58 anos após ser lançado, primeiro longa-metragem de Jean-Luc Godard reestreia nos cinemas

por Inácio Araujo - Folhapress
arte
Os atores Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo em Acossado: montagem revolucionária
No primeiro dia de filmagem, estavam atores e equipe a postos, mas ninguém conseguia localizar o diretor. Algum tempo depois ele é encontrado num café, escrevendo as cenas que seriam rodadas naquele dia.
Esse início já diz bem sobre o resultado do primeiro filme de Jean-Luc Godard, "Acossado", que reestreou nesta quinta (8) nos cinemas, com distribuição da Zeta Filmes. Desde o primeiro dia, o diretor já trabalhava fora das regras da indústria. Nada de roteiro pré-escrito, nada de horários fixos. O filme seguia conforme a inspiração.
O produtor se inquietava e a opinião geral era de que o jovem diretor fazia uma obra que não seria possível montar.
Bem, o que sabemos depois disso é que a história do gângster Michel Poiccard - que rouba um carro, mata um policial, foge e namora uma jornalista americana - foi recebido de boca aberta pelo mundo do cinema. Não era apenas o talento, aquele tipo de traço leve, inconfundível, do cineasta. Era a montagem, absolutamente revolucionária, que rompia com a continuidade clássica de forma radical, suprimia tempos, criava uma dinâmica que ainda hoje preserva a atualidade. Essa montagem rimava bem com a narrativa fragmentária, com o gosto pela digressão, com a fotografia de Raoul Coutard, com a agilidade de Jean-Paul Belmondo, com a modernidade de Jean Seberg. Eram todos jovens, novos no ramo, acompanhavam Jean-Luc Godard em seu desejo de libertar o cinema de velhas amarras.
Sim, já naquele momento Godard fragmentava a narrativa, embora estivesse longe do que veio a fazer depois, razão pela qual este é o filme que mesmo os antigodardianos costumam admirar.
Se tivesse feito outros como esse... Mas essa não é a natureza de Godard: ali contrariava todas as regras predominantes no cinema francês da época para voltar a experimentar a liberdade que via nos filmes do cinema mudo (francês inclusive, talvez sobretudo).
Por exemplo: usava de maneira sistemática a câmera na mão, então uma novidade. Raoul Coutard era seu cúmplice na experimentação. Entre outras, usava filme fotográfico, de sensibilidade maior do que os filmes para cinema, para obter os efeitos desejados.
Mundo real
"Acossado" passa também a percepção de que o cinema precisa sair do gabinete (do estúdio, do roteiro, das regras fixas) para agregar a vida, o contato direto com o mundo.
Se contestava o cinema oficial ali, depois disso Godard trataria de contestar a si mesmo, filme após filme, como que fazendo da inquietude o centro de sua personalidade - e também do seu trabalho.
O exemplo mais evidente do caráter iconoclasta que ali começava a assombrar o cinema não está na tela. Existe ali um escritor que a jornalista americana vai entrevistar. O papel é de Jean-Pierre Melville, o célebre cineasta. Mas Godard queria que fosse ninguém menos que Céline, até hoje o mais maldito dos escritores malditos franceses (até hoje: mas estávamos a 14 anos do fim da Segunda Guerra).
Amostragem magistral do que seria uma obra indispensável, "Acossado" abre caminho a todas as mudanças pelas quais passaria o cinema daquela época. Hoje não falta quem ache Godard um chato. Pode ser. Mas, caramba, é dali que vem o que de melhor nossos olhos veem.

Diário do Nordeste

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