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A inclusão de uma aluna haitiana em uma turma de alfabetização

Alfabetizar também é promover um intercâmbio cultural
Por: Mara Mansani
Epeline e seu lindo sorriso conquistaram a turma inteira! Crédito: Mara Mansani
Vivemos uma época conturbada. O mundo passa por transformações o tempo todo, e infelizmente, parece que estamos retrocedendo em nossos avanços sociais e nas boas relações de convivência. Há intolerâncias de ordem religiosa, racial, política, de gênero, orientação sexual, etc. Ou, talvez, na verdade ainda não conquistamos de fato esses avanços. O fato é que precisamos repensar nossa forma de viver coletivamente, na busca pela paz mundial.
Muitos povos não têm condições mínimas de sobrevivência, e por isso está acontecendo, mais uma vez, um grande deslocamento migratório de refugiados, por motivos diversos. A Europa é um dos destinos mais procurados, mas nosso país também vive essa realidade. Antes mesmo da chegada dos nossos irmãos venezuelanos no Acre, já acolhíamos bolivianos, haitianos e outros povos em nosso território. Aliás, essa sempre foi uma boa característica nossa: o bem acolher.
A cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, onde eu trabalho, vem recebendo centenas de pessoas e famílias do Haiti nos últimos anos. Eles vêm fugindo dos resquícios de uma guerra civil e de um terremoto que deixaram ainda mais difícil a vida por lá, e vêm em busca de melhores condições de vida. Muitos, por aqui, estão empregados na construção civil.
Para minha surpresa e alegria, esse ano recebi uma aluna haitiana em minha turma de alfabetização. É a primeira vez que dou aula para uma criança que nasceu em outro país. Seu nome é diferente: Epeline. No início, as crianças e até eu estranhamos, mas agora seu nome soa muito bonito e melodioso aos nossos ouvidos.
No país de Epeline, eles falam francês e crioulo (ou creole, ou criollo), um idioma local. Apesar disso, Epeline fala bem o português, com um leve sotaque. É uma criança de seis anos que adora estudar e aprender, e que está evoluindo muito bem em seu processo de alfabetização. Inicialmente, ela estava na hipótese silábica com valor, mas agora está em transição bem próxima da hipótese alfabética.
Desde o início, tive um cuidado para acolhê-la da melhor maneira possível. Afinal, se já não é fácil mudar de escola e de professora, imagine mudar de país, deixando não apenas os seus amigos mas a sua terra natal e os seus familiares para viver em outra cultura?
Acredito que são as crianças que mais sofrem com essas mudanças e transformações. No SXSW Edu, em Austin no Texas, pude conhecer o trabalho de ONGs e da ONU para oferecer educação escolar às crianças (muitas em campos de refugiados), que acontece nesses países na maioria das vezes de forma precária.
Perguntei a Epeline o motivo da vinda para cá e ela me respondeu: "Porque lá a gente tinha pesadelos horríveis e ninguém dormia direito". Entendi que essa é a forma dela expressar suas inseguranças, medos e dificuldades em sua terra natal. Mas por aqui, ela é uma criança muito contente, extremamente educada e que faz amizade com todos. Os alunos gostam dela e a admiram muito.
Ela faz parte de uma família bem estruturada, com pais zelosos por sua educação e seu bem-estar. Está sempre impecável em seu uniforme escolar e seu cabelo exibe diariamente lindos penteados, feitos por sua mãe. Epeline é uma criança amada! O que vem a contrariar ideias muitas vezes preconceituosas que podemos ter, de que famílias de imigrantes, de origem diferente da nossa, que vagam de um lugar para outro, não possam ter uma boa base familiar.
Há alguns dias, Epeline pediu para ir ao banheiro falando em sua língua materna, o crioulo. Pedi que repetisse, mesmo assim, não entendi nada! Ela riu muito, traduzindo suas palavras. Naquele momento entendi, ou como dizemos popularmente, "caiu a ficha" de que não bastava acolhê-la, nem a alfabetizar em nossa língua. Sua necessidade é maior, é preciso manter a sua cultura haitiana viva. É sua forma de se expressar, sua identidade, sua origem, suas heranças culturais.
Repeti para mim mesma, porque não me dei conta disso antes, da riqueza cultural e humana que temos em nossa sala de aula neste ano. Com Epeline, todos os alunos podem conhecer e aprender sobre como é brincar, estudar, viver e ser criança em uma cultura diferente da nossa.
Por isso, em minhas aulas criarei oportunidades para que esse intercâmbio cultural aconteça. Já posso até ver meus alunos empolgados para aprender palavras de uma outra língua, outras brincadeiras e tantas outras coisas, comparando os modos de vida e compartilhando diferentes saberes. Que material riquíssimo para utilizar na alfabetização, e muito significativo para as crianças!
Essa vai ser uma sementinha que eu e Epeline vamos plantar nos corações dos pequenos, para que eles sempre se lembrem de que, por trás daqueles números de refugiados e daquelas pessoas que chegam em nossa cidade atrás de uma oportunidade, existem histórias e sentimentos. Tenho esperança de que ações como essa podem ajudar a formar os seres humanos melhores que estamos precisando.
E vocês, queridos professores? Já passaram por essa experiencia de ter alunos de outros países em sala de aula? Conte aqui nos comentários como foi essa experiência! O que vocês aconselham que eu faça ao longo do ano? Podemos aprender muito com as crianças quando estamos abertos a escutá-las e dar a elas a oportunidade de se expressarem.
Um grande abraço a todos e um viva a Epeline e a todas as crianças imigrantes em nosso país!
Mara Mansani
Fonte: Nova Escola

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