'Mãe!': filme se mostra complexo e repleto de mistérios

por Adriana Martins* - Enviada a São Paulo
Javier Barden e Jennifer Lawrence têm um bom desempenho sob o comando de Darren Aronofsky, em "Mãe!". Longa-metragem não se filia a um único gênero, se equilibrando entre o terror psicológico e a fantasia
Gosta de quebra-cabeças? Observar longamente os encaixes das peças, detalhes da imagem, em busca de pistas para a solução final? A resposta - se esse pensamento lhe apetece ou, caso contrário, causa ondas de tédio - é um bom indicador da provável reação ao novo filme de Darren Aronofsky ("Réquiem para um sonho", "Cisne negro"). Sob o agravante de que "Mãe!" não oferece, ao fim, a imagem clara, como a de um quebra-cabeça montado. Está mais para uma alegoria caleidoscópica, com várias leituras possíveis.
O ponto de partida é simples: num cenário campestre idílico, um marido e sua mulher muito mais jovem vivem isolados. A rotina do dois é interrompida com a chegada de um casal de visitantes. Rapidamente, porém, percebe-se coisas estranhas: apenas a esposa (Jennifer Lawrence) parece chateada com a presença inesperada daquelas pessoas que nunca viu antes. O companheiro (Javier Barden) sequer a consulta quando decide hospedá-los e não se perturba diante do comportamento abusado dos estranhos.
Sistematicamente, o marido - um poeta consagrado, que enfrenta um bloqueio criativo - falha em corresponder ao afeto da esposa, isso quando não a desrespeita abertamente, ignorando seus desejos e esforços graças a um ego monstruoso.
Ainda assim a jovem segue em sua devoção doméstica: lava, cozinha e, pessoalmente, toca a reforma da casa de estilo vitoriano, antigo lar do marido antes de ser consumida por um incêndio. Ela recria a construção do zero em todos os detalhes, unicamente para agradar o esposo.
Com aquela morada, a mulher parece ter uma ligação visceral, umbilical: ela ouve um coração pulsante nas paredes e percebe detalhes que parecem sobrenaturais - não se sabe se por assombração ou por estar alucinando.
A presença do casal visitante torna-se cada vez mais problemática e culmina com uma tragédia, que encerra o primeiro ato. Até aí, o longa segue em ritmo de terror psicológico, conforme vendido na campanha de divulgação (inclusive pelo trailer); há, porém, mais estranhamento do que sustos.
Surreal
A partir do segundo ato, Aronofsky mostra outras intenções, ao adotar uma espécie de surrealismo frenético que se afasta radicalmente da aparente proposta inicial. Depois da morte trágica, a casa não apenas recebe os dois "intrusos" de volta, mas dezenas de amigos seus, tão estranhos e abusados quanto eles - para desespero da jovem esposa, que vê sua casa e ela mesma serem agredidas pelos novos convidados do marido.
Aqui cabe um parênteses em relação a elementos imagéticos específicos, desde cartazes do filme - nos quais Jennifer Lawrence aparece pintada como uma espécie de deusa mitológica, ou com o rosto texturizado de maneira a lembrar a imagem em gesso de uma santa - até a escolha do diretor sobre seu cabelo, por exemplo (embora não lhe roubem a juventude, as longas e levemente prateadas madeixas conferem à personagem um ar mais maduro, antiquado). Ou, ainda, em relação a algumas falas como "quero fazer desse lugar um paraíso".
Seria a esposa, então, uma representação de Maria? Isso faz do marido um Deus Criador? Descobrir que os dois estranhos hóspedes são, na verdade, fãs do escritor anfitrião colabora para essa hipótese - afinal, de admiradores para discípulos é um pulo.
Mas, além de desencadear eventos, a morte trágica do primeiro ato joga ainda uma metáfora, dessa vez sobre a narrativa de Caim e Abel. Logo, seria aquela casa o Paraíso? E a esposa a Mãe Terra, que cuida incessantemente para oferecer um lar aconchegante e farto a hóspedes (humanidade) ingratos?
Nesse caldeirão, o que representam as visões da mulher? O que é aquele remédio que ela toma para passar suas crises? Por que aceita tudo sem protestar?
Dificuldades
Ao longo desse vendaval de referências-metáforas, cabe ao espectador juntar as peças, numa jornada por vezes cansativa, mas nunca enfadonha. Aronofsky isenta-se de contextualizar qualquer coisa, o que certamente contribuiu para afugentar grade parcela do público e para a péssima avaliação do filme no cinemaScore, bem como para a bilheteria fraca no fim de semana de estreia nos EUA (dentro dos atuais padrões financeiros exigidos pela indústria).
Mas como arrecadação nunca significou obrigatoriamente qualidade artística, "Mãe!" pode, sim, ser uma experiência fantástica, que prende o espectador do início ao fim, desde que ele esteja disposto a embarcar na proposta - que a essa altura transita, sem se filiar a um gênero definido, entre o horror e a fantasia.
"Mãe!" é uma jornada rica e alucinante, que rende reflexões até o dia seguinte sobre temas tão distintos quanto feminismo, misoginia, geopolítica e meio ambiente. Tudo isso a partir de uma perspectiva sufocante, com a câmera praticamente grudada atrás, ao lado ou no rosto de Lawrence.
Nesse sentido, palmas para a atriz, cuja performance contempla desde uma Mãe retraída e subjugada até outra explosiva e cheia de ódio. Do mesmo modo, Barden garante um protagonista desprezível. Sem esquecer de Pfeiffer, em uma interpretação deliciosa como a mais odiosa das hóspedes.
À medida que novas "pistas" são reveladas, a narrativa ganha corpo e novos sentidos. No meio do segundo ato já estamos cientes: "esse filme não é o que pensei, agora preciso descobrir do que se trata".
Ações e reações vão ficando cada vez mais violentas até borrar a fronteira entre realidade e sonho, quando elementos que situavam a história no mundo concreto cedem lugar a uma escalada onírica frenética (mais para pesadelo), rumo a um clímax de ruptura com a verossimilhança.
No terceiro ato, as metáforas estão claras: os fãs do escritor tornam-se devotos cegos em rituais sagrados; uma improvisada sessão de autógrafos na casa amplia-se para uma guerra (literalmente, com bombas, fugitivos e conflitos entre grupos); e a figura da Terra Mãe mistura-se à de Maria, mãe de Jesus, para falar inclusive do lugar da mulher na sociedade, e de como não sabemos habitar nosso mundo-casa sem ser pela violência (com ele e com nossos semelhantes).
Nesse ínterim, acompanhamos a decadência vertiginosa da casa, despedaçada como aquela mulher, que perdeu seu lar e seu filho para a multidão insana (Jesus na cruz). A rebordosa vem com gosto de vingança saborosa, consumada em chamas e sangue.
Do mesmo modo, Aronofsky mostra um Deus sádico (poucas coisas são tão assustadoras no filme inteiro quanto o olhar de Barden para Lawrence enquanto espera para sequestrar o filho bebê) e ególatra, que precisa de adulação constante para fazer algum sentido de si.
"Nada é suficiente para você", acusa a Mãe frente a um ser cuja necessidade de criar talvez explique a ideia cíclica sugerida na sequência final (uma espécie de "A Origem"). "Nada nunca é o bastante - eu não poderia criar se fosse", responde um Deus sempre disposto a começa tudo novamente.
Mais informações:
Mãe! (Mother!, EUA, 2017), de Darren Aronofsky. Com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris e Michelle Pfeiffer.
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*A jornalista viajou a convite da Paramount Pictures

Diário do Nordeste

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