Mapa Etno-histórico do Brasil ganha reedição digital

por Felipe Gurgel - Repórter
Image-0-Artigo-2301621-1
Uma das obras clássicas da antropologia brasileira ganha ampla reedição com trato digital. A partir desta quarta (27), estará disponível no portal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan, www.Iphan.Gov.Br) o mapa Etno-Histórico do Brasil e Regiões Adjacentes. Em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), o Iphan empenhou um processo de restauração digital da obra cartográfica, considerada marco dos estudos sobre línguas e culturas indígenas.
O mapa original foi apurado e formatado pelo etnólogo alemão Kurt Unckel (1883-1945), o Kurt Nimuendajú (significa "o que fez seu assento"; ele foi rebatizado assim pelos índios guaranis). O material reúne mais de 900 referências sobre etnias e línguas indígenas, coletadas pelo pesquisador.
A pesquisa, feita na primeira metade da década de 1940, é referente ao período entre os séculos XVI e XX.
A novidade é que, através da técnica de restauração digital, a obra original (com dimensão de quatro metros quadrados) foi fotografada em alta resolução para que o usuário possa visualizar informações em uma perspectiva maior do que na versão física. Além do mapa em si, Nimuendajú criou um guia para a leitura da obra - um conjunto de informações, dados e referências bibliográficas - que também ganha edição revisada neste lançamento.
Segundo um dos coordenadores do projeto, Marcus Garcia, responsável pelo Inventário Nacional da Diversidade Linguística do Iphan, os originais, feitos à mão, pertencem ao acervo de dois equipamentos: o Museu Emílio Goeldi, de Belém (PA), e o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
"Foram feitos de modo artístico e artesanalmente. É impressionante a quantidade de nomes de rios, por exemplo. A rede hidrográfica dos anos de 1940 é praticamente a mesma do Brasil de hoje. Do ponto de vista geográfico, é muito atual ainda, mas claro que houve muitas revisões. Ele lista famílias linguísticas, sobre as quais estariam catalogadas etnias, grupos indígenas", detalha Garcia.
O coordenador reconhece que o documento é datado. No entanto, a compilação trata de referências válidas até hoje. A reedição digital desdobra a informação original em várias camadas. Garcia exemplifica: "a pessoa pode escolher uma determinada família linguística para pesquisar. O mapa é unidimensional, você só tem um plano horizontal e vertical. (Digitalizando) a gente vai tentar torná-lo tridimensional. E ainda incluir informações mais recentes sobre os conteúdos do mapa, das etnias", especifica.
80 anos
O lançamento do mapa digitalizado faz parte da programação de 80 anos do Iphan. Na verdade, é o aniversário do órgão nacional de preservação patrimonial, que já se chamou "Fundação Nacional Pró Memória", por exemplo, e virou Iphan a partir da década de 1980. Marcus Garcia recapitula que a Fundação lançou a primeira edição pública do Mapa Etno-Histórico de Nimuendajú.
Ele conta que a ideia original era expor o mapa na sua versão física, original. Mas, além de ser um objeto muito grande, o material (de mais de 70 anos) foi consumido pelo tempo. A umidade da temperatura média de Belém (PA) contribuiu para o desgaste, por exemplo, dentre outros fatores climáticos.
"Em determinado momento, o mapa foi reconhecido como obra rara, e isso ajudou a preservar a peça original. Com o restauro digital, fizemos imagens em altíssima resolução para fazer um arquivo digital", detalha Garcia.
O dirigente do Iphan compara que o Museu do Prado, em Madrid (Espanha), adotou o mesmo tratamento para a obra "Jardim das Delícias Terrenas", do pintor holandês Hieronymus Bosch (1450-1516). Trata-se de um quadro, de ampla dimensão, que ganhou releitura digital, complementar à apreciação da versão física.
Releitura
Marcus Garcia exemplifica que, com as fotos em alta resolução do mapa, foi possível recuperar informações desgastadas. "Várias áreas de pigmentação (de cores), com a ação do tempo, foram sendo consumidas também. Fazendo um zoom das cópias, pudemos encontrar qual cor ele (o etnólogo) usou, pra fazer a legendagem", observa.
O dirigente do Iphan resume a relevância da iniciativa. "Esse documento contribuiu para a própria reivindicação dos indígenas sobre o território, tem um valor imenso. A gente está consolidando o valor da revisão (que foi feita sobre o material) nos anos 70. Mas também olhando para o mapa com uma lupa. O tempo passa, e o documento ganha outros sentidos", conclui.

Diário do Nordeste

Comentários

Mais Visitadas

O Irmão Carlos de Foucauld

Há 50 anos, primeira mulher negra era eleita ao Congresso nos EUA

MASP completa 50 anos de histórias

Memorial do Holocausto lembra 80 anos da Noite dos Cristais em SP

Escreve Pe. Jocy - Dom Delgado