Livro conta a história dos 8 dias em que Crato proclamou independência do Brasil

Este ano marca o bicentenário da Revolução Pernambucana, levante republicano, anti-monárquico, que chegou ao Ceará por meio do Crato. De 3 a 11 de maio de 1817, a cidade do Cariri foi governada pelos revolucionários.
Essa história é contada no livro “200 anos da República da Família Alencar na Cidade do Crato”, da professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) Icleide Viana.
Extensão de sua dissertação de mestrado, a confecção do livro se deu após o entendimento da necessidade de fazer um “resgate histórico”, aproveitando a efeméride. “São fatos que a maiorias das pessoas não conhece, infelizmente”, afirma a autora.
A revolução começou no Seminário de Olinda, em Pernambuco, onde estudavam os filhos da aristocracia rural da época. Lá, pululavam as ideias liberais e iluministas da Independência do Estados Unidos (1776) e da Revolução Francesa (1789).
Entre os estudantes do seminário estava o padre cearense José Martiniano Alencar. Com o estouro da revolução, ele foi enviado à sua terra natal como emissário do novo Governo, com a missão de unir a cidade à revolução. Assim como ao Ceará, foram enviados representantes à Paraíba e ao Rio Grande do Norte.
Foi em um domingo, após a missa na Catedral da Sé, que a República do Crato foi proclamada, com a leitura do decreto pelo emissário Martiniano Alencar, em um púlpito da Praça da Sé. Dias antes do anúncio, o revolucionário havia se reunido com a sociedade civil local, advogados, membros da Câmara Municipal e da Guarda Nacional — costurando o apoio ao novo Governo.
Muito do sucesso dos revolucionários em conseguir adesões ao movimento vinha das políticas da Coroa Portuguesa, que havia se transferido anos antes, em 1808, para o País, fugindo das Guerras Napoleônicas. Muitos historiadores apontam que o aumento de impostos e a reserva de cargos públicos para portugueses provocavam descontentamento nas elites locais.
No Crato, aponta Icleide Viana, o prestígio da família Alencar reforçava a revolução. Além de José Martiniano Alencar, seu irmão, Tristão Gonçalves Pereira Alencar, e sua mãe, Bárbara de Alencar, tomaram partido do novo governo.
A empreitada, no entanto, não passou do dia 11 daquele mês, sendo a mais curta das experiências revolucionárias do Movimento de 1817 — em Pernambuco, foi de 6 de março a 20 de maio; na Paraíba, de 13 de março a 7 de maio; Rio Grande do Norte, de 29 de março a 26 de abril.
Icleide Viana aponta que a falta de apoio das demais vilas da província minou o movimento. Além disso, um dos principais suportes da Revolução no Crato, o capitão-mor José Pereira Filgueiras, apoiador da Família Real, arrependeu-se do apoio. Ele arregimentou outros monarquistas e comandou a tomada da Vila do Crato, pondo fim à Nova República.
Esse núcleo da família Alencar foi levado preso para Fortaleza e, de lá, transferido para Recife e Bahia, de onde só foram em 1820. Outras pessoas de sobrenome Alencar, porém, foram assassinadas, mesmo algumas que não tiveram participação no movimento. “Pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinados”, pontua Icleide Viana.
A família, no entanto, teria participação decisiva em outro levante anti-monárquico: a Confederação do Equador de 1824, que também tinha objetivos emancipatórios. Pelas participações nas revoluções, Bárbara de Alencar teve seu nome imortalizado, em 2014, no Livro dos Heróis da Pátria. A matriarca da revolução ainda ganhou estátua na Praça da Sé.
Saiba Mais:
O livro foi distribuído pelos sebos e livrarias do Cariri, a partir de seu lançamento, em junho desse ano. Interessados de outras regiões podem encomendar a publicação através do email: icleided.fisica@bol.com.br ou do telefone (88) 9.9624.7429. O preço é de R$ 20.

Tribuna do Ceará

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