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Francisco Bosco "A vítima tem sempre razão?", sobre os conflitos públicos do tempo presente

por Leonardo Lichote - Agência O Globo
Francisco Bosco: filósofo problematiza ações de grupos identitários ( FOTO: OLIVER KORNBLIHTT )
Um clipe de Mallu Magalhães é acusado de racismo pela forma como bailarinos negros aparecem nele. Uma mulher branca é questionada por uma mulher negra por usar turbante. Blocos de carnavais decidem não tocar marchinhas como "Cabeleira do Zezé" e "O teu cabelo não nega" alegando não querer endossar o conteúdo ofensivo que identificam em suas letras. A cantora Marcia Castro é vista como "fiel defensora de estupradores" ao postar uma foto ao lado do músico Fael Primeiro, acusado de assédio sexual. Os quatro casos - que mobilizaram debates intensos nas redes sociais recentemente - estão entre os analisados por Francisco Bosco em "A vítima tem sempre razão?. No livro, Bosco analisa, a partir de "tretas" específicas, como tem sido o debate sobre questões como o machismo e o racismo - e levanta prós e contras trazidos nesse espaço público "mais democrático, mais tenso, mais polarizado". No caminho, avalia diferentes faces de conceitos como "apropriação cultural" e "lugar de fala", enquanto aponta a perversidade de outros, como "racismo reverso". Nos depoimentos abaixo, Bosco aponta as reflexões centrais do livro.
Inversão
"A premissa de que 'a vítima tem sempre razão' ou bem é uma petição de princípio, ou uma redundância. Num caso, primeiro seria preciso demonstrar que a alegada vítima é mesmo uma vítima. E, no outro, se ela é vítima, claro que tem razão. Questionar essa premissa não é uma provocação, e sim procurar compreender, precisamente, o porquê de ela fazer sentido, mesmo sendo uma petição de princípio e um pleonasmo. Minha hipótese é que ela decorre de uma inversão simétrica. O machismo estrutural deslegitima e desqualifica a palavra das mulheres, então muitas feministas passaram a fazer o mesmo, em sentido contrário: partem do princípio de que, em casos de denúncias contra homens, eles são culpados de antemão, mesmo se as denúncias forem inconsistentes, pouco verossímeis, como duas das que analiso no livro (contra o compositor Gustavito e o intelectual Idelber Avelar). Isso é responder a injustiças estruturais com injustiças individuais. Não considero o melhor caminho".
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Lugar de fala
"Um conceito como 'lugar de fala', por exemplo, é pertinente e necessário em uma de suas faces: aquela para a qual a vivência concreta dá acesso a dimensões dos problemas sociais que a abordagem meramente teórica não é capaz de captar. É preciso, portanto, abrir radicalmente o espaço público para as vozes que vêm desses lugares de fala. Já em sua outra face, a noção é impertinente. Ao evocar o lugar de fala para desqualificar a participação no espaço público de sujeitos de fora dos grupos identitários, o que ocorre é simplesmente a anulação da vida moral da sociedade. O pressuposto é de que cada sujeito só pode defender os interesses de sua estrutura de origem. Não existe senso moral, não existe solidariedade. É a versão identitária da noção de 'esquerda caviar'".
"Essa é uma formulação de Helena Vieira (de que o linchamento 'facilita perversamente a vida'). Entendo por ela o seguinte: concentrar os desejos de transformação na conduta de indivíduos particulares é mais fácil do que dedicar-se a transformações estruturais. Os indivíduos estão mais acessíveis, sobretudo em tempos de redes digitais. Claro, 'o pessoal é político', como disse Carol Hanisch, e logo criticar condutas de indivíduos tem caráter exemplar. Por outro, lado, essa estratégia tem produzido injustiças. Essas injustiças se devem, em larga medida, às premissas que estão orientando algumas denúncias. Premissas que vêm das formulações das feministas radicais estadunidenses dos anos 1980".
"É uma ideia falaciosa. Um exemplo do que o repertório conceitual das lutas identitárias chama de 'falsa simetria'. Não se pode igualar, por exemplo, a opressão brutal e sistemática sofrida pelos povos negros, com as tentativas, deles, de se criar espaços exclusivos para fins de fortalecimento psicológico, debate interno de estratégias etc. A semelhança formal (a exclusão do outro) é anulada pela extrema diferença das condições reais".
Ataques
"O que critico são ataques a indivíduos pelo mero fato de eles pertencerem a estruturas opressoras (como o machismo e o racismo). Esses indivíduos são às vezes acusados de reproduzirem a opressão de suas estruturas de origem. Mas, é aí que está o ponto, essas acusações não devem ser sumariamente acatadas, como se eles devessem ser moralmente condenados a priori. Devem ser examinadas na sua dimensão concreta. Não há justiça sem o exame do caso particular. Se esse exame levar a evidências de condutas erradas, moral ou legalmente, é claro que os indivíduos devem ser responsabilizados. E isso contribui, sim, para transformações estruturais. Veja o caso de um Harvey Weinstein, por exemplo".
Virtudes democráticas
"Penso que a cultura popular brasileira foi capaz de realizar o conjunto de virtudes democráticas que a sociedade brasileira nunca pôde atingir: democracia racial em ato (como no futebol), encontro entre negros, mulatos e brancos, pobres e ricos, iletrados e universitários (como no samba). Tentar transformar a sociedade segundo os termos da cultura popular foi um sonho profundamente inspirador. Esse sonho parece ter acabado, porque o buraco da política se revelou muito, mas muito mais embaixo. É preciso muito enfrentamento para operar nessa dimensão".

Diário do Nordeste

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