Espetáculo Manual dx Guerrilheirx Urbanx ressignifica e atualiza obra de 1969

O espetáculo de formatura do 3º ano do Curso Técnico em Arte Dramática, do Cefart, estará em cartaz até o dia 17 de dezembro.
No palco, 13 atores, ora interpretam, ora performam histórias de confrontos, desconstruções, críticas e diálogos.
No palco, 13 atores, ora interpretam, ora performam histórias de confrontos, desconstruções, críticas e diálogos. (Divulgação)

Figuras históricas e símbolos de diferentes gerações, que jamais dialogariam na linha do tempo tradicional, se encontram em Manual dx Guerrilheirx Urbanx, espetáculo de formatura dos alunos do 3º ano do Curso Técnico em Arte Dramática, do Centro de Formação Artística e Tecnológica da Fundação Clóvis Salgado – Cefart.
Com direção de Marina Viana, e codireção de Henrique Limadre e Cléo Magalhães, a montagem é inspirada no Manual do Guerrilheiro Urbano, do político, guerrilheiro e escritor brasileiro Carlos Marighella, e propõe o encontro de Frida Kahlo, Maria Bonita, Lampião, Dandara, Hitler, Joana d'Arc e tantos outros nomes históricos que se conectam em um espaço atemporal, confrontam diversos discursos, criando, assim, uma revolução suspensa, com um tempo que começa de novo.
No palco, 13 atores, ora interpretam, ora performam histórias de confrontos, desconstruções, críticas e diálogos. Tendo o clássico texto de Marighella como pano de fundo, a narrativa é atualizada para os dias atuais. A Guerrilha Urbana, de Marighella, se transforma em metáfora para a diversidade contemporânea, que precisa encontrar novas armas para lutar contra a opressão, o racismo, a homofobia, a transfobia e o machismo.
“Estamos buscando a poesia contida nos documentos mimeografados do manual do Marighella. As questões apontadas por ele no texto, ensinando com detalhes o emprego de táticas de guerrilha urbana, como viver na clandestinidade, a troca de informações, preparação técnica, manuseio de armas e explosivos, dialogam com o nosso atual momento, em que as urgências seguem sendo as mesmas de 50 anos atrás, mesmo que nosso olhar para elas seja distinto. impossível não questionar quais serão nossas armas, nossas estratégias e nossos aparelhos. Serão os mesmos? O manual-documento foi diluído em novos desejos, novos corpos, novos tempos, novas tentativas, novas ruinas. Até o dia de hoje, nossa arma segue sendo o teatro”, pontua Marina Viana.
Encontros inimagináveis acontecem a todo momento no Teatro João Ceschiatti. Maria Bonita, por exemplo, ao se deparar com Che Guevara, o confronta por seu posicionamento machista e homofóbico. Já Jesus Cristo, outra figura histórica presente na montagem, se divide entre a divindade religiosa e a figura de uma estrela do rock. O próprio palco é mutável, começando com encenações na Av. Afonso Pena e passando para o Ceschiatti.
De acordo com Marina Viana, há cenas criadas com a proposta de problematizar essas figuras históricas, em outras há uma tentativa de confrontar duas gerações: a geração que lutou com armas contra a ditadura militar e a geração dos formandos, jovens artistas diante de mais um golpe, seguido de uma série de retrocessos. “revisitar este documento em 2017, onde a história se repete em um cenário diferente e com atores diferentes, significa homenageá-lo (o documento e seu autor), bem como subvertê-lo. o manual se dilui no espetáculo em performances que alcançam a voz dxs artistas em cena. xs artistas, que são jovens e não viveram a ditadura, olham para o passado e tentam se reconhecer ali, dilacerando e deglutindo este manual, criando um primeiro esboço de seu próprio manual dx guerrilheirx urbanx” - acrescenta.
Para os alunos que encerram o curso de teatro do Cefart com essa montagem, o espetáculo é um desafio. No primeiro semestre, a turma participou da montagem Menos de Nós, com direção de Adélia Machado, e que tinha a linha dramática como recurso para atualizar o mito de Medeia. No Manual dx Guerrilheirx Urbanx, a turma se envolve com um teatro mais performativo.
O estudante Lucas Matias conta que trabalhar com esse estilo era um desejo dos próprios alunos, daí o convite para Marina Viana, que é reconhecida por trabalhar com recursos performáticos em suas criações teatrais, para dirigir a montagem de formatura. Lucas explica que o processo de preparação, que começou há cinco meses, contribuiu para a desconstrução do processo anterior. “Viemos de uma peça que nos exigiu carga dramática. Essa nova montagem, já nos coloca em outro lugar, um lugar que, inicialmente, provoca estranhamento para, em seguida, nos preparar para a performance e a interpretação”, pontua.
