Torquato Neto: livro celebra 45 anos de sua morte

por Iracema Sales - Repórter
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Torquato Neto em uma das imagens do livro "Essência": coletânea descortina diferentes facetas do poeta a partir de sua produção
Artífice da palavra e um dos idealizadores da Tropicália, o poeta, jornalista, ator, cineasta, produtor e agitador cultural Torquato Neto (1944-1972) traçou sua trajetória de vida à luz da arte, com um olhar especial para a poesia, que funcionava como válvula de escape, pela qual exacerbava seu inconformismo diante do mundo.
O poema "Cogito", que parece anunciar sua saída do palco da vida - no aniversário de 28 anos, por vontade própria, em novembro de 1972 - expressa numa escrita precisa e sensível a incompatibilidade entre vida real e poesia. "Eu sou como sou/pronome pessoal intransferível/ do homem que iniciei/ na medida do impossível/ eu sou como eu sou/ vidente/ e vivo tranquilamente/ todas as horas do fim", avisou o autor de "Geleia Geral", considerado o hino da Tropicália, movimento cujos alicerces ajudou a lançar.
E é justamente a poesia desse artista visceral, que trabalhava as palavras com maestria, capaz de explorar todas as suas possibilidades - como fazia nos poemas gráficos -, que o livro "Torquato Neto: Essencial - o poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia" pretende focar. Organizada pelo crítico e curador literário Italo Moriconi (Editora Autêntica), esta coletânea esmiuça a verve poética de Torquato Neto, marcada por subjetividade ímpar, optando por deixar em segundo plano a figura do mito. A publicação faz parte das comemorações dos 45 anos de sua morte, e das cinco décadas da Tropicália, movimento que lançou a música brasileira no universo pop, ao introduzir a guitarra elétrica nos arranjos, "desafinando o coro dos contentes".
Em outras palavras, o interesse de Moriconi é fazer com que as pessoas, principalmente as novas gerações, debrucem-se sobre o legado poético de Torquato Neto, materializado nos poemas-canções, que pareciam feitos para ser musicados. E vice-versa. Muitas vezes, soavam como manifestos, caso de "Geleia geral" e "Marginália II"; intimistas, a exemplo de "Tristeteresina", "Coisa mais linda que existe" e "Pra dizer adeus". Outras criações, "Mamãe, coragem" e "Cogito" avisavam, de maneira subliminar, o próprio fim.
Compromisso
A coletânea, apresentada em projeto gráfico que prima pela delicadeza, faz jus à sensibilidade do poeta de Teresina, cujos limites entre vida e obra se fundiam. A publicação é acompanhada por galeria de fotos, registrando as diversas fases de vida do "Anjo torto", que tinha pressa para executar seus projetos.
Um deles foi o jornalismo, profissão escolhida na adolescência a contragosto dos pais, mas que exerceu com ética, unindo opinião e informação em texto conciso e direto. Passou ainda pela música, cinema e, acima de tudo, pelo compromisso com a história política, social e cultural do Brasil. Deixava claro seu comprometimento com a revolução, participando ativamente da luta contra o regime autoritário.
Múltiplas faces
Dividido em seis partes, além da apresentação "Medula e osso", escrita pelo organizador, o livro passeia pelas múltiplas faces do enigmático artista, que viveu entre o desbunde e o engajamento, nos difíceis anos 1960/1970. De Teresina para o mundo, assim pode ser definida sua trajetória, como mostra o livro, que passa ao largo da categoria biográfica.
Sua lente está voltada à produção artística de Torquato Neto, incluindo poesia, letra de música e uma seleção de textos jornalísticos. Com ênfase naqueles que escreveu para as colunas "Música Popular", no Jornal do Sports, na época dos festivais da canção, e "Geleia Geral", no Última hora, do Rio de Janeiro, entre 1971 e 1972. Aliás, o fim das colunas foi um ingrediente a mais na angústia pré-morte do autor.
"Essencial" é oportuno e chega em boa hora, já que Torquato Neto não teve a felicidade de ver seus poemas publicados. O primeiro livro viria somente um ano após sua morte: organizada pelo amigo Waly Salomão, a compilação "Os últimos dias de paupéria" foi reeditada em 1982.
Na apresentação "Medula e osso", Italo Moriconi justifica: "a seleção de textos de Torquato Neto aqui apresentada busca um olhar mais interessado no poesia que no mito. Estrategicamente, num primeiro momento, esse olhar tentará colocar entre parênteses o imaginário do poeta romântico morto precocemente e se deixará guiar pelo simples contato curioso e prazeroso com a superfície das palavras, frases e versos". O autor convida o público a ler com olhos livres a fim de perceber as recorrências de sentidos e efeitos. "A aventura de Torquato foi um aventura de vidaobra. O mito é o real", provoca.
