IV Semana de Arte Urbana de Fortaleza provoca a discussão sobre as variadas formas de intervenção da arte na cidade

por Antonio Laudenir - Repórter
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Inexiste qualquer absurdo na afirmação de que uma cidade é capaz de falar ou se expressar. Esta linguagem, este canal comunicativo, encontra-se em um espaço, por vezes, pouco explorado e até negligenciado. Sim, a rua tem muito para informar e, para entender esta transmissão e produção de sentidos, é necessário, cada vez mais, que se faça uma imersão sensorial nestes territórios. Além, claro, de muito debate sobre este tema.
A partir dessa provocação, a IV Semana de Arte Urbana (SAU) de Fortaleza convida a população para despertar novos olhares, a partir das artes e paisagens urbanas. Totalmente gratuito, o evento acontece entre os dias 6 e 8 de dezembro, no Porto Iracema das Artes, e inclui uma série de intervenções, debates e oficinas.
Distinguindo-se das manifestações de caráter institucional ou empresarial, bem como do mero vandalismo, a manifestação artística produzida no perímetro urbano é capaz de denunciar e até capturar o momento que cada cidade evidencia. Um recente exemplo é capaz de pontuar esta complexa rede.
Quando o termo "Fortaleza Apavorada" começou a circular pelas redes sociais em 2013, algo de estranho alterou o cotidiano de uma farta parcela da elite alencarina. À época, as preocupações básicas dessa faixa da população resumiam-se a criticar a recente inclusão de ciclofaixas nas vias públicas. Após este movimento que clamava por mais "segurança", gradativamente, ir para a rua tornou-se a nova vedete para esta turma.
Pois bem, um pequeno salto temporal e estamos em 2017. Em determinado momento, uma conversa entre amigos questiona a incomoda visão de uma cidade geograficamente guiada por muros, cercas elétricas e serviços de vigilância particular. Um dos interlocutores comenta que esse atual cenário reflete uma cidade que, historicamente, foi fundada ao redor de um forte. Ou seja, "separar", "afastar" e "proteger-se" do outro seriam sentimentos enraizados no âmago do cidadão fortalezense.
Exagero ou não, o diálogo destes anônimos incide sobre a relação desta sociedade com o ambiente da rua. Em uma capital alardeada com uma das cinco maiores do País, seus habitantes pouco dialogam ou se comunicam. Como se agonizasse, Fortaleza encontra na expressões registradas em muros e edificações uma maneira de conversar e de se expressar. Sim, caro leitor, a rua lá fora não é só um território maligno e recheado de medo. A urbe comunica.
O texto de apresentação desta quarta edição é sintético, porém dotado de profundidade. "A arte de rua não apenas intervém, mas cria uma cidade que não existe, dá movimento e espaço a lugares imaginários e possibilita mostrar que nem sempre há sobreposição entre mapas e territórios", apontam os organizadores.

Programa
A conferência de abertura do evento (dia 6) acontece às 19h e recebe o filósofo Nelson Brissac. Professor do curso Tecnologias da Inteligência e Design Digital da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o pesquisador trabalha com questões relativas à arte e ao urbanismo. Brissac é autor, dentre outros livros, de "Paisagens Urbanas" (1996), "Arte/Cidade - Intervenções Urbanas" (2002) e "Paisagens Críticas - Robert Smithson: arte, ciência e indústria" (2010), o docente tece reflexões a partir do tema "Ver do meio".
Já no dia 7, 15h, a agenda de conversas inicia com a mesa "Arte Urbana, Estética e Política", que terá a pesquisadora Deisimer Gorczevski , a artista Aline Albuquerque, Sabrina Araújo e o Bruno Spote do Servilost/ Titanzinho. À noite, a partir das 19h, será o momento para a jornalista e pesquisadora Iana Soares e a artista visual e escritora Raisa Christina dividirem a mesa "Cartografias de Afetos: Arte e Cidade".
"Riscos, rasuras, grafias e nomes: quem assina a cidade?" é o tema da mesa que encerra a programação e terá como debatedores o pesquisador Daniel Mittimann, a coordenadora dos cursos de Artes Visuais do Porto Carolina Vieira e a professora da Universidade Federal de Fortaleza (Unifor) Alessandra Oliveira. O encontro acontece às 19h. As mesas de abertura e encerramento serão no auditório do Porto Iracema e no dia 7 de dezembro, mesa da tarde na Sala B2 e da noite na sala A5.

Interação
"Esta edição está mais ligada à relação entre arte e cidade. Intervenções urbanas que criam a ideia de participação, de movimento, que nos convocam a interagir com elas. É um convite a vermos a cidade como grande museu a céu aberto", destaca, em nota, Glória Diógenes, antropóloga e professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Responsável por assinar a curadoria do evento, Glória afere que a Semana pretende abordar as variadas formas de intervenções urbanas, partindo de um olhar que reverbera bem mais do que a dita arte consagrada. "É através destas intervenções que conhecemos a cidade onde moramos. Elas narram nossa história, expressam o acontecer da cidade", ressalta. A programação contará com a presença de participantes, que vão discutir, entre outras coisas, a articulação entre paisagem e arte urbana.

Oficinas
Na programação formativa, o grupo Acidum ministra oficina de stencil. Por sua vez, Gustavo Diógenes protagoniza oficina de "Figura Urbana", enquanto Vitor Grilo organiza a oficina "Isso Não é Pixação: Diálogos entre Xarpi e Video Mapping". As três formações acontecem no período da tarde, durante os três dias. Ao todo, cada uma conta com nove 9h/aula (quarta, quinta e sexta, das 14h30 às 17h30). A participação nas oficinas é por ordem de chegada e não serão feitas inscrições prévias.
Na sexta, o evento termina com uma festa de encerramento a partir das 20h30min. O som ficará por conta do DJ Alexandre Diógenes e serão projetadas fotos de Joyce S. Vidal, graduada em Cinema e fotógrafa do Porto Iracema das Artes.

Programação
Dia 6/12
19h - Auditório
Palestra de abertura: "Ver do meio. Experiência e percepção na cidade contemporânea" - com Nelson Brissac Peixoto;
Dia 7/12
15h - Sala B2
"Arte Urbana, Estética e Política" (Mesa com Deisimer Gorczevski, Aline Albuquerque, Sabrina Araújo e Bruno Spote - Servilost/Titanzinho;
19h - Sala A5
"Cartografias de Afetos: Arte e Cidade", com Iana Soares e Raisa Christina.
Dia 8/12
19h - Auditório
"Riscos, rasuras, grafias e nomes: quem assina a cidade?" (mesa com Daniel Mittimann, Carolina Vieira, Alessandra Oliveira)
20h30 - Pátio do Porto Iracema das Artes
Festa de encerramento com o DJ Alexandre Diógenes e projeções de fotos da Joyce S. Vidal.

Oficinas
Dias 6, 7 e 8/12
Das 14h30 às 17h30
" Laboratório Acidum: Stencil Arte - com Acidum Project" (Ateliê)
"Figura urbana: pintura gestual e confecção de lambes", com Gustavo Diógenes (Sala A3)
- "Isso Não é Pixação: Diálogos entre Xarpi e Video Mapping", com Vitor Grilo (Sala A5)

Mais informações:
IV Semana de Arte Urbana de Fortaleza, de 6 a 8 de dezembro, no Porto Iracema das Artes (Rua Dragão do Mar, 160, Praia de Iracema). Gratuito. Contato: (85) 3219.5865

Diário do Nordeste

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