Trilha sonora e figurino – Seguindo a linha do roteiro do espetáculo, a trilha sonora de Manual dx Guerrilheirx Urbanx faz recortes atemporais. Criação do músico Barulhista, a trilha reúne composições que dialogam com as figuras históricas presentes na peça, bem como canções revolucionárias, de protestos e de luta. “Assim como o roteiro, a própria trilha sonora é uma colagem de tempos”, detalha Marina Viana. Já o figurino é assinado por Mariana Blanco, que trabalha atravessamentos e transformações do tempo na indumentária do elenco, que cria conexões com as personagens da peça, mas não se limita a identifica-las de forma direta. “Há, nas peças, elementos iconográficos que ajudam a identificar a Joana d’Arc, o Jesus Cristo, o Che, mas não é algo que diga muito sobre a personagem, pois os atores não podem estar presos a uma iconografia específica”, comenta.
Marina Viana – Atriz, dramaturga e diretora teatral graduada no curso de Artes Cênicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) com habilitações em Licenciatura e Bacharelado em Interpretação Teatral desde 2005. É integrante dos Grupos: Mayombe Grupo de Teatro, Teatro 171, Cia Primeira Campainha, e é colaboradora de vários outros coletivos da cidade de Belo Horizonte (MG). Tem uma banda, já publicou Zines, realiza prêmios e faz cabarés. Em 2014, estreou junto a Primeira Campainha os espetáculos Isso é para a dor e A Tardinha no Ocidente, assinando neste último, também, a dramaturgia. Trabalhou como atriz em Sarabanda, adaptação do filme homônimo de Ingmar Bergman, sob direção de Ricardo Alves Junior e Grace Passô. Estreou também o espetáculo solo “Festival de Ideias Brutas, ep. 01”, sob direção de Rodrigo Fidelis. Em 2015, estreou “Pereiras” juntamente com Rodrigo Fidelis e dirigiu Calor na Bacurinha, espetáculo manifesto do coletivo feminista carnavandalizado Bacurinhas. Em 2016, estreou junto ao Mayombe o solo Amor: Manifesto Antiacademicista pró-bruxaria sem rigor conceitual do meu lado ocidental que Eurípedes desconhece, uma leitura de Medeia, e A Mulher que andava em círculos, uma homenagem às mães argentinas da Praça de Maio, ao movimento mães de maio do Brasil, uma reflexão afetiva sobre memória, história e esquecimento. Juntamente com o coletivo curitibano Estábulo de Luxo, inicia também em 2016 a Saga Cabaré Voltei. Cabaré Work in progress e interestadual que pesquisa dentre outras coisas a revolução e o carnaval. Entre 2011 e 2012 publicou o Zine o Mimeógrafo (https://issuu.com/primeiracampainha7), juntamente com a Primeira Campainha. Também com a Campainha realiza o Prêmio Banana Rosa no Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. Desde 2015, faz parte da Banda Viada.  Com o teatro171, coordena o espaço171, espaço de ocupação e compartilhamento artístico onde acontecem atividades etílicas e culturais como o VAREJÃO (Varietê Artístico de Risco, Eclético, Jocoso, Anárquico e Onírico) em parceria com This is Not.
Carlos Marighella – Ativista e líder comunista, Carlos Marighella, (1911 - 1969) teve uma trajetória de vida ligada ao combate a governos autoritários, desde o Estado Novo de Getúlio Vargas até a Ditadura Militar. Foi um dos principais organizadores da resistência contra a ditadura militar, iniciada em 1964. Filho do imigrante italiano Augusto Marighella, operário, e da baiana Maria Rita do Nascimento, escreveu, em 1932, um poema contendo críticas ao interventor do Estado, Juracy Magalhães, o que resultou em sua primeira prisão. Dois anos mais tarde, abandonou o curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Bahia para se filiar ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Também em 1934, muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa a integrar a organização do partido, ao lado de Luís Carlos Prestes e Astrogildo Pereira. Em 1936, é novamente preso, acusado de subversão. Após ser libertado, foi impedido de atuar pelas vias legais e passou a viver na clandestinidade. Em 1939, Marighella foi novamente preso e torturado. Ficou na prisão até 1945, quando foi beneficiado pela anistia do processo de redemocratização do país. Em 1946, Carlos Marighella foi eleito deputado federal constituinte pelo PCB baiano. Nesse mesmo ano, perdeu o mandato, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra cassou todos os políticos filiados ao PCB. Voltou a viver na clandestinidade. Em 1953, foi convidado pelo Comitê Central do PCB para viajar à China e ver de perto as consequências da Revolução Chinesa de 1949. À frente da ALN, Marighella passou a coordenar ações de guerrilha urbana. O governo o taxou de terrorista e iniciou uma grande caçada. Marighella era apontado como inimigo público número um da nação. Para orientar as ações da ALN, Marighella escreve, em 1969, o Manual do Guerrilheiro Urbano, um guia para a militância que lutava contra a ditadura. Carlos Marighella foi morto em novembro do mesmo ano, em uma emboscada que envolveu dezenas de agentes da ditadura.

Montagem de Formatura
Curso Técnico em Arte Dramática do Cefart
Período: 1º a 17 de dezembro de 2017
Horário: de quinta-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h
Local: Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes
Endereço: Av. Afonso Pena, 1537 – Centro
Entrada gratuita
Informações para o público: (31) 3236-7400

Fundação Clóvis Salgado
 

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