Assim, o título se propõe a evidenciar aquilo que o organizador chama de "essencial" na obra de Torquato Neto, com olhar especial para a nova geração de leitores. "Foram sete anos entre a época da explosão de seus grandes sucessos como letrista da MPB e do Tropicalismo (entre 1966 e 1968) e a data fatídica em que optou por ligar o gás, em novembro de 1972. Nos dias em que ele quis que fossem os últimos, passou mesmo a destruir e queimar seus próprios textos, alguns resgatados da lixeira pela mulher, Ana Duarte. Vontade de eliminar sua identidade: sua condição, sua veleidade de poeta. Era o cancelamento de si. O avesso de si", analisa Moriconi.
Poeta de livro
A obra tem o mérito de enfatizar sua produção literária, ou seja, tentar chamar a atenção do leitor para esse sujeito particular criador. Por isso lança a indagação: "Mas o que havia de poeta por trás do letrista? Não sendo sinônimas as expressões 'poema literário' e 'letra de canção', o que faz com que um letrista seja ou possa ser legitimamente chamado de poeta escritor, pelo menos dentro de um certo vocabulário ou ordenamento de saberes?" Como o próprio Torquato escreveu: "a poesia é a mãe das artes", e ele era poeta da canção e de livro - expressão do parceiro Waly.
A escrita jornalística leva a marca do poeta, demonstrando personalidade e linguagem _ mordaz em alguns momentos, numa demonstração do compromisso com a informação. Entrar em contato com a escrita de Torquato Neto na contemporaneidade é passar em revista importantes momentos tanto da história política quanto da música brasileira. "Num tempo anterior ao desbunde e à loucura, Torquato manteve no artigo Jornal dos Sports a coluna 'Música Popular', que saiu de março a setembro de 1967. Era o auge da MPB, apogeu dos festivais, véspera da virada tropicalista", ressalta Moriconi.
Outra particularidade de sua narrativa era a ligação entre música e contexto político da época, expressa nas posições entre direita e esquerda. "Até passeata contra a guitarra aconteceu, na disputa entre samba, rock e iê-iê-iê. Era um sopro de participação democrática na esfera do entretenimento, patrocinado pela grande mídia nascente e que serviu de combustível para as manifestações e passeatas do ano seguinte. Havia uma ligação íntima entre o debate cultural musical e o movimento estudantil", escreve.
Mas essa ebulição dura pouco. Em dezembro de 1968, a ditadura militar (1964-1985) endureceu seu discurso, ao introduzir o Ato Institucional nº 5. Estava aberta a temporada de exílios, forçados ou voluntários, caso de Caetano Veloso, Gilberto Gil e do próprio Torquato Neto.
O ano era 1969 quando ele passou cerca de um ano exilado em Londres e Paris, sendo célebre o encontro que teve com Jimi Hendrix. Viajou em um navio cargueiro, na companhia do artista visual Hélio Oiticica, que participaria de exposição em Londres.
De volta ao Brasil, escreveu a coluna "Geleia Geral", durante agosto de 1971 e março de 1972, "no oco dos anos de chumbo", pontua o autor. Com os amigos Caetano e Gil na Europa, Torquato Neto escolheu como trilha sonora para o seu desbunde, com direito a "bad trips", o show Gal Fa-tal, no Rio.
A publicação enfoca, ainda, "cinespoesia", parte que relata a paixão de Torquato Neto pelo cinema, mostrando sua atuação como o vampiro de Nosferato no Brasil, dirigido pelo amigo Ivan Cardoso.
Rodado nas ruas do Rio, a produção é um dos representantes dos filmes cult do chamado cinema "udigrudi". Após romper com o pessoal do Cinema Novo, Torquato Neto queria investir no cinema super-8 e experimental.
Ele construiu sua obra entre os pacatos anos 1950, e a conturbada década de 1960. O bilhete incisivo: "Pra mim, chega", foi a última ação antes de se trancar no banheiro e ligar o gás, após comemorar o aniversário com os amigos e a companheira, Ana Maria, com quem se casou em 1966. Produziu shows, escreveu roteiros para televisão e cinema, atuando em vários trabalhos marginais.
Uma vida marcada pela pressa e a insatisfação diante do sistema e convenções sociais. Os reflexos desse inconformismo foram sentidos na sua arte. "Quando eu nasci um anjo louco muito louco/ veio ler a minha mão", profetizava Torquato.

Diário do Nordeste

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