Editora Terreno Estranho aposta em obras inscritas nos limites entre as duas linguagens artísticas

por Dellano Rios - Editor de Área
A zona de interseção onde coincidem música e literatura. É este o espaço que a editora Terreno Estranho pretende explorar. Baseada na capital paulista, a casa editorial está no mercado desde o fim do ano passado, quando se apresentou lançando um livro de Lee Ranaldo, guitarrista do Sonic Youth. Reunindo textos pessoais, dotados de qualidades poéticas, "JRNLS80s" é uma espécie de autorretrato do músico, nos primeiros anos de sua banda, uma das principais do chamado rock alternativo.
"A priori, é essa proposta da Terreno Estranho: trabalhar a conexão musical no mundo das letras", explica o editor Marcelo Viegas. A ideia, contudo, é fugir do óbvio, como as biografias e autobiografias que predominam nas livrarias brasileiras. "Não quer dizer que não elas possam acontecer. Mas o terreno que a editora está buscando pavimentar passa por maneiras paralelas de falar de música e literatura", detalha.
"A editora é do Nilson (Paes). Ele é o fundador. E chamou, primeiro, o (Fábio) Massari para essa missão de montar a editora. O Massari exerce uma função que é uma espécie de direção artística. Quando eles decidiram pelo primeiro título, o livro do Lee Ranaldo, fui convidado para fazer a edição do livro", apresenta Marcelo Viegas.
Terreno Estranho, aliás, é o nome de um programa radiofônico, produzido e apresentado por Nilson Paes. Massari, um ex-VJ da MTV conhecido por seu repertório enciclopédico e por conhecer pérolas underground de meio mundo, já havia investindo no universo editorial, publicando pelas Edições Ideal - de uma coleção de textos a uma HQ jornalística. E Viegas um editor experiente, que trabalhou com a Ideal até a editora encerrar suas atividades, no começo do ano passado.
O catálogo das Edições Ideal, contudo, era mais convencional, com biografias, livros de memórias e coleções de entrevistas. A ideia da Terreno Estranho, para fins de comparação, é percorrer as margens deste universo musical-editorial.
arteProjeções
Se toda a projeção mais otimista for concretizada, a nova casa editorial coloca outros quatro livros no mercado até o fim do ano. "O primeiro a sair é de um autor nacional, um músico se aventurando por meio da palavra escrita. Teremos outro americano publicado, ainda no primeiro semestre", adianta, sem poder revelar mais detalhes. Um dos mistérios, contudo, foi revelado. Em sua conta no Instagram, a editora divulgou que lançará em 2018 o romance "South of the Pumphouse", do baixista norte-americano Les Claypool, do Primus.
O romance de Les Claypool ajuda a entender os caminhos que a editora tenta trilhar. Para começar, é um título bem diferente daquele assinado por Lee Ranaldo. A trama se desenrola num lado decadente dos EUA, povoado por viciados em meta-anfetamina e racistas exaltados. O clima sombrio não é exatamente o mesmo das letras esquisitas e um santo surrealistas do Primus, mas não é distante de certo lodaçal que costuma ser explorado pela turma à margem do mainstream. O balanço geral da crítica e dos leitores é de que se trata de um bom livro.
O que há de musical no livro não é somente o fato de o autor tocar numa banda. Há no algo no livro, uma certa atmosfera, que inspira a criação de trilhas sonoras imaginárias para harmonizar com a leitura.
Investimento e consumo
A Terreno Estranho não é a primeira a investir em um segmento que costuma ser ignorado pelos grandes grupos editoriais brasileiros. "Para nós, apaixonados por música e editores, é uma tentação forte demais pra se possa resistir", confessa Marcelo Viegas.
Entre as muitas pedras pelo caminho, estão os elevados custos dos processos editoriais e amarras de títulos com editoras nem sempre interessadas em lançá-los. Para Viegas, a bibliografia nacional deu saltos quantitativos e qualitativos na última década. "Mas há muita coisa ainda inédita", avalia, citando a obra do jornalista inglês Jon Savage, autor de títulos importantes sobre o punk britânico (dele, saiu por aqui apenas "A Criação da Juventude", da Rocco).
O editor explica que há potenciais a serem explorados, sobretudo pelos artistas independentes. "O consumo da música, em alguma plataforma física, caiu muito. Falam que o vinil faz uma compensação, mas a verdade é que uma minoria é que consome vinil. Esses itens são importantes para as bandas. E eu olho para o livro como mais um item na banquinha de merchandising: você tem a camiseta, o disco em vinil, o CD (que ninguém vai comprar) e o livro", ilustra.
O exemplo dado por Marcelo Viegas também tem a ver com outra de suas observações sobre a área. "O livro de música consegue abrir pontos de vendas que outros não conseguem. Ele pode estar na loja de discos, de instrumentos, nos shows. Isso diversifica sua forma de acessar o público".
As bandas, acredita Viegas, já começaram a entender este potencial do livro. "Agora, fazer um livro não é fácil, como alguns pensam. Falta expertise, de entender que um livro nasce de uma conjunção de forças. Ele tem custos editorias, gráficos, de promoção, de redes sociais. Se você ignora isso, acaba com um problema nas mãos e termina por se frustrar", explica.

Diário do Nordeste

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