No Dia Mundial do Braille, bate-papo na Biblioteca Pública Espaço Estação discute esse sistema tátil

por Roberta Souza - Repórter
Usuária do setor braille da Biblioteca Pública Espaço Estação: variedade de obras atrai público diverso, como estudantes, idosos, crianças e interessados em geral. Livros precisam de cuidados especiais ( Fotos: Felipe Abud/Secult/divulgação )
Há mais de 200 anos - 209 para ser preciso -, nascia Louis Braille, em Coupvray, França. Este sobrenome ficaria internacionalmente conhecido por uma contribuição que o jovem daria à humanidade antes mesmo de completar 16 anos. Aos 3, ele feriu o olho com uma ferramenta do pai e uma infecção generalizada provocou cegueira total.
Com grande habilidade na escola, Louis desenvolveu, a partir de técnicas rudimentares, um sistema de escrita e leitura tátil que funciona até hoje de forma oficial para atender pessoas cegas. E, na data de hoje (4), seu aniversário, comemora-se o Dia Mundial do Braille.
Em Fortaleza, um bate-papo gratuito na Biblioteca Pública Espaço Estação abordará essa "revolução do conhecimento na ponta dos dedos". A história do Braille, a feitura dos livros e como se processa a leitura nesse sistema serão alguns dos temas levantados pelo convidado Klístenes Braga, doutorando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará (UECE), mestre em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UECE e especialista em Gestão Pública Municipal pela mesma universidade, sendo pesquisador em tradução audiovisual acessível e consultor em acessibilidade cultural.
Ao lado dele, estarão dois mediadores: Thamyle Vieira Machado (cega) e Marcos Rodrigues de Souza (baixa visão), ambos funcionários do setor Braille na Biblioteca Pública. Marcos, que trabalha lá há cinco anos, compartilha alguns dados do projeto - institucionalizado na Menezes Pimentel desde 1979 -, atualmente sob coordenação de uma das fundadoras, Lúcia Frota. "Contamos com 4.500 títulos divididos em audiolivros e braille. São dos mais variados, desde infantil, infanto-juvenil, a literários como 'O quinze', 'Pequeno príncipe', 'O Corcunda de Notre-Dame'. São autores brasileiros e estrangeiros, uma variedade grande", revela Marcos.
O acervo, segundo ele, costuma ser atualizado três ou quatro vezes ao ano, com base na parceria entre a biblioteca e os institutos Dorina Nowill para Cegos e Benjamin Constant. A Fundação Bradesco e outras instituições também já realizaram doações. "A produção do livro em braille não é como a produção do livro em tinta, esta bem mais frequente, com linearidade, dinâmica maior", contextualiza Marcos. "O livro em braille precisa de todo um processo, desde a autorização da editora para os institutos Dorina ou Benjamin, até a feitura, as tiragens do Brasil e toda elaboração. Isso requer mais tempo, é mais dispendioso", justifica.
Manutenção
A respeito da manutenção desses livros, que exige uma atenção especial, Marcos pontua os cuidados com a temperatura, que deve variar entre 18 e 20 graus celsius, no máximo, e com a acomodação dos livros, que precisam ser organizados em pé para não danificar o braille. Ainda assim, o tempo de vida de um livro formatado nesse sistema é menor do que um impresso em tinta.
À medida que é alugado, o livro em braille também vai se desgastando, num processo natural. Aliás, existe uma regra diferenciada para quem loca estas obras. Diferente dos videntes, que podem ficar até 15 dias com as obras, podendo renovar o empréstimo por telefone, o público com deficiência visual tem direito de mantê-la por até 30 dias, também renovando por meio de ligação.
"Isso porque o usuário cego vai levar três volumes de um mesmo livro que, em tinta, seria impresso apenas em um. Portanto, necessita maior tempo de leitura", afirma Marcos, tomando o beste seller "O Código da Vinci", de Dan Brown, como exemplo. Um livro em tinta com 300 páginas equivale a um em braille de 900 a 950 páginas.
Sobre as expectativas para a transferência do setor em que trabalha para o prédio reformado da Menezes Pimentel, Marcos é otimista. "O que a gente precisa para que nossos livros cheguem lá e fiquem bem acondicionados é de uma estante própria, assim como já tínhamos antes, e deve permanecer", argumenta.
Público
O perfil do público que frequenta o setor braille da Biblioteca Pública varia entre algumas pessoas com formação universitária, outras em processo de ensino fundamental, e outras com idade adiantada, de 50 a 55 anos. "Como nosso acervo é diversificado, vai ter livro para pessoas que tem um gosto mais aprofundado de conhecimento e intelectualidade, pessoas que tem gosto por leitura religiosa, entre outros", aponta.
O audiolivro, por sua vez, não é tão procurado. "Uma coisa é você ouvir algo sobre um livro, ou ouvir um livro sendo lido, e a outra é você ler, ter o prazer. Já teve caso da pessoa pegar os dois formatos do mesmo título", conta Marcos.
Mas não é só o aluguel de obras que move o setor. "Vêm pessoas aqui que muitas vezes estão procurando apenas uma orientação. Por exemplo, tenho alguém na minha família que perdeu a visão de uma hora pra outra. Como faço? Posso ir pra algum local? Tem alguma instituição? Aqui desenvolvemos um trabalho de direcionamento", esclarece Marcos.
"O trabalho do empréstimo fica muito pequeno para o mundo que é uma pessoa com deficiência visual. Muitas vezes ela quer ser ouvida, quer experiências, compartilhamento, quer várias outras coisas", completa o funcionário.
Sobre o evento desta quinta, aberto a todos, Marcos adianta que será discutido o desenvolvimento do método de leitura e escrita braille, mas também serão abordados períodos da história em que ele não existia, e que, de alguma forma, faziam-se tentativas para atender esse público.
Os desejos de Marcos para o presente-futuro, e também de muitos pelos quais ele fala, é por dignidade, respeito, equidade e empatia. "Que um dia a sociedade possa nos perceber não apenas como pessoas com deficiência, mas como pessoas. A deficiência é apenas uma característica nossa. Não somos nós todos. Não se vê só a deficiência, mas as habilidades ao redor daquela pessoa, e é por isso que a gente luta", finaliza.
Saiba mais
O sistema Braille é um processo de escrita e leitura baseado em 64 símbolos em relevo, resultantes da combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas de três pontos cada.
Letras, algarismos e sinais de pontuação podem ser representados. A leitura é feita da esquerda para a direita, ao toque de uma ou duas mãos ao mesmo tempo.
O Brasil conhece o sistema desde 1854, data da inauguração do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, chamado, à época, Imperial Instituto dos Meninos Cegos.
O código Braille não foi a primeira iniciativa que permitia a leitura por cegos. Havia métodos com inscrições em alto-relevo, normalmente feito por letras costuradas em papel, que eram muito grandes e pouco práticos.
Louis Braille simplificou um trabalho com pontos em relevo utilizado por soldados franceses, aprimorando-o e permitindo que o sistema fosse também utilizado para números e símbolos musicais.

Mais informações:
Bate-Papo "Dia Mundial do Braille: A revolução do conhecimento na ponta dos dedos", com Klístenes Braga, Thamyle Vieira e Marcos Rodrigues. Nesta quinta (4), das 14h30 às 17h, na Biblioteca Pública do Estado do Ceará - Espaço Estação (R. 24 de Maio, 60, Centro). Entrada franca.

Diário do Nordeste
 

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