Livro sobre a patrimonialização da memória no Campo de Concentração do Patu será lançado na manhã deste sábado (3), no Museu do Ceará

por Roberta Souza - Repórter
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O terrive fato histórico/ Tá no imaginar do povo/ Invadiu o mundo folclórico/ Assunto do velho e o novo/ Já foi de teatro tema/ Do cantar, televisão/ De pintura, de cinema/ De ciença e religião. É assim que o poeta Valdecy Alves, natural de Senador Pompeu, lembra o Campo de Concentração do Patu em seu cordel "A Besta Fera de 32" (2016). O fato histórico, que já ganhou registros em diferentes linguagens como bem menciona o verso, ganha agora um livro de autoria do historiador Artelane Martins, a ser lançado neste sábado (3), a partir das 10h, no Museu do Ceará.
"Das Santas Almas da Barragem à Caminhada da Seca: Projetos de Patrimonialização da Memória no Sertão Central Cearense (1982-2008)" é o título da obra que resulta da dissertação de mestrado de Artelane. Defendida em 2015 pelo Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Ceará, ela chega ao público em versão de bolso por meio da Coleção Outras Histórias.
"Desde a graduação já trabalhava com o tema patrimônio cultural. O caso de Senador Pompeu me veio como tema porque estive lá, conheci, e ele é pouco tratado na história. Temos uma tese de doutorado da professora Kênia Rios e mais nenhum outro trabalho, apenas pequenos artigos", observa o autor do novo livro. O recorte de Artelane é bem específico: ele retoma a memória do campo de concentração por meio dos atores sociais que reverberaram ele por meio da devoção popular.
Do ponto de vista temporal, o trabalho do historiador cobre o momento em que acontece a transmutação da devoção popular à condição de romaria (1982 a 2008), intitulada Caminhada da Seca, passando a ser regida sob a lógica patrimonial.
Em sua análise e reconstituição das conjunturas sociais que conformam os distintos projetos, Aterlane lança luz sobre o silenciamento dos devotos e suas práticas populares, identificando como "um traço inerente aos processos de patrimonialização a perspectiva do esquecimento e da exclusão".
Estrutura
O primeiro capítulo do livro faz uma revisão da história do Campo de Concentração de Senador Pompeu entre os anos de 1932 e 1982. "Pessoas mortas eram santificadas pelos que ficavam vivos - elas são as Santas Almas da Barragem, não reconhecidas como santas pela igreja. Com o tempo, começou a devoção. Aí quando o padre Albino chega e se torna vigário da cidade, ele se apropria e transforma essa devoção popular na Caminhada da Seca, uma romaria que acontece todo ano desde 1982. Esse é o primeiro projeto de patrimonialização, tornar uma manifestação da igreja", explica Aterlane.
O segundo capítulo vai trabalhar com os jovens da Equipe 1922 (19 é o ano de início das obras da Barragem do Patu e 22 o ano de finalização). "Essas obras serviram de estrutura para o campo. E esses jovens trabalharam com ideia de patrimonialização, requerendo tombamento junto ao Iphan, à prefeitura e ao Estado, sem retorno positivo. Eles fizeram um grande trabalho durante anos. É aí que surgem peças de teatro, filmes, documentários, poesias, tudo entorno da memória dos campos. Isso ajuda a reconhecer aquilo como patrimônio", identifica o autor.
O terceiro e último capítulo volta-se à política de turismo realizada pela prefeitura de Senador Pompeu, tendo a barragem, as edificações remanescentes, a própria caminhada e os sobreviventes do campo de concentração como foco de trabalho.
Contribuição
"Trabalho a patrimonialização do ponto de vista religioso, da sociedade civil e do poder público. E finalizo com abordagem dos devotos das Santas, pessoas que ninguém deu atenção e mantêm a tradição, porque são devotos e estão repassando de geração a geração", resume o Aterlane. Assim, apoiando-se no instrumental metodológico da História Oral, a pesquisa devolve aos devotos sua condição de atores ativos, e não apenas de vítimas, como também coloca suas narrativas ao lado dos que originalmente estavam autorizados a produzir o saber sobre aquelas memórias.
"Passamos mais de 50 anos sem qualquer informação. Os livros de história começam a registrar apenas a partir de 1992. Então trago para a reflexão os sujeitos sociais, construtores da história", observa o historiador. Além disso, ele levanta como outra contribuição da discussão as recentes iniciativas de tombamento por parte do poder público.
Até o fim do ano a Secult deve aprovar o tombamento em nível estadual, e o próprio Aterlane estará entrando nas próximas semanas com um pedido de tombamento imaterial. Ainda há muito a ser feito, mas cada passo importa.
Saiba mais
O campo de concentração de Senador Pompeu, assim como outros que existiram no Ceará entre os anos de 1915 e 1932 serviam de "apoio" às vítimas das secas.
Estima-se que cerca de 73.000 flagelados foram confinados nesses campos, onde as condições eram desumanas, o que resultou em inúmeras mortes.
O lançamento do livro de Aterlane Martins será precedido da exibição do documentário "Almas Santas da Barragem" (21min) e de debate com o autor, o Prof. Dr. Antonio Gilberto Ramos e o cineasta Geraldo Cavalcanti.
A distribuição será gratuita no lançamento e depois ficará à venda na Lojinha do Museu do Ceará.

Mais informações:
Lançamento do livro "Das Santas Almas da Barragem à Caminhada da Seca", de Aterlane Martins. Neste sábado (3), às 10h, no Museu do Ceará (R. São Paulo, 51, Centro, Fortaleza). Gratuito.

Diário do Nordeste

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