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Em novo livro, Dimas Macedo detalha vida de Dona Fideralina

Dona Fideralina
Se ainda hoje mulheres precisam lutar diariamente pelo reconhecimento de seus direitos básicos e contra uma inferiorização sistemática de seu papel na sociedade, imagine-se o desafio de assumir essa postura no século XIX - consciente ou inconscientemente. Na história do Ceará não faltaram personagens engajadas nessa resistência, entre elas Dona Fideralina, filha ilustre de Lavras da Mangabeira.
Mulher certamente à frente de seu tempo, foi líder política e expressiva matriarca, com papel relevante na Revolução de 1914, conhecida por Sedição de Juazeiro. Sua atuação tornou-se objeto de investigação e pesquisa em diferentes campos, em especial a História.
É nesse último onde se encaixa o mais recente trabalho dedicado à cearense, "Dona Fideralina Augusto - Mito e realidade", de Dimas Macedo, dedicado a contar a trajetória dessa mulher cuja vida imbrica-se com a própria história do Cariri, "graças aos entusiasmos republicanos, provocados pelos movimentos revolucionários no Nordeste no Levante de 1817 e na Confederação do Equador em 1824. O livro retrata a história como ela é, e não como as pessoas gostariam que ela fosse", explica Dimas Macedo, que lança o trabalho hoje (25), às 19h, no auditório deputado Murilo Aguiar, da Assembleia Legislativa.
Não é de hoje que o autor se debruça sobre o tema: no prefácio do livro, Dimas Macedo recorda que vem pesquisando desde 1980 sobre a formação do sul do ceará, "onde se insere a figura de Dona Fideralina Augusto, a célebre matriarca de Lavras da Mangabeira, que tanto se projetou na história política do Nordeste".
Segundo o escritor, na década de 1990 uma biografia mais consistente já podia ser consultada, destacando-se um artigo seu, publicado na revista do Instituto Cultural do Cariri, em 1983.De lá para cá, Dimas realizou palestras, revisou e orientou trabalhos sobre o tema.
Esboço
Em 2014, concedeu entrevista ao professor Rui Martinho Rodrigues, da Faculdade de Educação da UFC. Ao ler o material escrito, percebeu que "ali existia o esboço de um livro e que uma voz começava a borbulhar, levando-me à sua primeira redação, entre junho e julho de 2015".
ARTE
Em um período de 150 anos, Dimas Macedo desenha o contexto no qual se inseriram Dona Fideralina e seus familiares, que com ela construíram a história política de Lavras até 1923. Para tanto, a primeira parte do livro é toda dedicada aos ascendentes da personagem, além de outras famílias influentes na localidade, terminando com o nascimento da futura matriarca.

O autor passeia ainda pela infância e formação de Fideralina, com destaque para a ascensão de seu esposo, o major Ildefonso, e parentes e descendentes da mesma. Casada aos 19 anos de idade, enviuvou aos 44 e deu habilmente continuidade às atividades político-partidárias do pai e do marido, exercendo grande poder de liderança e controle de feudos regionais em um universo totalmente dominado pelo patriarcalismo.
Nessa contextualização o autor desconsidera os irmãos da protagonista, posto que nenhum se interessou pela carreira política. "Cabe destaca seus cunhados, num primeiro momento, e depois fazer referência aos seus filhos, genros e sobrinhos", escreve.
Trajetória
O terceiro capítulo da primeira parte do livro é dedicado especificamente à atuação política de Dona Fideralina, inclusive com o nascimento da cidade de Lavras da Mangabeira. Após a morte do marido - em 1876, no auge de sua trajetória pública -, a matriarca sentiu a necessidade de ingressar na política como forma de defender seus interesses.
Tal consciência deu-se em especial com a chegada em Lavras de uma família associada a uma nova facção política, o Partido Cruz Saldanha, de orientação francamente abolicionista, o que contrastava com a escravidão praticada por Fideralina e que havia sido fundamental para a prosperidade de sua família.
Entre conflitos de interesses e movimentos deles decorrentes - como o Ciclo das Deposições - o autor chega ao quarto capítulo, dedicado ao apogeu e morte da personagem.
Simbólica
Já na segunda parte, Dimas Macedo investe em um estilo mais ensaístico para traçar um perfil de Dona Fideralina, incluindo sua paixão pela política e seu entorno social.
O autor estende ainda sua análise aos filhos, netos e aos Augustos, em diferentes períodos da família.
Falecida em 1919, Dona Fideralina é a personagem principal do romance de Rachel de Queiroz, "Memorial de Maria Moura". A matriarca semi-lendária tem imensa força simbólica no nosso imaginário cultural, escreve Rachel.
Seria a "versão nacional correspondente à mulher europeia da era vitoriana, distante dos padrões culturais europeus que, na época, moldavam as pretensões fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira e sociedades do litoral nordestino brasileiro".
Mais informações:
Lançamento do livro "Dona Fideralina - mito e realidade". Hoje (25), às 19h, no Auditório Dep. Murilo Aguiar - Assembleia Legislativa (Av. Des. Moreira, 2807, Dionísio Torres)
Diário do Nordeste

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