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No RJ: livro resgata história do audiovisual

por Roberta Souza - Repórter
Não existe só uma forma de contar uma história. Mas é muito comum que as perspectivas que ganham o mundo remetam apenas a um ponto de vista, excluindo - conscientemente ou não -, o que mais possa representar uma determinada memória. No caso do cinema brasileiro, isso é bastante perceptível. Afinal, o que seria do Cinema Novo sem Glauber Rocha ou Nelson Pereira dos Santos? Que a contribuição desses diretores é vasta, não há quem discorde. Mas onde estavam as cineastas mulheres? Existiam ou não? Se sim, por que não as conhecemos?
Na tentativa de abordar os momentos históricos do cinema nacional sobre este outro viés, duas professoras de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), Karla Holanda e Marina Cavalcanti Tedesco, organizaram o livro "Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro", que já se encontra nas livrarias desde o final do ano passado, mas cujo lançamento ocorre nesta terça (27), na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro.
"Como professoras, a gente sentiu que só se contava metade da história do cinema, porque a outra metade estava ausente: o cinema feito por mulheres. E isso não é exclusividade do cinema nem só do Brasil. É algo que se repete nos outros campos da artes, nas ciências... As mulheres tiveram uma participação interessante, mas são sublimadas, secundarizadas", pontua Karla Holanda, que além de escrever a apresentação também conta com um texto no livro.
A necessidade de trazer essas discussões para a sala de aula junto da percepção de que não contavam com uma bibliografia específica, levou as docentes a reunir pesquisadoras e pesquisadores cujos estudos cobriam várias etapas do audiovisual brasileiro, a fim de que se aprofundassem na pesquisa sobre a contribuição feminina na direção.
O contato inicial foi feito em janeiro de 2017. Em junho, as organizadoras já contavam com 16 textos. A proposta logo foi apresentada à editora Papirus, que acolheu com entusiasmo a produção. Na apresentação de Fernão Ramos Pessoa, um dos curadores da editora, a aposta fica clara. "O principal mérito do livro é evidenciar o reiterado desvio de rota, a banalidade do mal que cerca o 'ver ignorando', a negação ao acesso. É algo que nos permeia como natural, sem que percebamos. São reveladores, nos levantamentos arqueológicos em torno do que sobreviveu, não só o registro, mas a obra que insiste", destaca.
Temas
Na seleção dos textos que compõem o livro, há uma preocupação cronológica - que vai desde o cinema mudo até o contemporâneo - e também geográfica, numa busca de dar conta do que foi produzido por mulheres em diferentes regiões do País. "Tem um texto fantástico da Daiany Dantas e de duas orientandas dela, na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, em que ela vai falar do cinema pernambucano, um dos que tem se destacado muito no país como um celeiro de grandes criadores", cita a organizadora.
"No entanto, elas trazem à tona que na direção de longa de ficção naquele estado, a primeira mulher vai aparecer apenas em 2013. É assustador, muito recente, tem alguma coisa aí que precisamos entender", observa Karla. Neste sentido, o livro traz também contribuições de Goiânia, Brasília, entre outras capitais.
Outros temas de destaque no livro são "Cineastas brasileiras (feministas) durante a ditadura civil-militar", texto de Alcilene Cavalcante, "Protagonismos experimentais femininos no surto superoitista dos anos 1970", de Rubens Machado Júnior e Marina da Costa Campos, "Formas de visibilidade e re(existência) no cinema feito por mulheres negras", de Ceiça Ferreira e Edileuza Penha de Souza, e ainda "Do pai ao país: O documentário autobiográfico em face do fracasso das esquerdas no Brasil", de lana Feldman.
Pioneirismo
Karla, por sua vez, escreve sobre o "Cinema brasileiro (moderno) de autoria feminina", introduzindo uma discussão sobre o filme pioneiro "A Entrevista" (1964), de Helena Soberg, que é complementada pelo texto da pós doutoranda da Escola de Belas Artes da UFMG, Mariana Tavares, intitulado "Helena Solberg: militância feminista e política nas Américas". Entre as posturas modernas da diretora, Mariana destaca a não utilização de voz off, um assincronismo entre imagem e som, e a introdução da ficção, com imagens ficcionalizadas, no corpo do documentário.
"Enquanto o filme mostra a imagem de uma noiva - que por sinal era sua cunhada Glória -, no áudio, as vozes de 30 mulheres quebram a ideia do casamento romântico, com divergências de opinião sobre sexualidade, virgindade, submissão da mulher e desconstrução da ideia do patriarcado", conta. "Helena foi a única cineasta brasileira que se assumiu como feminista num período em que diretoras mulheres não gostavam de se assumir", atesta Mariana. A pesquisadora atribui essa postura a residência dela nos EUA por muitos anos, fato que também contribuiu para que fosse pouca conhecida no Brasil.
A pesquisadora ressalta ainda a importância da organização deste livro na atualidade, suprindo uma lacuna de quase quatro décadas. "Na década de 80 tivemos duas publicações - 'As musas da matinê', de Elice Munerato e Maria Helena Darcy de Oliveira (1982), e 'Quase Catálogo 1: Realizadoras de cinema no Brasil (1930-1988)', organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, em 1989. De lá para cá, já se passaram 40 anos", observa.
Mariana adianta que além desta parceria, ela escreveu recentemente um texto com o mesmo viés para a jornalista Luiza Lusvarg, cujo livro "Cronologia das mulheres no cinema brasileiro" já está em fase de impressão. Ele conta com mais de 20 ensaios de várias pesquisadoras sobre diferentes cineastas. "Um complementa o outro", acredita. Mas ainda há muitas histórias de mulheres no cinema a ser contada, para além da direção, e isso, acredita Karla Holanda, garante trabalho para mais uns 20 anos.

Livro
 
Feminino e plural: Mulheres no cinema brasileiro
Org.: Karla Holanda e Marina Cavalcanti Tedesco
 
Papirus
2017, 240 páginas
R$ 59,90
Mais informações:
Lançamento do livro "Feminino e plural: Mulheres no cinema brasileiro". Dia 27/03, às 19h, na Livraria Lamarca (RJ). A atividade contará com a presença das autoras e de e seis cineastas discutidas nos capítulos: Adélia Sampaio, Ana Maria Magalhães, Gilda Bojunga, Helena Solberg, Tereza Trautman e Vera de Figueiredo.

Diário do Nordeste

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