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Começa nesta segunda (26) o III Encontro Internacional da Imagem Contemporânea

por Iracema Sales - Repórter
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O artista Francisco de Almeida, cuja exposição integra a programação do Encontro
A imagem pode contribuir tanto para denunciar e conscientizar as pessoas acerca de questões sociais - drama da migração, miséria, desrespeito aos direitos humanos, entre outros - como apenas para espetacularizar a realidade. Exemplo recente foi a foto do garoto sírio, morto no mar Mediterrâneo, estampando primeiras páginas de jornais e sites de vários países do mundo em setembro de 2015, e de repente transformando o menino em símbolo da crise migratória na Europa.
O fato mostra a multiplicidade de sentimento que uma fotografia desperta. "A imagem possui papel, simultaneamente, de conscientizar e de causar uma espécie de anestesia", adverte a pesquisadora em cinema contemporâneo Angela Prysthon, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Ela considera pertinente a discussão, que será ampliada, a partir da junção de várias vozes, durante o III Encontro Internacional de Imagem Contemporânea. O evento, que tem como tema "Imagem e liberdade", começa hoje (26), com a inauguração da mostra individual do artista Francisco de Almeida, às 18h, na Sem Título Arte. Em paralelo, será apresentada a performance "Merci beaucoup, blanco!", da artista Michelle Mattiuzzi, que pintará o corpo de branco.
Até 1º de março, pesquisadores do Brasil, França, Itália e Argentina ocuparão diferentes equipamentos culturais de Fortaleza - Cineteatro São Luiz, Cinema do Dragão, Escola Porto Iracema das Artes, Museu da Fotografia Fortaleza e Vila das Artes - para discutir a relevância da imagem na atualidade, ganhando mais ênfase com a popularização da tecnologia digital, no início do século XXI.
O encerramento será na quinta (1º), às 19h, com a conferência "A conquista de uma autonomia visual: marcos históricos e iniciativas fílmicas contemporâneas", com Nicole Brenez, professora de estudos cinematográficos na Universidade Paris III e curadora de programas experimentais e de vanguarda na Cinemateca Francesa.
A pesquisadora assina texto sobre cinema engajado no livro "Levantes", organizado pelo teórico francês Georges Didi-Huberman. Ao todo, serão ministradas 18 conferências, além da programação artística, materializada na mostra de Francisco de Almeida, e na performance "Merci beaucoup, blanco!"
Angela Prysthon, que ministrará a palestra "Poéticas da liberdade na diáspora - o cinema de John Akomfrah", na quarta-feira (28), às 11h, no Cinema do Dragão, recorre ao livro "Diante da dor dos outros", da ensaísta americana Susan Sontag, que aborda justamente a reação dos seres humanos ante a dor alheia.
Anestesia
Até que ponto o excesso de veiculação de imagens pode colaborar para o embrutecimento das pessoas, provocar ações ou, simplesmente, "anestesiar", questiona ela. Por outro lado, prossegue, para além da conscientização, pode levar também à banalização da imagem e, de certo modo, nos tornar insensíveis diante das catástrofes.
Sua fala será pautada no cinema do ganês John Akomfrah. Criado na Inglaterra, ele iniciou a carreira nos anos 1980. Seus filmes tratam sobre questões raciais, colonialismo e pós-colonialismo - atual momento vivido pela Europa, daí as fronteiras estarem sendo fechadas aos migrantes. A revolução tecnológica da era digital provoca essa nova diáspora: muitas vezes, as pessoas viram personagens de um filme real, sem querer.
Com um olhar especial, afirma a pesquisadora, o cinema de John Akomfrah passa ao largo da "banalização e do clichê" das situações representadas, mesclando imagens do presente com passado.
"Ele adensa essa manipulação de imagens" misturando os dois tempos, observa Angela Prysthon, afirmando que sua arte é pouco conhecida no Brasil - embora seus filmes tenham sido apresentados em mostras realizadas nos em Brasília e São Paulo.
Um dos temas recorrentes nos títulos do cineasta nascido em Gana é a migração. A base do trabalho da pesquisadora é o filme lançado em 2013, sobre o teórico jamaicano, radicado na Inglaterra, Stuart Hall (1932- 2014). Ela investiga a diáspora condensada na obra do cineasta africano.
Expandida
A sensibilidade do artista faz com que o filme se torne uma "biografia expandida", ao transpor a história de vida de Hall para todos os migrantes. Angela Prysthon chama a atenção para o sujeito pós-colonial, que vai viver no império, no centro metropolitano.
A pesquisadora define o cinema de John Akomfrah como político, mas não no sentido tradicional e panfletário. "É um cinema com uma estética política", justifica.
Dessa maneira, seus filmes são exibidos em museus, com instalações, possuindo íntima ligação com as artes visuais, e explora a vertente do cinema expandido, uma das facetas da arte contemporânea.
Outra característica desse "cinema político mais estético" é o compromisso com a história, destacando o afro-futurismo. "Sua noção de expressão de negritude ultrapassa os clichês sobre raças", reitera, completando que leva para o universo da arte questões teóricas desenvolvidas por Hall.
Assim, o cineasta dá uma expressão artística a essas questões caracterizadas na diáspora pós-colonial. A intenção de Angela Prysthon é usar muitas imagens para ilustrar seu discurso. Dentre as principais criações de John Akomfrah destaca "As canções de Handsworth" (1986), que marca a estreia do diretor na sétima arte. Além de "O último anjo da história" (1995), "As nove musas" (2011) e "O projeto Stuart Hall" (2013). Na opinião da professora, são referências incontornáveis para pensar a diáspora africana e as relações inter-raciais na contemporaneidade.

Mais informações:
Abertura do III Encontro Internacional de Imagem Contemporânea. Nesta segunda (26), às 18h, na Sem Título Arte (R. João Carvalho, 66, Aldeota) com apresentação da performance "Merci beaucoup, blanco!", de Michelle Mattiuzzi, e inauguração mostra Francisco de Almeida. Programação: eiic.ufc.br/2018/

Diário do Nordeste

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