Biblioteca abriga coleção de Rachel de Queiroz

por Roberta Souza - Repórter
Quase não se vê uma marca de leitura ou algum detalhe que identifique a quem pertenceram aqueles 2.800 livros e 263 periódicos. Rachel de Queiroz (1910-2003) pouco deixou vestígios nas obras de sua coleção pessoal que foram direcionadas à Biblioteca da Universidade de Fortaleza (Unifor) há exatamente um ano.
Doadas pelo Instituto Moreira Salles (IMS), onde se encontravam desde 2006, elas carregam histórias. Revelam os gostos, o trabalho e os presentes de leitura que a escritora cearense juntou ao longo dos anos, e permitem um contato íntimo com aquela que foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras por sua vasta contribuição literária.
Um total de 13 prateleiras abrigam a coleção de Rachel administrada pela Biblioteca da Unifor. Até agora, três foram catalogadas. Nelas, estão livros traduzidos e/ou escritos por ela, e muitos dedicados a ela, com recados de um ciclo intelectual de amigos muito conhecido por todos, a exemplo dos escritores Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Graciliano Ramos.
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Quem folheia as obras, pode deparar-se logo com uma dedicatória dessas: "A Rachel de Queiroz, não uma pedra no meio do caminho, mas um abraço amigo do Carlos Drummond. Rio, IX. 1967", no clássico "Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema", de 1967.

De Manuel Bandeira, lê-se em edição de 1948 do raro "Mafuá do malungo": "A grande e cara Rachel mando este livro, no qual ruim é a parte de Manuel, ótima a do João Cabral. Rio, 1948". Este consta apenas de 110 exemplares em papel de linho, e foi impressa para os amigos de Manuel Bandeira, por João Cabral de Melo Neto.
De Graciliano, percebe-se intensa cumplicidade em edição de "Angústia": "Rachel, este livro não é meu: é nosso. O seu trabalho para arrancá-lo foi pelo menos igual ao meu, sem exagero. Diga-me uma coisa: por que é que v. Não transforma em romance o 'Retrato de um brasileiro'? Seria admirável. Abraços, Graciliano. Rio, 1947".
A letra de Rachel mesmo é que quase não se lê na coleção. Somente em alguns casos raros, como no livro "Humilhados e ofendidos", de Dostoiévski, por ela traduzido. A profissão de tradutora aliás, é facilmente compreendida quando você se depara com uma estante só de dicionários, alguns inclusive clássicos, de português-francês do século XIX.
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O vestido de Rachel de Queiroz encontra-se exposto na entrada da Biblioteca da Unifor. Ele foi doado pelo advogado José Luís Lira, biógrafo da escritora, à Fundação Edson Queiroz

Rachel leitora
A responsável por cuidar do acervo da autora cearense na Biblioteca da Unifor, Rafaelly Chaves, faz uma análise da coleção. "Rachel dizia que era um animal político. Ela também costumava dizer que as obras dela preferidas de leitura eram livros de história. É tanto que a gente pode encontrar aqui vários desses, como a coleção da História Francesa, além dos livros de literatura nacional e internacional que ela costumava ler", explica.
O acervo conta, por exemplo, com uma versão de "Vidas Secas" em inglês, além de títulos de conterrâneos, como a obra quase toda de José de Alencar, "Aves de Arribação", de Antônio Sales. A assistente da biblioteca conta e exibe também algumas obras que a escritora provavelmente nem leu. "As páginas ainda estão fechadas, naquele costume antigo de que os presenteados só podiam abrir no ato do recebimento", explana. É o caso de "Canções", de Mário Quintana, e "Poemas Traduzidos", de Manuel Bandeira, ambos com as páginas cerradas.
Do acervo, Rafaelly, que é licenciada em Letras, destaca algumas edições do clássico "O Quinze", livro que consagrou a autora nacional e mesmo internacionalmente. Uma versão dele em japonês é a preferida da assistente, e sempre está em destaque quando ela vai apresentar o acervo para os interessados. Outra, ilustrada por xilogravuras de Abraão Batista, e com uma tiragem de apenas 250 cópias também consta na coleção da escritora cearense.
Contato
O acesso à Coleção Rachel de Queiroz na Biblioteca da Unifor é muito simples. A visitação guiada pode acontecer de segunda a sexta, de 8h30 às 17h, e aos sábados, de 8h às 13h. No caso de visitas escolares, é necessário fazer agendamento. O espaço conta com 17 mesas lúdicas, ilustradas com imagens ampliadas do rosto de Rachel de Queiroz, das capas de algumas de suas obras e também das dedicatórias de amigos escritas a próprio punho.
No entanto, não se pode ler os livros do acervo. "Esses livros não são para locação, nem podem ser lidos aqui. Isso porque a maioria deles já está disponível na internet, além de contarem com outras edições possíveis de alugar aqui na biblioteca. Já a fotografia é autorizada, e o pesquisador vai ter um acesso maior para ler", Rafaelly faz essas ressalvas.
Sobre o público que frequenta o espaço desde maio passado, quando o acervo foi aberto à visitação, a assistente traça um perfil. "A gente tem recebido bastante alunos de ensino médio e fundamental que vêm conhecer mais a história da Rachel, dos livros que ela escreveu, dos livros que ela lia. Mas a exposição é aberta a pesquisadores, estamos esperando que todos venham", convida. Boas memórias estão lá a esperar.
Saiba mais
Após o falecimento de Rachel de Queiroz, em 2003, a família da escritora doou para o bibliófilo José Augusto Bezerra, atual presidente da Academia Cearense de Letras, parte do acervo pessoal de livros e obras autorais.
O acervo dela foi dividido entre o Museu Rachel de Queiroz, em Quixadá, a doação feita a José Augusto e o que foi adquirido pelo Instituto Moreira Salles e, posteriormente, doado para a Biblioteca da Unifor.
Entre as preciosidades da coleção, estão "Mafuá do malungo", de Manuel Bandeira; "O defunto", de Pedro Nava; e "Xilogravuras", de Lasar Segall.
A biblioteca, toda catalogada pelo Instituto Moreira Salles, pode ser visualizada em http://www.acervo.Ims.com.br/
Mais informações:
Acervo Rachel de Queiroz, no 2º andar da Biblioteca da Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). Visitação: De segunda a sexta, de 8h30 às 17h; e sábados, de 8h às 13h. Agendamentos: (85) 3477.3169
Diário do Nordeste

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