"Olga Barroso - na vanguarda da vida", do escritor Juarez Leitão, será lançado hoje (10), na biblioteca da Unifor

Uma mulher à frente de seu tempo. Assim pode ser definida a sobralense Olga Barroso, cuja contribuição ao longo da vida marcou a história política, social e cultural do Ceará, sobretudo entre os anos 1950 e 1960. Por iniciativa do Instituto Myra Eliane, que tem à frente o empresário Igor Queiroz Barroso, seu neto, a história dessa cearense, considerada "uma líder feminista", será compartilhada com o público, materializada no livro "Olga Barroso - na vanguarda da vida", do escritor Juarez Leitão, cuja solenidade de lançamento acontece hoje (10), às 19h, no auditório da biblioteca da Unifor.
A publicação marca o centenário de nascimento de Raimunda Olga Monte Barroso (1917- 1993) transcorrido nesta quinta (9). O escritor Lúcio Alcântara apresentará a obra e o autor, enquanto a atriz Fernanda Quinderé procederá leitura dramática de uma crônica que fala sobre família, escrita em 1984 por Olga Barroso, que também se destacou nas Letras.
Caberá ao filho, Roberto Parsifal, agradecer a homenagem em nome da família. Igor Queiroz Barroso assina o prefácio da publicação, destacando a paixão da avô pelo Ceará e seu povo, sempre presentes na sua literatura.
Ao longo das 328 páginas da obra, dividida em 13 capítulos, o autor recupera fragmentos da memória de Olga Barroso, filha única de um dos maiores líderes políticos da região Norte, Francisco de Almeida Monte (1895- 1963), conhecido como coronel Chico Monte, deputado federal entre os anos 1946 e 1961. Acompanhando o pai, ele aprendeu ainda cedo a gostar do campo da política.
Trajetória
O passeio pelo universo de Olga Barroso começa na infância, no sertão cearense, passando por Fortaleza, onde concluiu o curso Normal, no Colégio da Imaculada Conceição. Inclui, ainda, as cidades do Rio de Janeiro e Brasília. Nesta última, graduou-se em Ciências Religiosas. O livro restaura a memória tanto de Olga Barroso quanto do seu tempo, compreendido entre 1917 e 1993, quando morreu ao 76 anos, na fazenda Pocinhos, município de Forquilha.
Com destaque no trabalho social, foi pioneira na estruturação das atividades assistenciais exercidas pelas primeiras-damas. Sua sensibilidade estendeu-se para as artes, em especial a literatura, escolhendo o gênero crônica como forma de expressão. Detinha estilo leve e observador, escrevendo sobre o cotidiano, lançando seu olhar curioso e perspicaz sobre o tempo, os costumes e as atitudes humanas, conforme assinala Leitão.
arte"Olga Barroso foi uma líder feminista também", acrescenta o autor, reconhecendo outra característica: "todos os descendentes, filhos e netos chamam a atenção para essa capacidade amorosa e afetiva como mãe. Era uma super-mãe", reitera.
A obra permite um mergulho profundo na história da protagonista, complementada por galeria de fotos em distintos momentos de sua vida. Em uma delas, aparece com o bisavô; noutra, ainda criança, com roupas de época; ou aos 42 anos, quando assumiu a função de primeira-dama. O casamento com o jovem culto Parsifal Barroso (1913-1986) possibilitou a aproximação com uma de suas paixões (depois da família, claro): a política.
O livro traz aspectos peculiares da vida da então primeira-dama do Ceará, que participou ativamente das atividades políticas ao lado do marido, quando ele exerceu os cargos de deputado estadual, federal, senador, ministro do trabalho do presidente Juscelino Kubitschek e governador do Ceará (1959-1963).
De maneira minuciosa, através de pesquisa documental e entrevistas, o escritor convida os leitores a desbravarem as cartografias reais e imaginárias que fizeram parte do universo de Olga Barroso.
Protagonista
