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Massacres e chacinas são lembrados em produções audiovisuais, entre eles o do Carandiru, 25 anos atrás

Massacres e chacinas são lembrados em produções audiovisuais, entre eles o do Carandiru, 25 anos atrás
Imagens do filme "Fuga da Rocinha" (2016), uma das produções recentes que recorda situações de violência vividas no País. Independente e feito com participação deum grupo cearense, filme foi exibido neste ano pela TV Diário
Tinha capacidade para 3.250 vagas, mas mantinha 7 mil presos sob custódia. Essa era a triste realidade do Complexo Penitenciário Carandiru, aberto na década de 1920 e desativado em 2002, após ser palco do maior massacre do sistema prisional do País, em 2 de outubro de 1992. Após 111 presos mortos, 120 policiais indiciados e 77 condenados, ninguém foi preso.
Em memória a essa data, o periódico Brasil de Fato e a produtora Pavio produziram a série "25 anos do Massacre do Carandiru: Terra das Chacinas", especial com vídeos, fotos e textos sobre a chacina.
"Acompanhamos o caso Carandiru desde que ele ia prescrever, em 2010, não aceitamos que prescrevesse porque eram presos que não tinham nem sido julgados, eram presos que estavam na custódia do Estado e eles não podiam ser executados da forma que foram", afirma Débora Maria da Silva, fundadora do Mães de Maio, que participou da realização dos vídeos. O grupo é formado por mães que perderam seus filhos no conhecido Crimes de Maio, em 2006.
Dos 111 presos mortos, 84 não tinham sido julgados. O debate acerca do sistema carcerário e da violência policial se estendem até hoje. Além de rememorar o massacre, a produção põe em pauta o debate sobre políticas públicas, a letalidade policial e o sistema prisional do Brasil. Os vídeos - três no total - também discutem a equivocada ideia de "bandido bom é bandido morto" e de como ela afeta a violência vivida pelas populações nas periferias.
Ecos
O Carandiru e outros grandes massacres seguem como tema de diferentes trabalhos no campo das artes, a exemplo do cinema - a chacina naquele uma vez já considerado maior presídio da America Latina foi, por exemplo, revivida no longa "Carandiru", de Héctor Babenco. Já a série do Brasil de Fato e da Pavio traz o contexto histórico do ocorrido, suas consequências e como as pessoas veem e entendem o Carandiru hoje e as políticas públicas criadas devido ao fato.
"Terra das Chacinas: 25 anos do Massacre do Carandiru" inclui os vídeos "2 de outubro", de 5 minutos; "Exceção Permanente" (9 minutos); e finaliza com "Inimigo Interno" (13 minutos), com produção de Igor Carvalho e roteirização dele e de André Godinho.
"Os 25 anos do massacre do Carandiru foram eclipsados pelo recente massacre de Las Vegas e a mídia acabou deixando de lado os 25 anos de uma resposta que a sociedade precisa. Por isso achamos necessário participar, porque isso multiplica nosso grito, nossas vozes, nossas reivindicações", afirma Débora Maria.
Periferia nas telas
Uma determinada forma como a periferia é retratada nos cinemas já está no imaginário das pessoas. Filmes como "Cidade de Deus" (2002), "Tropa de Elite" (2000 e 2007) e Última Parada 174" (2008), são longas com grande representatividade, tanto nacional como internacionalmente. "Não só a Rocinha, mas as comunidades em geral são retratadas de maneira superficial, através de personagens unidimensionais. Bem e mal, certo e errado, com se na realidade fosse tudo tão simples assim", afirma Antônio Júnior, diretor e roteirista do filme "Fuga da Rocinha" (2016).
Independente, o longa-metragem de ficção foi produzido pela MáKina Cultural (RJ) em parceria com o coletivo Aquarela Cariri, de Juazeiro do Norte (CE), como parte de um projeto social realizado com jovens moradores das comunidades da Rocinha e do Vidigal, com apoio da AMABB (Associação de Moradores da Rocinha) e da Rede Coletiva da Rocinha.
O filme tenta fugir da lógica maniqueísta, ao propor uma abordagem sem estereótipos, com foco nas relações de amizade e no drama familiar das famílias que perdem entes queridos para o tráfico. Há um aprofundamento dos personagens, sem opiniões pré-estabelecidas, mas a partir de diferentes pontos de vista para o espectador tirar suas próprias conclusões.
O áudio de tiros do filme são reais. Foram gravados e fornecidos aos produtores. "Isso foi algo espontâneo e não fazia parte da ideia original. Acontece que durante o período de gravação, como toda comunidade sabia que estávamos fazendo um filme, os atores recebiam áudios dos tiroteios e me repassavam como um alerta para eu não ir à Rocinha. Esse tipo de acontecimento, infelizmente, é bem comum, então pensei em utilizar o áudio para demonstrar como os moradores ficam no meio desta situação", explica o diretor.
Durante as gravações alguns alertas chegavam com antecedência e o filme parava de ser gravado. "Um dia começou uma operação enquanto já estávamos lá e tivemos que permanecer por horas na sede da rede coletiva da Rocinha, aguardando", confidencia Antônio.
As gravações na comunidade começaram a ficar mais perigosas, até finalmente serem transferidas para o morro do Vidigal. Com o sucesso na internet, em 2016 o longa foi exibido no 7º Festival de Cinema Independente de São Paulo, onde concorreu nas categorias de Melhor Longa-metragem, Roteiro, Ator Coadjuvante e Trilha Sonora. Atualmente o longa está disponível no canal da produtora no YouTube.

Mais informações:
"25 anos do Massacre do Carandiru: Terra das Chacinas": www.brasildefato.com.br/2017/09/29/terra-das-chacinas/

Diário do Nordeste

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