Ação chama atenção para os cuidados com a Ponte dos Ingleses

Fotos Mateus Dantas
Fotos Mateus Dantas
Lugar de encontro de jovens, enamorados, músicos de plantão, turistas e moradores não só da Praia de Iracema, mas também – e sobretudo – da periferia de Fortaleza, a Ponte dos Ingleses, na contramão do vento, sol e mar característicos, pede socorro. E não é de hoje. Na manhã do último sábado, 6, uma das respostas ao descaso visível e crescente (tábuas e portas arrancadas, vidros dos quiosques quebrados, falta de pintura...) veio por meio do Recriar Pontes – Mutirão e Ocupação Cultural.
A ação independente reuniu jovens e adultos de coletivos e grupos ligados ao hip hop, bem como às áreas da literatura, dança, poesia e teatro, entre outras. “Essa nossa iniciativa vem de uma preocupação com os espaços culturais que a Praia de Iracema está perdendo, principalmente dos anos 2000 pra cá. Perdemos o Peixe Frito, que era um espaço de arte e criação e, agora, tivemos também a notícia de que talvez perderemos o Teatro da Boca Rica”, afirmou o sociólogo cearense Johnson Sales, também à frente da organização do evento.
Oriundo do Conjunto Ceará, Johnson é um dos representantes do movimento hip hop no Estado e está à frente ainda do coletivo Território Criativo. “Com essa perda dos espaços culturais e criativos aqui da Praia de Iracema, resolvemos unir esses atores sociais por entendermos que esse processo é bem maior. A questão da ponte não é só requalificá-la, mas que tipo de desenvolvimento se quer ter para essa área. A ponte precisa ser um polo sustentável, um local de cultura”, enfatizou.
A programação teve início por volta das 10 horas com uma lavagem da ponte (piso e banheiros sem porta). Na sequência, veio a grafitagem das paredes e tetos dos quiosques. Na parte da tarde, a ação ainda contou com oficinas (arraia, malabares e stêncil), batalha de MCs, saraus livres (poesia, dança e teatro), reggae do Canindezinho Roots e, por fim, trance de rua com o DJ Jotapê. Tudo sob o olhar atento de Flor Fontenele, educadora social de rua e conselheira estadual dos direitos da criança, além de uma das representantes da cena punk de Fortaleza nos idos dos anos 1980.
Acompanhada do marido e da filha, a estudante Camila Cristina escolheu uma das paredes do segundo quiosque para grafitar. “Gosto de colorir a cidade e gostei dessa iniciativa”, resumiu ela. Já para a produtora cultural Jaqueline Grabiec, também moradora do bairro, iniciativas como essa devem partir independente de partidos. “Tenho uma ligação afetiva também com a área, claro. Trabalhei no Peixe Frito com o Marcelo Santiago, o Kazane, etc. Então eu sou cria dessa galera. Em tudo podemos ver o belo e eu estou aqui porque o amanhã é a gente quem faz. Temos que plantar sementes dentro de um coletivo. A ponte pertence às comunidades próximas daqui, aos pescadores, aos moradores”, destacou ela.
Enquanto alguns poucos visitantes adentravam o espaço, outros reconheciam a área. As atividades iam dando continuidade e chamando a atenção. Risos soltos e muita descontração caracterizaram, por exemplo, as oficinas de arraia e malabares. “A minha, eu vou soltar lá no finalzinho. Esse povo só sabe se enganchar!”, sinalizou Flor com seus cabelos brancos que dividiam espaço com uma pequena, porém marcante, mecha meio laranja, meio rosada; um boné colorido e tattoos completavam o look.
“A ideia é que o pessoal do underground - os grafiteiros, o pessoal do movimento hip hop, etc., quem realmente frequenta aqui - também seja ouvido e que esse processo não venha a ser de higienização. Precisa haver uma dimensão humana. Já que nenhum governo abraça essa causa, que pelo menos uma parte seja, para que a ponte venha a ser um espaço colaborativo e que reflita um pouco dessa cultura que já vem há muito fervilhando aqui”, concluiu Johnson.
TERESA MONTEIRO
O Povo

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