Box com seis discos de Belchior é lançado hoje (23)

por Roberta Souza - Repórter
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Foi na infância, enquanto ouvia por tabela os discos do pai, que o mineiro Renato Vieira teve contato com a obra de Antônio Carlos Belchior. A admiração pelo trabalho do cearense foi crescendo até ganhar profissionalização, no momento em que ele passou a atuar como jornalista e a fazer coberturas musicais. Quando chegava nas lojas de disco, achava curiosa a forma dispersa como a discografia de Bel era apresentada, e isso o levou a produzir nos últimos três anos uma coletânea - "Pequeno Mapa do Tempo" (2017) - e dois boxes - "Três Tons" (2016) e "Tudo Outra Vez" (2018), este último nas plataformas digitais e lojas físicas a partir de hoje (23).
"O que acontecia era que você tinha os discos no YouTube, mas às vezes com o som muito ruim. Eu perguntava aqui em São Paulo para os lojistas se o pessoal procurava Belchior, eles diziam que todo dia tinha alguém atrás", conta Renato. A primeira parceria veio então com a Universal Music, relançando por ocasião dos 70 anos do cearense, em 2016, um box com os discos "Alucinação" (1976), "Melodrama" (1987) e "Elogio da Loucura" (1988).
Em seguida, já depois da morte do cantor, recebida com pesar em 30 de abril de 2017, saiu uma coletânea com 14 faixas pela Warner Music, com destaque para a primeira versão de "A Palo Seco", lançada em compacto de 1973, e de uma gravação acústica de "Galos, Noites e "Quintais", introduzida por um trecho do Salmo 50 feita para álbum promocional de lançamento da Warner no Brasil.
A seleção também comportou regravações de "Apenas Um Rapaz Latino Americano" e "Como Nossos Pais" feitas para uma coletânea de 1981.
Em paralelo, o jornalista já trabalhava no box "Tudo outra vez", o mais recente lançamento, que reúne seis discos gravados por Belchior para os selos Chantecler, Warner e Elektra, entre 1974 e 1982: "Coração Selvagem" (1977), "Todos os Sentidos" (1978), "Belchior/Era uma vez um homem e o seu tempo" (1979), "Objeto Direto" (1980) e "Paraíso" (1982).
"Minha batalha sempre foi pelo relançamento dos discos originais. Agora vai ser muito mais fácil ouvi-lo em formato físico ou via streaming. Consegui colocar de novo na praça nove discos do Belchior", comemora ele.
Produção
As reedições, remasterizadas por Ricardo Garcia, estão repletas de faixas-bônus de compactos e projetos especiais. O maior destaque, no entanto, fica por conta de uma versão inédita da faixa "Como Se Fosse Pecado", que permaneceu arquivada por 40 anos.
Originalmente parte do disco "Coração Selvagem", a canção foi censurada, só estando disponível entre as faixas de "Todos os Sentidos", um ano depois. No entanto, durante a pesquisa, Renato descobriu uma gravação da música de 1977 e é ela que pode ser ouvida no novo box.
"'Coração selvagem' foi mixado em Los Angeles e eu encontrei um dos discos testes de prensagem que haviam sido enviados ao Brasil naquele período. O Ricardo Garcia fez um trabalho incrível, o som está muito bom", destaca o produtor musical do box "Tudo outra vez".
Além de Ricardo na remasterização, Renato contou ainda com o trabalho de Leandro Arrais na digitalização das capas e de João Antônio Franz para a transcrição das letras e da ficha técnica.
"Tenho visto muitas pessoas no Facebook reclamarem do preço (R$220 na pré-venda), mas a gente chamou o melhor remasterizador do Brasil para esse projeto. Tiramos esses discos da matriz original, o som está o melhor possível e tudo isso tem um custo", justifica. "Como a obra ficou muito tempo fora de catálogo, achei que ela devia renascer do jeito mais digno possível. Acho que é preferível fazer algo digno, sério, perfeito do ponto de vista de som e arte gráfica, por um preço elevado, do que um preço baixo, mas sem qualidade. Tô seguindo o que o fã do Belchior gostaria que fosse", pontua.
Análise
Pesquisadora da obra de Belchior há cerca de duas décadas, Josy Maria (USP) identifica dois pontos altos do trabalho de Renato Vieira. Primeiro, o relançamento de uma obra que permanece atual; segundo a organização de uma discografia sob um olhar crítico. "São canções que falam de assuntos que a gente tá vendo hoje, seja na política brasileira, nas relações de migração, ou nas relações entre pais e filhos", pontua.
"A segunda importância é de dar ao público um material que passa pelo viés de um profissional que trabalha com música. Infelizmente, ainda não temos hoje em dia essa organização na internet", observa.
Os textos produzidos por Renato para os encartes contêm informações que diferenciam o material: são críticas dos discos que saíram em jornais e revistas da época e ajudam a reconstituir um olhar sobre a obra do cearense.
"Coloquei o olhar de críticos muito ativos nos anos 70, como José Ramos Tinhorão e Sérgio Cabral. Esses discos que a gente adora ou foram muito amados ou muito criticados. O único disco com críticas unânimes (e negativas) foi o primeiro", conta.
"Paraíso, o último da caixa, foi absolutamente criticado. Ele nunca tinha saído em CD, e no tempo do vinil, seu som não era muito bom. Eu mesmo achava que era um disco menor, mas quando fui ouvir a remasterização, vi o quanto era super bem gravado. Sendo assim, esse projeto pode servir pra mudanças de opinião, como foi o meu caso", projeta.
Box

Tudo outra vez
Belchior


box
Warner Music
2018, 6 CD's
R$ 219,90
Disponível por streaming


Di[ario do Nordeste

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