Igreja de 'O Pagador de Promessas' será reaberta após 16 anos fechada

Reabertura da igreja do 'Pagador de Promessas
JOÃO PEDRO PITOMBO
DE SALVADOR
Cercada por vitrais quebrados, a imagem do menino Jesus foi resgatada sob espessa crosta de fezes de morcego. A cúpula do altar-mor, destroçada, estava guardada aos pedaços em baús de madeira.
Com quatro grandes rachaduras nas paredes, a igreja do Santíssimo Sacramento da Rua do Passo, no Centro Histórico de Salvador, desmantelava-se rumo ao precipício.
Mas o templo fez jus à saga de seu mais ilustre e improvável personagem. Assim como Zé do Burro, protagonista de o "Pagador de Promessas", peça do dramaturgo baiano Dias Gomes, resistiu, persistiu e manteve-se de pé.
Depois de 16 anos de portas fechadas e 3 anos de uma restauração que custou R$ 11,3 milhões, a igreja do Passo será reaberta aos fiéis nesta segunda-feira (5).
Construído no século 18 numa colina entre Pelourinho ao Santo Antônio Além do Carmo, o Passo é considerado um dos templos católicos mais importantes da Bahia. Com arquitetura que transita entre o barroco e o neoclássico, a igreja é tombada como patrimônio histórico desde 1938.
Aos seus pés, esparramam-se os 55 degraus da Escadaria do Paço, que ganhou o mundo como cenário da adaptação de "O Pagador de Promessas" feita pelo cineasta Anselmo Duarte, até hoje o único filme brasileiro a ganhar Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962.
É nos degraus que levam à igreja –que, no filme, era igreja de Santa Bárbara– que o personagem do beato Zé do Burro enfrenta a ira dos religiosos e a esperteza dos malandros, enquanto tenta cumprir a promessa de levar até o altar uma cruz de madeira que trouxe nos ombros ao longo de sete léguas.
A restauração da igreja, realizada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no âmbito do PAC Cidades Históricas, dá fim a mais de duas décadas de degradação.
SEM FIÉIS
A saída das comunidades tradicionais que deram lugar ao comércio e turismo no Centro Histórico de Salvador acabou afastando os fiéis que a frequentavam. Sem a participação e o engajamento da população, a igreja definhou.
O primeiro baque aconteceu em 1998, quando desabou o baldaquino –espécie de cúpula– do altar-mor. Nos quatro anos seguintes, a igreja funcionou de maneira precária até fechar em 2002 e ser interditada em 2006.
"Muito se perdeu. A igreja foi abandonada e acabou sendo alvo de saques e roubos", afirma Luís Alberto Freire, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, que fez pesquisas sobre a igreja.
O restauro acabou se revelando uma odisseia. Construída no topo de uma ladeira e tendo aos fundos um grande precipício, a obra demandou um crucial trabalho de contenção de encostas –foram instalados 22 tirantes de aço para sustentar o templo.
Do lado de dentro, imagens sacras e azulejos portugueses pintados à mão, datados do século 18, tiveram que ser recuperados um a um.
A cúpula da igreja, pintada em perspectiva ilusionista barroca, foi totalmente refeita. Folhas de ouro foram trazidas da Itália para fazer o processo de douramento das peças que ornam a Igreja.
"Foi um obra de logística complexa porque envolveu, ao mesmo tempo, obras estruturais e a restauração de peças extremamente delicadas", diz Bruno Tavares, superintendente do Iphan na Bahia.
CORES ORIGINAIS
O processo de restauro foi minucioso: sete camadas de tinta foram retiradas para que se descobrisse a cor original das portas, num tom azul escuro desbotado. Na imagem do menino Jesus, foram cinco camadas de tinta retiradas.
O principal desafio da igreja do Passo, contudo, será recuperar os fiéis numa área de Salvador em que há uma igreja histórica em cada esquina. Para isso, o envolvimento da comunidade será crucial.
"Queremos uma igreja aberta para todos que queiram entrar e somar", diz o irmão Jorge Mendes, da Fraternidade Samaritana Beneditina, responsável pela igreja.
As missas serão retomadas, inicialmente às quintas-feiras e aos domingos. Mas a ideia é que tanto a igreja como as escadarias se firmem como um polo cultural do Centro Histórico de Salvador.
Por enquanto, estão sendo discutidos projetos para a construção de um memorial em torno do filme do "O Pagador de Promessas", com uma réplica da Palma de Ouro, além de um café colonial anexo à igreja.
Também há uma proposta de implantar uma escola para formar jovens aprendizes para restaurar monumentos e imagens sacras.


Veja o clipe de "The Obvious Child"

A história não deixa dúvidas para o potencial. Depois de se tornar um ícone com "O Pagador de Promessas", a Escadaria do Paço foi também cenário do clipe de "The Obvious Child", do cantor norte-americano Paul Simon, com participação do Olodum.
Na década seguinte, já com a igreja fechada, as escadarias deram lugar a shows semanais do cantor e compositor Gerônimo Santana, autor de clássicos baianos como "É d'Oxum" e "Eu Sou Negão" e um dos principais expoentes do que pode ser chamado "axé de raiz".
Gerônimo, que entre 2005 e 2015 transformou as escadarias em um grande baile de música baiana, torce para que o espaço seja palco para diferentes formas de arte –da música ao artesanato, da poesia à capoeira.
"O carma cultural daquela escadaria é muito forte. Tem algum mistério por ali que a gente não entende", diz o compositor baiano.

Folha de S. Paulo

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