Idalino

Michele Barros* 

De todos os meus antepassados, se fosse possível escolher apenas um, gostaria de ter conhecido o avô de meu pai, Manoel Idalino, a quem ele chamava carinhosamente de papai-véi. O que sei é que ele era um homem errante, que não parava em lugar nenhum, sempre com um matulão com rapadura, queijo seco e um pedaço de beiju.

Gostava de vagar pelo mundo, e depois de ter se separado da mulher trouxe na bagagem os oitos filhos, cinco machos e três meninas fêmeas, alguns ainda crianças, e saiu no meio do mundo com eles. Depois de ter se apartado da esposa em Baturité nunca mais a viu e sequer falou mais seu nome, e a loura Francisca nunca mais conviveu com a família.

Criou os oito filhos tocando viola, cantando repentes. Aonde chegava botava um pratinho em cima da mesa e o pessoal fazia jus ao artista. Uma vez fora desafiado pelo maior repentista da cidade onde acabara de chegar, o famoso Passarinho. Depois de horas de duelo Manoel deu um mote tão difícil que deixou o oponente sem fala, então o povo aclamou: “Agora o nosso passarinho é o Idalino”. Daí por esse motivo que os filhos e netos serem até hoje conhecidos como da família dos Passarinhos.

Descendente de portugueses, paraibano, chapéu de palha para proteger a vasta calvície, olhos claros que deixavam transparecer uma bondade diferente, que não parecia ser desse mundo. Contador de histórias fantásticas, às vezes deixava o filho, meu avô, envergonhado, mas todo mundo tinha que ouvir tudo com seriedade, e ai de quem pelo menos risse:

- Hoje de madrugadinha passei por perto de uma lagoa e ouvi uma voz fraquinha me chamando:

- Me acuda seu Manel, me acuda!

- Olhei e vi que uma jararaca estava com um sapinho na boca, fiquei com pena do bichinho e dei uma bengalada na cabeça da cobra que ela acabou soltando o coitado. Ela olhou pra mim com raiva, saiu toda enviesada, mas eu nem me preocupei. E o sapo ainda agradeceu:

- Muito obrigado, Seu Manel! Muito obrigado!

Gostava de brincar, de prosear, conhecido pelas suas tiradas. Numa ocasião acertou de comprar um carregamento de sardinhas, mas com uma condição: Queria todas tratadas, descamadas, e sem uma espinha sequer. Quem conseguiria cumprir com tamanhas exigências? E as risadas ficavam pelo meio do mundo.

E todo dia era dia de um novo caso, uma nova história que ele contava em suas andanças:

- Semana passada inventei de tomar água de coco, mas eu queria de um tipo de coco que só dá em Almofala, de água doce, diferente dos outros cantos, e fui pra lá pra matar minha vontade. Olhei pros coqueiros e calculei quanto tempo levaria para chegar lá em cima... Ora, botei farinha, peixe seco e água num saco e me mandei. Você acredita que eu passei dois dias pra subir nesse coqueiro? Coqueiro medonho de alto! Fiquei cansado, mas valeu a pena! Ô coco bom! Mas na volta fiquei com medo de descer, podia escorregar, né? Olhei pra baixo e só via as nuvens! Não pensei duas vezes: peguei o facão que eu levava na cintura, cortei duas palhas de coqueiro, botei uma embaixo de cada braço, pulei lá de cima, e comecei a voar! Quando eu dei por mim já tava no Crato! Por isso que eu demorei uns dias a mais pra chegar.

E se alguém insinuasse que o que ele dizia não era inteiramente verdade ele se zangava!

​- Vocês não tão acreditando não é?! Pois eu vou-me embora!

​Até que um dia ele realmente foi embora, já velhinho, feliz na sua simplicidade, sem nunca ter tido nada de seu. Meu pai tinha nessa época cinco anos de idade, e já se vão quase sessenta anos desde que se ouviu o seu último repente, mas ele ainda continua vivo nas lembranças dos netos que o conheceram e dos bisnetos que aprenderam suas histórias.

Mesmo sem nunca ter ouvido sua voz ou os acordes de sua viola, cada vez que escrevo uma nova história, que conheço um novo lugar ou que canto algo que me comove, sinto que ele ainda vive, através do sangue que corre em mim, que mais uma vez o Passarinho se apronta para alçar novos vôos.


*Acadêmica da AMLEF - Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza


MIBAAS – 26-06-15

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