100 anos da Revolução Russa

Isabel Filgueiras
Correspondente em são paulo
isabelfilgueiras@opovo.com.br
O centenário da Revolução Russa marca a data em que o ideário dos pensadores Karl Marx e Friedrich Engels ganhou uma chance de se tornar real. Em 1917, o mundo via um governo socialista pela primeira vez, sem saber o que esperar dele ou se o chamado “socialismo utópico” seria realmente possível. Liderada por Lênin, a mudança que culminou no fim do Império Russo e da dinastia Romanov abriu as portas para novas perspectivas. Cuba, Coréia, China, Vietnã seguiram caminhos similares.
A Revolução de Outubro, pelo calendário gregoriano, seguido pelo Brasil, ocorreu em novembro. À época, no entanto, o império czariano seguia o calendário juliano, 13 dias “atrasado”. Portanto, os eventos da tomada de poder dos bolcheviques narrados no fim de outubro, na verdade, aconteceram em novembro. A partir deste ponto na história, tornou-se possível o surgimento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Com ela, nasceu uma potência forte o suficiente para se tornar crucial na derrubada do nazismo de Adolf Hitler, em 1945, e se opor aos Estados Unidos por quase 50 anos.
Ainda inspirada na obra de Marx e Engels, houve a reforma agrária em certo grau, com redistribuição de terras entre campesinos. Sindicatos assumiram controles de fábricas, fazendas passaram a produzir para a comunidade. O governo tentou igualar as classes sociais. Ainda hoje, os vestígios da época são vistos na arquitetura do Leste Europeu. As casas pré-fabricadas e blocos de arranhas-céu em série. Estátuas de Lênin, Marx e, até o menos admirado, Stálin, continuam espalhadas por cidades russas. Novas personalidades e ícones passaram a fazer parte da cultura.
As camisas do argentino Che Guevara, líder da Revolução Socialista Cubana, ainda são populares entre jovens de vários países. Frases das revoluções ainda são repetidas, para o bem ou para o mal. Figuras são cultuadas ou odiadas. A biografia desses personagens é motivo de polêmica com passagens sombrias, violentas e partes que se consideram atos heróicos. Os russos saíram de um regime autoritário, do Czar, que perseguia seus inimigos, para outro. Um novo ciclo de sangue e repressão começou, segundo membros do próprio partido comunista.

Olhar atual
Essa parte da história fez com que as gerações seguintes, pós- União Soviética, sentissem mais incerteza que orgulho daquele momento da história que influenciou pessoas de todo o mundo. Talvez os relatos de prisões arbitrárias e assassinatos no governo stalinista tirem um pouco do brilho da prosperidade atingida na época. Apesar de apresentar um novo sistema ao mundo, o regime se utilizou de armas velhas, já conhecidas na sua forma de governo com os vícios de seu nêmesis, o capitalismo.
“Sem a Rússia, não teria havido a China comunista”, afirma, à emissora alemã DW, o historiador, especialista em origens do comunismo, Gerd Koenen. Ele participou de um série de debates e mostras na Alemanha sobre a influência do comunismo na sociedade atual. A cultura deixada pelo comunismo tem sido debatida este ano com mais afinco por conta do centenário da revolução. Na Rússia, no entanto, a efeméride passa quase despercebida. O fato histórico tem perdido importância no calendário russo. O próprio presidente Vladimir Putin faz questão de deixar de lado o período que evidenciou o país como potência, mas também foi marcado pela violência e ainda causa polarização por todo o mundo.
O governo de Putin tem marcado a lembrança o período com um grande silêncio oficial. Nenhum grande ato foi programado por Moscou e, ao contrário, a tentativa de realizar um protesto contra o atual presidente terminou com o registro de cerca de 200 prisões. É o que ato não tinha sido autorizado pelo Kremlin. Assim funciona a Rússia dos dias atuais.
O Povo

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