claro dia;
Tanta chuva caiu, que quase não existe
Uma flor no jardim da minha fantasia.

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado,
Que paciente labor não preciso — ai de mim! —
Se quiser renovar o terreno encharcado,
Cheio de boqueirões, que é hoje o meu jardim!

E quem sabe se as flores ideais que ora cobiço
Iriam encontrar no chão alagadiço
O preciso alimento ao seu desabrochar?

Corre o tempo veloz, num galope desfeito,
E a Dor, a ingente Dor, que nos corrói o peito,
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar!

Tradução: Delfim Guimarães
O INIMIGO
A juventude não foi mais que um temporal,
Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;
As chuvas e os trovões causaram dano tal
Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.
Eis que alcancei o outono de meu pensamento,
E agora o ancinho e a pá se fazem necessários
Para outra vez compor o solo lamacento,
Onde profundas covas se abrem como ossários
E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia
Hão de achar nessa gleba aguada como praia
O místico alimento que as fará vigorosas?
Ó dor! Ó dor! O tempo faz da vida uma carniça,
E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas
No sangue que perdemos se enraíza e viça!
Tradução: Ivan Junqueira

Parecem dois textos completamente diferentes! A escolha das palavras é diferente. Somente a estrutura e o esquema de rimas mantiveram-se mais ou menos semelhantes. Por isso, dica do Talles, se você souber um segundo idioma, compre livros de poemas em versões bilíngues.
Parece que o novelo só embaraça, verdade. Por que não? Permita-se ser uma pessoas mais afeita às complexidades. Essa nossa vida aparentemente simplista, onde todos os botões prometem resolver todos nossos problemas, muitas vezes nos incute uma preguiça de ser mais pensante. Então falo no sentido acadêmico, cult, falo no sentido básico mesmo. Com os poemas você pode exercitar uma reflexão mais complexa e diversa da vida.
***
As Flores do Mal incomodou muito na sua época de publicação, pois os conteúdos de seus poemas não se harmonizavam com o bucolismo do campo, ou os atributos pelos da amante e do amor. Vivemos na cidade, a metrópole se mostra em todo o seu degredo, perdemos a inocência, o leitor não é uma criança inocente, o poeta tampouco.
Nós não entramos desavisados nesse livro! O primeiro poema, a carta em forma de versos de Baudelaire para nós, é certeira e nos mostra toda as torpezas da vida moderna que nos atravessam, e esfrega o Tédio, o verdadeiro grande mal da modernidade bem na nossa cara.
– A juventude, de ar singelo e fronte suave,
De olhar translúcido como água de corrente,
E que se torna sobretudo, negligente,
Tal qual o azul do céu, os pássaros e as flores,
Seus perfumes, seus cantos, seus doces calores

Toda uma denúncia contra a aparência do mundo e os valores atribuídos para a juventude, para a radiação da vida, nesses poemas, é como se Baudelaire virasse o palco da vida para mostrar as costas da encenação, espantados, nos deparamos que nessas costas tudo é oco.
Logo, a corrupção é o revés da beleza, mas dela faz parte, o pútrido da inocência, e dela faz parte, a devassidão da irrepreensível aparência do homem de bem, e dela faz parte. Ora, se antes as pessoas viviam no campo, cantava ovelhas, orvalhos, sol se ponto e riacho correndo, tudo compondo quadros onde o belo era incontestável, na cidade as coisas mudam de figura.
São muitos becos, onde espreitam assassinos, esgotos a céu aberto, gente desmaiada de ópio ou de fome, ou mesmo dos dois. É preciso desconfiar das aparências.
HINO À BELEZA
Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se por isso comparar-te ao vinho.
Em teus olhos refletes toda a luz diuturna;
Lanças perfumes como a noite tempestuosa;
Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna
Que torna o herói covarde e a criança corajosa.
Provéns do negro abismo ou da esfera infinita?
Como um cão te acompanha a Fortuna encantada;
Semeias ao acaso a alegria e a desdita
E altiva segues sem jamais responder nada.
Calcando mortos vais, Beleza, a escarnece-los;
Em teu escrínio o Horror é a jóia que cintila,
E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos,
Sobre teu ventre em amorosa dança oscila.
A mariposa voa ao teu encontro, ó vela,
Freme, inflama-se e diz: “Ó clarão abençoado!”
O arfante namorado aos pés de sua bela
Recorda um moribundo ao túmulo abraçado.
Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo!
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que amo e que jamais desvendo?
De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Que importa, se é quem fazes – fada de olhos suaves,
Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! –
Mais humano o universo e as horas menos graves?

É de bom tom lembrarmos que As Flores do Mal sofreu condenações da justiça, foicensurado, ficou censurado por um longo tempo. E o motivo foi justamente o desencanto evidente de suas páginas (tida pelos censores de imoralidade), a forma como é retratado o amor, sem medo de falar da carne, da cópula, diretamente sem meias palavras.
XXIV
Eu te amo como se ama a abóbada noturna,
Ó taça de tristeza, ó grande taciturna,
E mais ainda te adoro quando mais te ausentas
E quanto mais pareces, no ermo que ornamentas,
Multiplicar irônica as celestes léguas
Que me separam das imensidões sem tréguas.

Ao assalto me lanço e agito-me na liça,
Como um coro de vermes junto a uma carniça,
E adoro, ó fera desumana e pertinaz,
Até essa algidez que mais bela te faz!

Essa obra se estende, é imensa, cheia de desvios, como uma grande metrópole. Seria muito difícil dar conta de tantos aspectos e tanta importância. Então eu convido vocês a largarem o medo e o preconceito e se deliciarem com Baudelaire.
Depois da leitura, comente conosco, o que achou, se teve dificuldades, o nosso grande intuito aqui no Leituras da Bel é desanuviar o mundo dos poemas com vocês.
*Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.
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