Grupo Verso de Boca interpreta poemas de Augusto dos Anjos e dá vida à obra do escritor em novo espetáculo

Atores do Grupo Verso de Boca em cena: no espetáculo, principal recurso é a modulação vocal
Rigor na forma e riqueza em conteúdo metafórico. Assim é classificada a obra de Augusto dos Anjos, poeta paraibano que faz ecoar em seus versos sentimentos avassaladores e sensações indescritíveis. Visando aproximar a poesia de Augusto com a realidade cotidiana das pessoas, o Grupo Verso de Boca apresenta "Augusto dos Anjos: o poeta do hediondo", todas as quintas-feiras de outubro, no Teatro Universitário.
"Utilizamos um contexto para que a poesia fique mais verossímil. Sempre pensamos muito quanto à elaboração deste espetáculo, na questão de envolver mais o publico com a poesia", explica Silas Façanha, integrante do Verso de Boca.
Formado por estudantes do Curso de Letras da UFC, o grupo apresenta-se, portanto, "em casa". A entrada é gratuita, sendo cobrado apenas um quilo de alimento não-perecível, destinado à doação para uma instituição de caridade.
A estreia da montagem aconteceu no último dia 5. "Muitas pessoas que vão ao espetáculo já conhecem o poeta e acham interessante essa transferência, mas outra parte intrigante são os expectadores que fazem o caminho inverso: primeiro assistem à apresentação, depois buscam o Augusto dos Anjos nos livros", explica Silas.
Performance
A escolha pelo poeta vem da inspiração que o grupo sente por Augusto. Nordestino e poeta ímpar da literatura brasileira, ninguém conseguiu classificar sua obra. Em seus poemas vê-se a tentativa de usar o verso para expressar de maneira mais crua a realidade: "Com um pouco de saliva quotidiana / mostro meu nojo à Natureza Humana" ("Monólogo de uma sombra", da obra "Eu").
É justamente essa obra que o Verso de Boca toma como base para construir sua performance sobre o artista. Assim, o espetáculo revela-se um mergulho pelos mais profundos poemas do paraibano, retraçando seu percurso na busca do autoconhecimento.
Modulações
A apresentação mostra o homem organismo, o homem em seu embate entre a Matéria e a Ideia. Sem a utilização de microfones, o grupo usa apenas a voz, com modulações vocais, para interpretar os versos e foco na dicção poética - recurso responsável por transformar o poema, o livro em espetáculo, aproximando o poema do espectador.
A ação, portanto, é desenhada pela fala dos atores em cena, que procuram dar corpo ao texto de Augusto dos Anjos, através de uma expressão corporal mínima, acentuando o valor da enunciação verbal.
Projeto
Os estudantes já apresentaram o presente espetáculo na Paraíba, na Universidade Federal daquele estado.
O cenário é econômico, mas capaz de sugerir o clima da criação "augustiana", com suas matizes dramáticas e excentricidades no vocabulário. Busca-se criar um cenário hiper-hediondo, que tanto inspirou Augusto em suas rimas.
O Grupo Verso de Boca tem dezoito anos de atuação vinculada à Universidade Federal do Ceará (UFC) e atualmente é um projeto da Secult/Arte-UFC. É coordenado pelo poeta Roberto Pontes e a professora do Departamento de Literatura Elizabeth Dias Martins.
Criado a partir da bem-sucedida experiência do Grupo Poesia Simplesmente, do Rio de Janeiro, tem em seu elenco Carolina Sena, Daniel Pereira, Leo Cerqueira, Milene Peixoto, Carlos Henrique, Victória Vasconcelos, Kaio Tillesse, Brenda Nobre, Thaiany Santana e Silas Façanha.
Com objetivo de levar ao grande público obras dos maiores poetas representativos da lírica brasileira e de outros povos, o grupo preza pela pelo trabalho com a audição de poemas, tendo em vista formar possíveis leitores do gênero poesia, deixando-o mais atraente e compreensível aos ouvidos e olhos da plateia.
Mais informações
Espetáculo "Augusto dos Anjos: o poeta do hediondo". Às quintas (19 e 26), 19h, no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno (Av. Da Universidade, 2210, Benfica). Entrada gratuita mediante doação de um quilo de alimento. Contato: 3366.7832

Diário do Nordeste

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