Sua atuação como primeira-dama, no período de 1959 a 1963, foi fundamental para mudar a concepção do papel feminino no governo, deixando o lugar de coadjuvante para assumir caráter de protagonismo. "Ela criou a estrutura do trabalho assistencial de primeiras-damas no Estado", aponta Juarez, posteriormente continuado pelas sucessoras no cargo.
Uma das iniciativas de Olga Barroso foi a criação da Sociedade de Amparo ao Mendigo, sendo também presidente da Associação das Pioneiras Sociais do Ceará, serviço de voluntariado que consistia em visitar as periferias da cidade, vendo in loco o problema dos moradores.
"Numa época de mulheres submissas e oprimidas, Olga Barroso foi protagonista da história e de seu tempo", sintetiza Leitão, integrante da Academia Cearense de Letas (ACL) e do Instituto do Ceará.
"Ela herdou do pai essa atitude desassombrada diante da vida. Firmou seu nome no Ceará como mulher destemida e de grande coragem", declara Leitão, afirmando que uma das inspirações de Olga Barroso foi dona Federalina Augusto, mulher que também viveu à frente do seu tempo. Essa admiração foi expressa no livro "Quem são elas", no qual uma das personagens é Federalina. "Olga espelhou-se muito nela, apesar de terem vivido em épocas completamente diferentes", pondera o autor.
Outro traço de Olga Barroso foi a participação ativa na vida literária de Fortaleza. Ela fundou a Sociedade Amigas do Livro, integrou a ala feminina da Casa de Juvenal Galeno, e fez parte da Academia Cearense de Retórica.
Como primeira-dama, desenvolveu intensa atividade social, colaborando na criação do Hospital Infantil Albert Sabin, além de postos de atendimento à infância em vários municípios cearenses. Dirigiu a secção cearense da Legião Brasileira de Assistência (LBA) e o serviço social do governo do Estado do Ceará.
Para Leitão, as mulheres cearenses se sentiam representadas por Olga Barroso. Mas a protagonista teve sorte ao casar com um homem cuja visão também era acima de seu tempo. O exercício da verve política foi graças à compreensão do marido. Ela tomava decisões e também argumentava com ele. No entanto, nunca chegou a concorrer a cargos eletivos, porque os pais não permitiram.
No prefácio da obra, Igor Queiroz Barroso escreve: "resgatar a história de Olga Barroso, dando-lhe luz e o merecido reconhecimento por sua trajetória de vida tão rica, não é para mim apenas motivo de orgulho, mas de inspiração. Uma mulher que esteve à frente de seu tempo e que teve atuação marcante na história política e intelectual de nosso Estado não poderia ficar apenas na memória dos familiares e amigo que com ela conviveram", pondera.
Nas reuniões da LBA, que presidia, costumava afirmar aos colaboradores "pessoal, não estamos no mundo a passeio. Temos um destino e uma missão na vida. A história espera por nós: vamos fazê-la", completa. A obra é dedicada "às crianças carentes do Ceará a quem fundamentalmente (Olga) destinou sua obra social e empenhou a primazia do seu ideal", destaca o autor.
Busca
Sobre a pesquisa para a obra, Leitão assegura que não teve muito tempo, mas que cresceu ouvindo esse relato. "Fui documentar a história que já sabia", diz, admitindo que o livro resgata as raízes das famílias Monte e Xerez, duas vertentes clânicas de Olga Barroso, com reminiscências na Península Ibérica.
O ponto de partida foi a investigação documental, iniciada em Sobral, nas coleções dos jornais "A Lucta" e o "Correio da Semana", entre 1920 e 1930. Na Capital, percorreu entidades às quais Olga Barroso pertenceu. Também fez entrevistas com familiares, amigos e contemporâneos.

Mais informações:
Lançamento do livro "Olga Barroso - na vanguarda da vida". Nesta sexta (10), às 19h, no auditório da biblioteca da Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). Contato: (85) 3477.3000

Diário do Nordeste

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