Projeto cearense permite que cegos “vejam” rosto de familiares em retratos 3D

Imagina se através do toque você pudesse “ver” as pessoas que ama? Imagina se o sentir pelas mãos te desse a chance de desenhar na mente uma realidade distante? Foi assim que deficientes visuais do Associação de Cegos do Ceará (Acec) puderam ter uma nova perspectiva de visão.
Através do projeto Retrato em 3D – Resgatando Vidas, realizado pela Cruz Vermelha do Ceará, 16 cegos tiveram fotos de familiares e deles próprios impressas em relevo. Um deles foi o professor João Bosco, que pode reconhecer o próprio rosto numa das peças feitas.
João Bosco Farias começou a perder a visão aos 16 anos. Aos 18, o pedagogo já não tinha conseguia enxergar mais nada. A cegueira veio por decorrência de um glaucoma congênito. Professor de Atendimento Educacional Especializado (AEE) na área de deficiência visual na própria Acec desde 2010, foi um dos escolhidos para participar da ação e escolheu ter o próprio rosto retratado.
“Foi uma experiência nova. Poder tornar uma coisa que é estritamente visual, como uma foto, em algo material, uma fotografia real… Uma fotografia transformada em algo tátil é algo novo. A gente só conseguia através de artista. Hoje, você ter um recurso que torna isso acessível é maravilhoso. Tomara que possa ser difundido com mais amplitude. Materializar coisas, poder tocar, conhecer… Achei muito interessante”, disse o professor de 33 anos.
Buscando ampliar mecanismos de interação social para a população com deficiência física, que geralmente não tem o mesmo acesso à tecnologia disponível no mercado, a Cruz Vermelha em parceria com a Associação de Cegos, investiram na ação.
“Nós estivemos lá, apresentamos a ideia, e cada pessoa contemplada trouxe um familiar para ser escaneado. Foi mãe, filho, pai… Houve um dia somente para o escaneamento e passamos a fabricar o retrato 3D. Ele é enquadrado, mas salta na tela a silhueta. E aí, de forma tátil, as pessoas vão tocando e as reações são as mais diferentes. Tem toda essa questão sensorial. Na segunda leva deve ter eles próprios retratados. Eles pediram. Eles querem se perceber nas fotos”, explicou Allan Damasceno, presidente da Cruz Vermelha, que disse que a ideia é levar o projeto para o interior do estado.
O retrato é feito de material plástico e demora um dia para ser impresso. A duração da peça é de 100 anos. João Bosco não esconde a animação ao relembrar o momento em que se reconheceu no retrato em relevo.
“Parece (comigo). Se fosse um pouquinho maior, daria pra perceber mais detalhes. Mas dava pra conhecer o nariz direitinho, muitas das minhas características… queixo, nariz, realmente sou eu. O próprio cabelo, que estava um pouco grande. Eu o uso penteado pra cima, espetado, o cabelo estava bem cheio. Deu para perceber que era eu mesmo”, relatou João Bosco.
O Retrato 3D mostrou uma possibilidade de aproximar a imagem através do tato. Cada toque transformou a imaginação ou uma lembrança em realidade. É um novo caminho para levar uma nova perspectiva às mãos de quem não enxerga.
“É uma forma diferente de ver as coisas. Claro que muita coisa na foto é mais perceptível à visão do que ao tato. Tem coisa que o tato não é suficiente para substituir a visão”, concluiu João.
A Cruz Vermelha é uma instituição filantrópica de ajuda humanitária e atua em diversos países pelo mundo. No Ceará, atua há 37 anos e tem 1000 voluntários. Empresas que queiram contribuir com algum projeto devem procurar a filial estadual. O Retrato em 3D – Resgatando Vidas foi idealizado pela Cruz Vermelha, teve apoio da Associação dos Cegos do Ceará e foi apadrinhado pela Construtura Terra Brasilis.
Tribuna do Ceará

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