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Bullying é reflexo de uma sociedade que enxerga a violência como medida de solução, diz especialista

O caso do adolescente de 14 anos que efetuou disparos contra os colegas em Goiânia, na última semana, levantou a discussão sobre o bullying dentro das instituições de ensino. Há indícios de que a motivação do crime tenha sido por causa de possíveis provocações que sofria na escola.
De acordo com o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2016, cerca de 46,2% dos estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental já sofreram provocações ou se sentiram humilhados pelos colegas no Ceará. Desse total, os meninos são os mais afetados, correspondendo a 48,7% das vítimas.
Os casos de bullying estão mais presentes nas escolas cearenses da rede privada, segundo a pesquisa. Cerca de 50,8% dos alunos que relataram ter sofrido alguma provocação ou humilhação são de colégios privados. Na rede pública do Ceará, a realidade não muda tanto: 45,5% dos estudantes informaram terem sido alvos de bullying.
As motivações para as agressões são diversas, mas o Anuário de Segurança Pública aponta a aparência do corpo como o maior alvo dos constrangimentos. Ao todo, 15,4% dos estudantes disseram ter sido humilhados por conta do seu corpo. Logo em seguida, vem questões de raça ou cor com 5,2%, religião (3,7%), aparência do rosto (8,4%), orientação sexual (1,8%) e região de origem (1,3%).
De acordo com os especialistas em educação, o caso trata-se de um reflexo da exclusão de pessoas que não se encaixam dentro de padrões considerados ideais e da falta de diálogo sobre a diversidade dentro das escolas.
Para a professora de pós-graduação de movimentos sociais, educação e escola da Universidade Federal do Ceará (UFC) Ângela Linhares, a mídia é um dos principais agentes que contribuem para a exclusão do diferente e a definição do que é belo, principalmente, quando se engloba aspectos estéticos.
“A mídia vende um pacote de padrões estéticos que funcionam como uma espécie de normatização dos corpos e as formas de identidades. Define o que é bonito ou feio. É uma estatização para vender coisas”, ressalta a especialista. Ângela acrescenta que essa idealização é reforçada por outros núcleos sociais, como a família e a escola.
Já o professor doutor em educação do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFC João Paulo aponta que cada criança e adolescente se manifesta de forma singular. Variáveis, como histórico da família e suporte emocional, podem dar indícios da forma como o jovem irá reagir as agressões.
“Não é um fenômeno que tem uma causa única ou se manifesta da mesma maneira em todas as situações. Vai depender do seu suporte emocional, do contexto em que está inserido e do seu histórico familiar. E esse tipo de violência, geralmente, é invisível”, explica.
O especialista também acrescenta que os casos de bullying são reflexos de uma sociedade em que a violência é vista como medida de solução. Segundo ele, essa realidade é uma consequência da falta de espaço para o debate sobre as diferenças, desconsiderando a existência de outros grupos sociais.

“A gente precisa repensar o modo como nos relacionamos com as nossas diferenças. Nossa sociedade é pautada na aniquilação do outro. O bullying é um tipo de aniquilação, podendo ser simbólica ou não. Há uma tendência no Brasil de tentar resolver as nossas tensões por meio da violência”, ressalta.
De acordo com João Paulo, uma forma para diminuir esses casos dentro das escolas é ampliar debates sobre a diferença e combater as desigualdades sociais. Esse processo deve ser feito em conjunto com a família das crianças e adolescentes.“Se a escola quer se tornar um equipamento de combate à aniquilação do outro, é preciso que a escola discuta sobre racismo, gênero e outras desigualdades sociais”, conclui.
Caso de Goiás 
Na última sexta-feira (20), um adolescente de 14 anos efetuou vários disparos contra os colegas dentro de um colégio particular de ensino infantil e fundamental, na cidade de Goiânia. Dois adolescentes morreram e quatro ficaram feridos. Segundo os colegas que estudavam com o autor do crime, o garoto sofria bullying dos colegas.
Tribuna do Ceará

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