Obras e trajetórias literárias inspiram documentários nos Estados Unidos e no Brasil

por Dellano Rios - Editor de área
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Não é fácil para um documentário disputar a atenção do público, no contexto da TV paga e de seus correspondentes virtuais - os serviços de streaming, como Netflix e Amazon Prime Video. Os norte-americanos até falam em uma "Era de Ouro da Televisão", a partir de 2000, baseados na qualidade de suas ficções seriadas. O cardápio de novas séries monopoliza as atenções e as iniciativas de divulgação. Tanto que pouca gente deve ter percebido "Voyeur", título que entrou quase na surdina no catálogo da Netflix na última sexta-feira, 1.
"Voyeur" é um documentário conduzido por dois jovens e desconhecidos cineastas, Myles Kane and Josh Koury. Diante das câmeras, contudo, eles têm uma celebridade, do tipo que apenas um mercado editorial forte é capaz de criar. O escritor Gay Talese, 85 anos, é um dos grandes nomes do que ficou conhecido por New Journalism ("Novo Jornalismo"). Suas obras de não-ficção continuam a vender e a chamar a atenção do público e da crítica norte-americana.
O documentário é baseado no livro mais recente de Talese, "O Voyeur" (lançado no Brasil, ano passado, pela Cia. Das Letras). Trata-se de uma reportagem longa sobre Gerald Foos, dono de um hotel de beira de estrada, que construiu um estrutura para dar, a ele e à esposa, a possibilidade de espionar o quarto de seus hóspedes. O tema nem fez tanto burburinho, comparado às acusações do Washington Post, de que a fonte/personagem teria inventado fatos, endossados por Talese ao publicá-los. Steven Spielberg queria produzir, com Sam Mendes dirigindo, uma versão da história, mas desistiu após a confusão.
No mês passado, a Netflix já tinha disponibilizado um documentário centrado em outra figura importante do New Journalism. "Joan Didion: The Center Will Not Hold" é um ensaio retrospectivo da carreira de Didion, 82 anos. Autora de best sellers como "O Ano do Pensamento Mágico", ela é famosa por um texto carregado de marcas pessoais. Didion se mostra nas histórias que conta; ao mesmo tempo, dotado de uma percepção que revelam uma inteligência invulgar. O filme foi dirigido por um sobrinho da escritora, o ator Griffin Dunne ("Um Lobisomem Americano em Londres" e "Depois de horas").
Histórias
Os documentários sobre Talese e Didion acertam ao registrar estes veteranos ainda em ação. São oportunidades de indagar autores de porte a respeito de seus ofícios. Recentemente, outros filmes recuperaram grandes nomes da não ficção norte-americana. A HBO exibiu por aqui o excelente "Sobre Susan Sontag", um perfil que Nancy D. Kates fez da ensaísta, autora de "Contra a interpretação". Já "Eu não sou seu negro", de Raoul Peck, concorreu ao Oscar de documentário no ano passado. O filme é uma tradução visual para um ensaio (inacabado) do escritor James Baldwin, sobre a militância negra nos EUA em ebulição, por conta das tensões raciais dos anos 1950 e 1960.
Por aqui, nossos escritores ainda carecem de documentários à altura de suas obras e de suas personalidades. A literatura, como os quatro filmes até aqui mencionados mostram, é um excelente ponto de referência para se compreender as fissuras no tecido social.
Mês passado, estreou, em algumas capitais, "Lygia, uma escritora brasileira". É um retrato consistente de Lygia Fagundes Telles. O público cearense ainda não pode vê-lo. Mas a notícia de sua existência já deve ser celebrada. Sobretudo, se ajudar a abrir um filão por aqui.

Saiba mais
Voyeur (EUA, 2017)
De Myles Kane eJosh Koury. Com Gay Talese. Disponível na plataforma de streaming Netflix
Joan Didion: The Center Will Not Hold (EUA, 2017)
De Griffin Dunne. Com Joan Didion. Disponível na plataforma de streaming Netflix
Eu Não Sou Seu Negro (EUa/ França, 2016)
De Raoul Peck. Com James Baldwin. Disponível para locação no Globosat Play e iTunes; e em DVD
Lygia, uma Escritora Brasileira (Brasil, 2016)
De Hélio Goldsztejn. Com Lygia Fagundes Telles, Jô Soares, Maria Adelaide Amaral. Em cartaz em cinemas no Sul e Sudeste, é uma produção da TV Cultura que deve chegar à TV e ao formato DVD

Diário do Nordeste

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