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Desigualdade, o verdadeiro desafio

A desigualdade, em países ocidentais, nunca foi tão alta, exceto, talvez, na véspera da Primeira Guerra Mundial.
Na Itália, também por causa do reduzidíssimo crescimento, há vinte e cinco anos a renda da classe média está estagnada ou em queda.
Na Itália, também por causa do reduzidíssimo crescimento, há vinte e cinco anos a renda da classe média está estagnada ou em queda. (AFP)

Por Emanuele Felice*
A esquerda está em crise em toda a Europa. Mas a economia do velho continente nunca esteve tão bem, desde que passou a usar o euro. Aparentemente, é um estranho paradoxo. Nunca visto antes. Basta pensar que, nos anos 1930, quando o maior país da Europa lastimavelmente entregou-se aos cuidados hitlerianos, estávamos no meio de uma crise econômica sem precedentes. Agora não é mais assim: talvez a economia não conte mais nada nas escolhas dos eleitores? A economia ainda conta. Mas para resolver o enigma, é preciso olhar mais de perto os números do crescimento, entender quem se beneficia e quem perde.
Descobrir-se-á, então, que a desigualdade, em países ocidentais, nunca foi tão alta, exceto, talvez, na véspera da Primeira Guerra Mundial (e tal precedente já deveria dar o que pensar). Mais ainda. Descobrir-se-á que dos anos 1970 até os dias atuais a classe média nos EUA não melhorou seus próprios padrões de vida, apesar do grande aumento do PIB e da produtividade, embora aquele país tenha guiado a revolução tecnológica da última geração. Na Europa, a situação foi um pouco melhor, graças à manutenção dos sistemas de welfare. Mas na Itália, também por causa do reduzidíssimo crescimento, há vinte e cinco anos a renda da classe média está estagnada ou em queda. Não por coincidência o nosso é o país onde as formações populistas tendem a se tornar, em pouco tempo, as mais fortes de toda a Europa ocidental.
Claro, aqui sobre a debilidade da esquerda pesam míopes estrategismos e injustificáveis rancores pessoais. Mas não é só isso. Existe uma subjacente inadequação da classe dominante, o que levou a diagnósticos e, consequentemente, soluções equivocadas. Renzi, com algumas exceções (com os oitenta euros, quando não por acaso o seu consenso optou pelo máximo), muitas vezes tomou decisões que favoreciam as classes privilegiadas (cortes indiscriminados de impostos, mesmo para os mais ricos), além do mais as concedendo com uma justificativa descaradamente otimista, esquecendo quem era deixado para trás.
Por outro lado, as forças da esquerda investiram enormes energias na defesa das aposentadorias, mas na Itália os mais pobres (os mais atingidos pela crise) são os jovens, não os idosos.
E quanto aos jovens, não basta defendê-los com palavras: em um mundo globalizado, os empregos bem remunerados não brotam do nada, não podem ser impostos por lei; mas são o resultado de uma economia competitiva, com instituições eficientes, o que cria inovação - tudo o que na Itália não existe.
É preciso ter a coragem de dizer que, se as desigualdades nos países ricos aumentaram com a globalização, aquelas entre nós e o resto do mundo diminuíram. Os partidos de esquerda e reformistas, por incapacidade cultural ou porque acomodados em posições confortáveis, em vez disso ofereceram interpretações parciais ou deformadas sobre a globalização. Por um lado, tem sido afirmado que a globalização aumenta as desigualdades e os conflitos em todo o mundo, portanto deve ser combatida e rejeitada: falso. Pelo outro lado, argumenta-se que a globalização deve ser aceita sem reservas, eliminando os obstáculos inclusive para os mais ricos, que são o seu motor: igualmente falso. A globalização deve ser gerida com a política. Um exemplo? Reforçar a Europa federal e democrática: a única maneira de combater eficazmente o excessivo poder dos bilionários e das grandes corporações. Mas quem é que da esquerda propõe uma união fiscal europeia?
O grande problema das nossas sociedades avançadas é a desigualdade. Ameaça a própria manutenção da democracia. O segundo problema talvez seja o meio ambiente. Para ambos, as soluções devem ser encontradas em um mundo que, felizmente, tornou-se global. Se isso for verdade, nunca houve tanta necessidade da esquerda como agora, pelo menos nos últimos cinquenta anos. Mas a esquerda deve ser capaz de elaborar um pensamento à altura dos desafios que tem pela frente.

Repubblica, 30-11-2017.
*Professor de Economia Aplicada na Universidade “G. D’Annunzio” Chieti-Pescara, Itália.

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