Livro escrito por capitão do Exército e engenheiro narra participação cearense na 2ª Guerra Mundial

 
Mário Henriques Aragão (sentado, à esquerda) e o Capitão Gustavo, os autores do livro, durante lançamento (FOTO: Divulgação)
Um livro permite conhecer e aprofundar a história dos cearenses que lutaram na Segunda Guerra Mundial. É Reminiscências da História do Ceará na Segunda Guerra Mundial — Estudo Político, Social e Militar, do historiador e capitão do Exército Gustavo Augusto de Araújo Chaves Pereira e do engenheiro agrônomo e estudioso militar Mário Henriques Aragão.
Lutaram no conflito, oficialmente, 377 cearenses. Os autores, no entanto, reconhecem que os números são imprecisos e a quantidade de combatentes pode ser maior. E ainda não abrangem os “Soldados da Borracha”, cearenses convocados à Região Amazônica, onde extraíam o leite da seringueira, cuja coagulação, borracha, era essencial para a construção de equipamentos muito utilizados na guerra.
Mais de mil cearenses lutaram nessa frente indireta, estima o Capitão Gustavo. Boa parte deles morreu, vitimados, sobretudo por doenças como febre amarela, malária e a doença de chagas.
Na guerra europeia, morreram seis cearenses, cinco no campo de batalha e um em um acidente de carro em Florença (Itália). O livro conta com uma lista dos nomes de todos os combatentes identificados na pesquisas.
Eram, em sua maioria, jovens do Interior, sem experiência nenhuma com armamentos, alistados em uma grande campanha cívica e patriótica. “Nosso país não estava preparado para enfrentar o exército mais poderoso do mundo à época, o da Alemanha nazista”, afirma o capitão Gustavo.
O Brasil declarou guerra às Potências do Eixo em 1942, três anos após o início do conflito. Naquele ano, o País assinou um pacto bilateral com os Estados Unidos, em que cidades litorâneas do Nordeste foram destacadas como base de defesa da América do Sul. Mais de 30 navios mercantes brasileiros haviam sido torpedeados pelas tropas nazistas no Atlântico, deixando mais de 1000 mortos.
Nesse primeiro momento, através dos jornais e rádios, foi feita uma grande campanha de conscientização anti-Nazi-Fascimo. O capitão Gustavo vê nisso uma ironia, afinal, o País estava em uma ditadura, a do Estado Novo, “um simulacro de um regime Fascista”, como descreve.
O livro também imerge um pouco nesse clima político reinante no País à época. O capitão Gustavo lembra que existia uma grande pressão da sociedade civil brasileira para que o País declarasse guerra ao Eixo. Em Fortaleza, imigrantes  italianos e alemães eram hostilizados. Casas comerciais desses estrangeiros chegaram a ser depredadas e incendiadas, ele relata
Constantemente, Fortaleza passava as noites às escuras, em blecautes a fim de ocultar a localização da cidade às embarcações inimigas, conta o historiador. Existia enorme temor de que a capital fosse bombardeada tal como os navios no Atlântico. E ainda, em 1943, os estudantes da faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC) custearam a construção de um obelisco, na Praça da Bandeira, para funcionar como símbolo de uma vitória que só viria dali a dois anos. 
Monumentos como esse também são destaques em Reminiscências da História do Ceará na Segunda Guerra Mundial. Não foram, todavia, os únicos impactos da Segunda Guerra Mundial na geografia fortalezense. Homenagens como as avenidas dos Expedicionários e Sargento Hermínio — um dos cearenses a lutar nas batalhas da Segunda Guerra — são listadas também no livro.
A Guerra
Enviados à Itália, os cearenses lutaram em campanhas montadas pelos Estados Unidos, que reuniam combatentes de diversos países do mundo. A Força Expedicionária Brasileira (FEB) só entrou em luta dois anos após a declaração de guerra, em 1944. Os Aliados já avançam contra o Eixo no continente europeu; fazia um ano da Batalha de Stalingrado, onde os soviéticos viraram o jogo contra a Alemanha Nazista, passando a avançar na frente oriental. O “Dia D”, na frente ocidental, ocorreria já naquele ano de 1944. Os fascistas só resistiriam mais um ano.
Capitão Gustava conta que, originalmente, o Norte da África estava programado como destino dos cearenses. A expulsão dos fascistas da região os levaram a cidades como Montese e Monte Castelo, onde foram sediadas batalhas que não só impactaram a história da humanidade, como ainda batizariam bairros da capital. 
“Os autores ressaltam que, na Itália, os oficiais e praças cearenses, mostraram: fé, bravura, coragem, ordem, união, obediência, espírito de solidariedade e muito patriotismo na defesa da paz, da democracia e da liberdade dos povos”, destaca a  contracapa do livro. Hoje, estima-se estarem vivos apenas cerca de 15% dos 25.300 brasileiros que lutaram no conflito. No Ceará, esse número gira em torno de 15, segundo os autores, todos nonagenários.
Na pesquisa para o livro, os autores entrevistaram alguns desses heróis, somando os depoimentos às pesquisas nos jornais da época e na literatura especializada sobre o tema — cujo foco foi, sobretudo, os livros de memórias de quem esteve na campanha. O capitão Gustavo conta que, ao recordarem essas lembranças, eles são bastante emotivos, chegando a chorar. “A gente sente o fervor nacionalista desses homens, que eles estavam ali lutando por uma causa nobre, de todos nós”, afirma o capitão Gustavo.
Ao retornar da Europa, eles não tiveram o devido amparo e reconhecimento do Governo Brasileiro, conta Gustavo. Mesmo que alguns deles apresentassem sintomas de neurose de guerra, aqueles que não eram militares de carreiras simplesmente, foram desmobilizados. Seus feitos só foram resgatados durante o Regime Militar (1964-1985), afirma o capitão.
O descaso parece coletivo. O capitão Gustavo se queixa da falta de material sobre o tema. “Praticamente, só teve ‘O Ceará na Segunda Guerra Mundial’, do jornalista Stênio Azevedo, que não foi muito divulgado”. Foi isso, aliás, que os fizeram debruçar sobre o tema. “Nós temos que valorizar mais nossa história”, afirma. “O povo que não tem passado, não tem História , e, quem não tem História não tem futuro”, resumem os autores logo na apresentação do livro. 
Serviço
Reminiscências da História do Ceará na Segunda Guerra Mundial — Estudo Político, Social e Militar
Como comprar: o livro é vendido pela editora e também pode ser encontrado diretamente com os autores, através do telefone (85) 9.8957.4235 ou do email gustavoaugusto2@hotmail.com.
Preço: R$ 30

Tribuna do Ceará

Comentários

Mais Visitadas

QUALIDADE DA EDUCAÇÃO EM XEQUE

Em tempos de crise, ideias criativas fazem a literatura circular pelo Brasil

MinC habilita entidades que farão arrecadação no cinema

REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Uma vida que se torna festa