Projetos literários promovem compartilhamento de livros

Escolas também podem promover trocas de livros mais abertas, como bancas em feiras literárias.
As regras, aliás, são estabelecidas nos primeiros combinados com as  famílias.
As regras, aliás, são estabelecidas nos primeiros combinados com as famílias. (Pixabay)

Pare por um instante e imagine alguém lendo um livro. Esta pessoa  está sozinha, certo? Pelo menos na maioria das vezes é esta a imagem que  temos do ato de leitura, digamos, ideal. Esquecemos que compartilhar  leituras com o outro pode fazer parte da formação literária e ser um  benefício fundamental para que se construa, de fato, um país de  leitores. Isso porque o coletivo tem muita potência.

Na Escola Carandá Vivavida, na Vila Clementino, zona sul de São Paulo, o  exercício começa cedo. As crianças com 3 anos são estimuladas a criar  uma ciranda de livros. As famílias recebem a incumbência de ajudá-las a  escolher um livro do acervo pessoal para compartilhar com o grupo. Elas,  então, fazem carteirinha, identificam as obras e anotam as idas e  vindas. Depois que um livro passa pelas mãos de todos, volta ao lar  inicial.

"Queremos criar a possibilidade de as crianças trocarem o que leem entre  elas, partilhar de algo que gostam. E exercitar o emprestar e tudo o  que envolve a questão, como o cuidado com um objeto que não é da gente",  diz Márcia Hippolyto, coordenadora pedagógica do grupo de 3 anos da  escola. "A gente levanta junto as regras para o manuseio: é preciso se  lembrar de trazer (o livro) para o outro não ficar sem, etc", afirma.

As regras, aliás, são estabelecidas nos primeiros combinados com as  famílias. Não colocar na roda livros de pouca qualidade literária é uma  delas. "Reforçamos que o interesse esteja no literário e não enviem só  livros mais baratos ou de licenciamentos", diz Márcia, que percebe a  força da rede entre os pares: as famílias se influenciam pelas outras  famílias por meio da ação dos filhos. "É tão bonito quando as crianças  vão percebendo como há várias formas de interpretar uma história e isso  acaba refletindo nos pais, que se surpreendem com os tipos de livros que  chegam em casa, às vezes mais desafiantes do que a família possui."

A preocupação com repertório também impulsiona o trabalho da professora  Regiane Magalhães Boainain, para quem compartilhar títulos de qualidade é  quase uma obsessão. Primeiro, ela criou um blog, o 'Veredas do Texto',  para destacar livros que, segundo ela, outros educadores precisam  conhecer. Depois, se empenhou para criar duas bibliotecas: na capital e  na cidade onde nasceu, Piquete (SP).

Com uma amiga, Regiane juntou seu acervo com os de outros colegas e  organizou tudo no Centro Juvenil Dom Bosco, dentro de uma igreja, no  Alto da Lapa. A biblioteca já está funcionando, mas será inaugurada  oficialmente no mês que vem. Agora, se prepara para o projeto em  Piquete. "Descobri que poderia colaborar com o Geladeiroteca", diz,  sobre o projeto que transforma geladeiras em prateleiras de livros,  brincando com a ideia de "alimento para a alma". "Já tenho a geladeira,  estamos cuidando de estilizá-la para encher de livros bons."

Dividindo

A jornalista Duda Porto também sonhava em compartilhar seu acervo.  Devoradora de livros, ela formou uma verdadeira biblioteca, com uma  particularidade: reuniu livros de diversos idiomas. "Queria manter os  títulos em um lugar aberto, de forma gratuita."

Da ideia à abertura da Biblioteca Infantil Multilíngue Belas Artes, que  fica dentro do Centro Universitário Belas Artes, na Vila Mariana, zona  sul, foram quatro anos. Além dos livros que integravam sua coleção  particular, outros foram acrescentados ao acervo e hoje somam 22 mil  títulos em 36 idiomas, como alemão, árabe, catalão, francês, holandês,  polonês e russo, entre outros. Duda ainda abastece, com as doações que  recebe, nove instituições associadas do projeto Biblioteca Circulante.  "Foi um outro jeito que descobri de compartilhar."

Escolas também podem promover trocas de livros mais abertas, como bancas  em feiras literárias. A Escola Santi, no Paraíso, zona sul, além de  estimular a troca de uniformes e livros didáticos entre os alunos,  promove há quase dez anos um encontro por semestre para que as crianças e  adolescentes compartilhem suas leituras literárias. "As famílias fazem  seleção prévia em casa, há pontos de coleta pela escola e no dia do  evento pais voluntários organizam os espaços, dividem os títulos por  gênero"  explica Camila Albuquerque de Mauro, coordenadora de eventos e  atividades extracurriculares do Santi. A qualidade do acervo está na  mira do projeto, assim como provocar a reflexão sobre um consumo  excessivo.

Espaços abertos

Em São Paulo, diversos espaços também promovem feiras de trocas de  livros, como o Instituto Itaú Cultural. "Se eu tenho um livro  posso  trocá-lo por outro para estar sempre com um diferente, e não  necessariamente só comprando, mas exercitando o compartilhamento", conta  Eneida Labaki, coordenadora do Centro de Memória e da Biblioteca do  Instituto Itaú Cultural, sobre a feirinha de trocas que a instituição  promove desde 2014 aos fins de semana.

"É uma experiência interessante. O adulto tem, em geral, a premissa de  que não pode perder na troca, ou seja, que os objetos trocados precisam  ter mais ou menos o mesmo valor. Para a criança isso não importa, ela  não olha o valor, o quanto custou", afirma. A troca, ali, se torna uma  espécie de clube do livro entre desconhecidos, com liberdade de escolha.  "A criança troca porque gostou da capa, gostou de um desenho, porque  algo chamou sua atenção. Muitas vezes elas levam um livro caro e trocam  por outro barato."

Já o Espaço de Leitura, lugar dedicado ao incentivo e a práticas de  leitura no Parque da Água Branca, em São Paulo, faz a feira com base nas  doações recebidas. "Selecionamos e separamos os livros em caixas, por  gênero. E a troca é um livro por outro, do mesmo gênero. Assim, trocamos  literatura adulta por literatura adulta, infantojuvenil por  infantojuvenil e assim por diante", explica Taís Mathias, uma das  educadoras do Espaço. "A questão do consumo permeia nosso projeto. Temos  como valor o acesso ao livro da forma mais desimpedida que puder. Não é  preciso se cadastrar nem se identificar para fazer a troca." As  informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Agência Estado

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