20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_ VideoBrasil espelham crises da atualidade e apontam saídas

por Roberta Souza - Enviada a São Paulo
Lugar de pesquisa, de risco, de dissenso. É dessa forma que Solange Farkas, curadora do Festival de Arte Contemporânea Sesc_VideoBrasil - cuja 20ª edição teve início no começo desta semana, em São Paulo - pensa o passado, o presente e o futuro do evento. Fazê-lo em um momento crítico para o País, "de obscurantismo pleno", sendo fiel à colocação da própria, é, sobretudo, um ato de resistência. E ganha fôlego diante de trabalhos produzidos sob contextos semelhantes, advindos do "sul do mundo".
"Devemos resistir sim, com responsabilidade, com a qualidade do conteúdo que produzimos, com agendas positivas. E não começar a instaurar uma autocensura", pontua a curadora, lembrando que os artistas brasileiros já passaram por esse problema no período da ditadura militar. As críticas realizadas por parcela da sociedade aos trabalhos de arte contemporânea apresentados no Santander de Porto Alegre e no MAM-SP, no último mês de setembro, não impuseram, portanto, nenhuma restrição ao festival idealizado pelo Sesc e pela Associação Cultural VideoBrasil
Focado na representatividade geopolítica da arte, o 20º Festival selecionou, para esta edição, trabalhos de 50 artistas, oriundos de 25 países. Desse total, 15 são brasileiros. Há ainda representantes da América Latina, África, Ásia e do Oriente Médio. Ao lado de Farkas, os brasileiros Ana Pato, Beatriz Lemos e Diego Matos, e o português João Laia analisaram, em cinco meses, mais de 4 mil trabalhos, inscritos por 2 mil artistas, de 109 países.
"Artistas são os grandes comentaristas das questões da sociedade. Tudo que estamos vivendo hoje, você percebe nas obras. Não apenas como um relato, mas como interpretação, ou mesmo algumas novas narrativas que parecem apontar alternativas para essa crise, definitivamente global", observa a curadora geral do evento.
Para Farkas, essa é a grande contribuição do Panoramas do Sul, perspectiva endossada pelo Festival desde a parceria com o Sesc, iniciada em 1992, quase dez anos após a primeira edição. E quando fala de Sul, refere-se a uma representação simbólica de uma região do mundo - não apenas geográfica -, situada fora de determinados privilégios econômicos e sociais.
"Estamos num momento de intolerância de toda ordem: política, religiosa, cultural, e falamos de um lugar do mundo que é o das diferenças. O festival é isso: você tem aqui muçulmanos, cristãos, judeus, negros, brancos, transgêneros; todos numa mesma plataforma, convivendo lindamente juntos, propondo alternativas para superar essas intransigências, que são a razão dessa crise toda", avalia.
Constelações
As obras selecionadas para compor o espaço do Sesc Pompeia - onde seguem em exibição até janeiro de 2018 - foram organizadas de acordo com seis eixos: Cosmovisões (Origens; Ritos e Cosmogonias; Ciências e Cosmologias); Ecologias (Natureza, Terra e Fungos; Catástrofes, Crises e Novas Consciências); Reinvenção da Cultura (Técnicas, Apropriações e Representações); Políticas de Resistência (Urbanidade, Corpos e Afetos); Histórias Invisíveis (Memória e Micro-história); e Outros Modernismos (Outros Espaços e Outras Paisagens).
Os curadores chamam o partido curatorial que regeu as escolhas dos trabalhos de "Teoria das constelações", numa proposta que se contrapõe à ideia de precisão do campo científico, expondo as relações entre o particular e o geral, o mínimo e o todo, a certeza e a imprecisão, arte e ciência.
"Quase todos os que giram em torno desses eixos trazem muitas palavras-chaves. Isso foi bastante presente no processo de seleção; e quando fomos pensar o livro, vimos que tínhamos ali uma enciclopédia para tratar esse lugar de conhecimento, com os artistas e seus verbetes todos", afirma, em referência ao catálogo da edição.
Vídeos, pinturas, instalações, esculturas, fotografias, gravuras e até mesmo plantas artificiais que formam um pequeno jardim de aclimatação podem ser vistos no Sesc Pompeia. São trabalhos diversos que revelam uma multiplicidade de visões de mundo, criadas a partir de uma sociedade que, segundo os curadores, parece pressentir seu próprio fim e, para evitá-lo, recorre a suas origens.
Farkas acredita que estamos vivendo o ápice dos problemas sociais, mas, para ela, isso significa que podemos estar próximos de uma saída. "Tem muito trabalho aqui que aponta para esse lugar. Artistas que mudam o foco da discussão para uma questão maior, mais ampla, no que diz respeito a experiências ligadas a culturas ancestrais, resgate dos povos originais. Esses são sintomas do que os artistas querem mostrar: precisamos olhar mais pra natureza e para essas origens como uma alternativa pra sair da crise", diz.
Premiação
Na cerimônia de premiação, próximo domingo (8), o Festival oferecerá aos artistas participantes três Prêmios de Aquisição, no valor de R$ 25 mil cada, para as obras em vídeo que passarão a integrar o Acervo Sesc de Arte.
Já a fundação Ostrovsky Family Fund (O.F.F.), reconhecida pelo incentivo a iniciativas artísticas progressistas e independentes, oferecerá a um dos selecionados prêmio de R$ 25 mil para o trabalho de arte com imagem em movimento mais inovador. O reconhecimento será atribuído pelo próprio júri de premiação do Festival.
Serão ainda concedidos cinco prêmios de residências artísticas, cada um oferecido por um júri internacional específico, de instituições parceiras do Festival. São elas Ujazdowski Castle Centre for Contemporary Art, da Polônia; Kyoto Art Center, do Japão; Residência Vila Sul, do Goethe-Institut, em Salvador, Bahia; Wexner Center for the Arts, dos Estados Unidos; e a Pro Helvetia, da Suíça.
Vale ressaltar que, além da exposição propriamente dita e do programa de vídeo, o 20º Festival conta ainda com performances, atividades de programas públicos (encontros e conversas com participantes do Festival) e oficinas, além de ações educacionais para grupos e famílias, coordenadas pela arte-educadora Vera Barros.
Estão previstas também visitas mediadas por curadores e convidados. "Você não pode obrigar ninguém a ver ou ler determinadas coisas. Mas tem que ajudar as pessoas a receberem essa informação para, quem sabe, ampliarem seu repertório simbólico", conclui Farkas, ciente da responsabilidade do Festival nesse processo.
Saiba mais
A Associação Cultural VideoBrasil realiza o Festival desde 1983. Somente em 1992 o Sesc entra como parceiro, o que garante a expansão e internacionalização do evento
A partir dessa parceria, o Festival se consolida como plataforma diversificada e múltipla voltada à difusão, ao fomento e à reflexão em torno da produção artística do Sul global, que compreende América Latina, Caribe, África, Oriente Médio, Oceania e alguns países da Europa e da Ásia
Antes, o Festival acontecia anualmente. Para fins de pesquisa, Solange Farkas pensou em uma edição bienal
Desde a 17ª edição, em 2013, deixou de trabalhar apenas com vídeos (expandidos) e abriu o leque para as mais diferentes linguagens;
A parceria entre o Sesc São Paulo e o Videobrasil viabiliza ainda a itinerância do Festival para outras cidades do Brasil, além de publicações sobre cultura e arte contemporânea.

Mais informações:
20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_VideoBrasil. Visitação no Sesc Pompeia, em São Paulo, até janeiro de 2018. Site: site.Videobrasil.Org.Br/
*A repórter viajou a convite do Sesc

Diário do Nordeste

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