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Tony Ramos fala sobre o livro que lhe revelou a força da literatura

Tony Ramos
A leitura, para mim, sempre fez parte de descobertas. Ela começa lá atrás, com um tio que me dava muito livro de presente. No dia em que fiz 7 anos, ele me deu uma publicação da editora Prado, capa marrom dura, com ilustrações em nanquim. Era uma edição para público infantojuvenil de "Dom Quixote". E falou: "você está entrando na idade da razão. É importante você ler esse livro, que fala do comportamento humano."

Nunca elegi "O Estrangeiro" como o livro de toda a minha vida, mas ele é emblemático para mim. Ele poderia virar meu livro de cabeceira, assim como a obra completa de Machado de Assis ou "Mon Dernier Soupir" ["Meu Último Suspiro"], autobiografia de Luis Buñuel.

Mas foi com Camus que comecei a perceber a literatura e sua profundidade. Li "O Estrangeiro" em 1971 ou 1972, ali com meus 23 aninhos. Estávamos numa ditadura militar terrível. Eu fazia teatro e televisão; estava naquela época em que você quer se aperfeiçoar na profissão, ter uma visão mais ampla, intelectualmente falando.

Descobri o livro a partir do filme do Luchino Visconti, que vi em 1969 ou 1970. Lembro que, ao final da sessão, fiquei em silêncio absoluto, fui tomado por um sentimento de desolação. E é claro que fui procurar o romance.

Na época, eu gostava muito de ir à Livraria Francesa, na rua Barão de Itapetininga, em São Paulo. Gostava das publicações da editora Hachette, que eles vendiam lá. Alguns amigos me diziam "mas tu é metido, hein?", e eu respondia "lá é gostoso, depois eu passo no Fasano e compro uma coxinha". A rua tinha todo esse charme, era muito bonita. Mas eu era duro pra burro: ganhava muito mal na TV Tupi e tinha dois, três empregos.

Aquele livro mexeu comigo profundamente. Eu, ao mesmo tempo, concordava e não concordava com o personagem Meursault. Eu entendia o que ele queria dizer, pessimista, inquietante e, às vezes, até desesperador: "Qual é o significado real da vida?".

Eu sou, talvez lamentavelmente, um incorrigível otimista, e o livro me jogou num tatame. Comecei a lutar contra ele.

Hoje, aos meus quase 70 anos, digo que a vida é muita coisa. Ela não é felicidade absoluta —isso é coisa de contos da carochinha—, mas pode ser tolerável se você tem um propósito. Só que aquele personagem não sabia o que era isso.

Será que Meursault era indiferente à vida e à morte? Ou foi a falta de esperança que o tornou assim? Será que em algum momento, em sua cela, ele pensou nessa indiferença? Eu fazia essas perguntas para o romance e fazia as perguntas dele para mim mesmo. As respostas fui encontrando ao longo da vida, no trabalho, no nascimento dos meus filhos.

Não tenho o direito de dizer que se trata de um livro pessimista, pura e simplesmente. Eram as angústias daquele homem, Albert Camus. Alguém que fez parte da resistência francesa em pleno conflito franco-argelino, que era chamado pelos franceses, de forma preconceituosa, de "pieds-noirs" [pés negros], mas que foi eleito pelo "grand monde" [elite] para viver no meio da grana e da intelectualidade.

Quando falo da inquietação que o livro me gerou, não quer dizer que tenha me deixado mal. É como diz o verbo inquietar: mobilizar, mover-se. Ele gerou esse exercício de tentar entender como o livro fez o que fez comigo. E tudo isso compõe um arsenal de comportamentos e ideias para a minha profissão.

"O Estrangeiro" me municia com o silêncio, a dúvida, a simplicidade do gesto e do não gesto —que é o silêncio vazio por dentro, que olha para o nada e para tudo. Personagens como o psicopata que fiz na novela "A Regra do Jogo", por exemplo —um personagem folhetinesco por excelência—, têm muito de Camus e de seu livro, muitas perguntas sobre qual é o significado da vida.

Tony Ramos, 69, é ator.

depoimento a Walter Porto

Fonte: F. De São Paulo

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