Romance de Don DeLillo fala sobre superação da morte

por Bolívar Torres - Agência O Globo
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O escritor Don DeLillo: "Zero K" se originou de uma imagem onírica no deserto
Na origem da escrita de cada romance de Don DeLillo, há uma imagem isolada, abstrata, que desencadeia todo o seu processo criativo. No caso de "Zero K", que chega agora ao Brasil, a primeira coisa que o autor americano visualizou em sua mente foi um grupo de prédios perdidos em um deserto. Então, perguntou-se quem eram seus habitantes e por que estavam lá.
A imagem começou a se apagar, e deu lugar a uma estrutura subterrânea em uma zona remota, a milhares de quilômetros de distância de sua casa, em Nova York. É a partir dessa revelação que o escritor, de 80 anos, elaborou a premissa de seu 17º romance, uma narrativa tecnofuturista que aborda questões como imortalidade, apocalipse e criogenia - a arte de preservar cadáveres congelados para ressuscitá-los no futuro.
"Sempre me interessei em ver os personagens em um espaço tridimensional", conta o autor, em entrevista por telefone, de Nova York. "Quando vejo um personagem, ele está sempre presente em um lugar específico, em um quarto, ou na rua, ou num metrô. Eu visualizo o indivíduo, mesmo que eu não possa dizer especificamente como ele ou ela se parece".
A forte relação com imagens, conta, intensificou-se na Grécia, onde Don DeLillo, nascido em Nova York, criado no Bronx, viveu alguns anos na década de 1980 e escreveu o romance "Os nomes".
"Lá, estava cercado por monumentos e inscrições. Até as letras nas inscrições começaram a ficar importantes para mim, por causa de suas formas. E agora, quando escrevo, olho para as letras que aparecem na minha velha máquina de escrever e olho para as formas. Já faz parte da maneira como trabalho", relembra.
Formas
Em "Zero K", o autor nos guia pelas instalações do Convergência, um projeto sediado nos subterrâneos do deserto do Curdistão. De olho no fim do mundo, seus idealizadores realizam uma espécie de "banco de sementes humanas" através da criopreservação.
Um dos principais financiadores do projeto é Ross Lockhart, um bilionário cuja companheira, Artis, está doente e se prepara para ser depositada numa cápsula com a esperança de ser curada ao sair. A história é narrada por Jeffrey, filho de Ross, que nos ilumina sobre o passado e as intenções de seu pai.
Profeta?
Um dos maiores escritores vivos, DeLillo nunca sabe aonde vai chegar quando começa seus livros, nem como história e personagens irão evoluir. Seu processo é guiado tanto por um sentido visual - nas imagens formadas pelas correspondências de certas palavras - quanto literário.
Talvez por isso, o autor não goste que o tratem como um profeta - críticos e fãs acreditam que suas ficções teriam antecipado alguns dos principais episódios do mundo contemporâneo, desde os atentados do 11 de Setembro (com alusão ao terrorismo em "Jogadores", de 1977) à crise financeira de 2008 (no ambiente instável e fluido de "Cosmópolis", de 2003). Ele insiste, porém, que não se trata de "previsões".
"Muitas vezes o termo 'profeta' é distorcido, mas acho que, usando estritamente a imaginação, alguns romancistas têm, sim, um certo sentido do que está acontecendo em algumas áreas da vida. Sentem, antes dos outros, coisas que podem vir a ficar mais claras no futuro", diz o escritor. "O romance é uma forma dispendiosa, que desafia a técnica dos autores, desafia-os a pensar de forma dispendiosa. Você não pensa da mesma forma se está escrevendo um conto ou uma obra teatral. Um romancista depende largamente de sua percepção do que está acontecendo, de uma intuição. Mas, trabalhando com ficção, não é necessário estar correto sobre o que personagens vão experienciar em termos futuros".
Sobrevivencialismo
"Zero K" explora a ainda incipiente cultura do sobrevivencialismo - a prática de se preparar para o fim dos tempos - cada vez mais popular entre bilionários do Vale do Silício. As associações entre literatura e morte se multiplicam. O Convergence é descrito como um projeto de arte conceitual - seus idealizadores podem ser tanto cientistas, filósofos ou líderes de uma seita.
Enquanto Jeffrey tenta gozar o tempo presente, os ideais faraônicos são pontuados por dilemas existenciais. Compreenderemos a vida sem a certeza da morte? O que é o ser humano sem a percepção do tempo? As perguntas parecem estar bem respondidas no livro, à medida que o autor vai recuperando alguns de seus temas mais caros, como a desumanização pela tecnologia, a onipresença das imagens e as relações entre História e representação.
Embora coloque a tecnologia no centro de suas tramas, DeLillo se realiza plenamente em uma rotina analógica. O "profeta" contemporâneo escreve há décadas na mesma máquina datilográfica, não usa smartphone nem e-mail.
Nem por isso, deixa de acompanhar os avanços ao seu redor, observando um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia. Para conceber as complexas técnicas de criogenia, porém, pesquisou propositalmente o "mínimo possível". A ideia era focar mais nos personagens e menos na parte científica.
"Escrevo sobre tecnologia porque vivo e penso, estou consciente do que está acontecendo, mesmo que não seja sempre um participante direto", explica. "Estudo a cena, conheço os recentes desenvolvimentos tecnológicos, mesmo sem usá-los. À medida que a tecnologia avança, as pessoas vão se entregando a ela, e enfrentam dificuldades em responder a um mundo que vá além dos avanços".
Apocalipse
Perguntado sobre o que sobrará do mundo se a humanidade for totalmente aniquilada (incluindo os "belos adormecidos" do Convergence), De Lillo prefere imaginar um retorno, mais do que um desaparecimento.
"Sobrarão insetos e micróbios", diz. "E talvez eles façam a nossa vida voltar, um século após o outro. Mas não me cite nessa".
Livro
Zero K
Don DeLillo
Tradução: Paulo Henriques Britto
Cia. Das Letras
2017, 272 páginas
R$ 49,90

Diário do Nordeste

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