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Cultivo de saberes na Aldeia dos Tapebas

A escolinha que funcionava debaixo de um pé de manga na década de 1990, certa vez ganhou teto, paredes, salas de aula, banheiro, biblioteca, quadra, e levou esperança para a aldeia Lagoa dos Tapeba, bairro Capuan, em Caucaia. Desde a inauguração do prédio da Escola Indígena Índios Tapeba, em 2006, mais crianças e adolescentes passaram a ter acesso à educação diferenciada.
Hoje são 16 professores e 230 alunos divididos em 13 turmas da educação infantil, ensino fundamental e médio. Fundada em 1990, é uma das escolas indígenas pioneiras no Ceará, junto à Escola do Trilho, também Tabepa (Caucaia), segundo a diretora Leidiane Costa, formada em história e aluna do Kuaba.
Legislação
Segundo Naara Tapeba, coordenadora da escola, o currículo destes alunos é bem diferenciado, pois além das disciplinas tradicionais, eles têm aulas de arte, cultura, artesanato, expressão corporal e espiritualidade. No ensino médio, os adolescentes aprendem mais com as aulas de sociologia e legislação indígena. "Na constituição de 1988, já dizia que em cinco anos todas as terras dos povos indígenas deveriam ser demarcadas. Tem mais 30 anos que os tapeba lutam para isso. Queremos que os nossos alunos sejam entendedores desse direito. Quando eles terminarem o ensino médio, vão estar mais preparados".
Para quem já estudou debaixo do pé de manga, é possível dizer que, de 2006 para cá, a educação indígena tapeba vem somando pontos. Dentre eles, exemplos de ex-alunos que já cursaram faculdade ou estão em formação. A professora Naara representa parte dessa história. Graduou-se em educação física e hoje é aluna do Kuaba.

Em sala de aula, as professoras Liliane Moraes e Sheila Soares Gomes mostram a dinâmica da disciplina de artesanato. Nela, os alunos do 5º ano aprendem a produzir as próprias indumentárias, utilizando elementos oriundos da natureza, a exemplo de fibras, sementes e penas. "A gente tenta incluir os alunos em todo o processo, desde a coleta do material na mata até a execução das peças", diz Liliane.
Outra atividade prazerosa na escola é o cultivo de plantas, bem como o de milho e a mandioca: "Os alunos gostam da atividade e, muitas vezes, acabam reproduzindo o conhecimento com a família".
A professora Sheila acrescenta que todas as práticas são realizadas com o apoio dos troncos velhos (os anciões da etnia) para repassar e reforçar os valores do seu povo, bem como a cultura e a espiritualidade.
"Não trabalhamos com a religião, mas com valores de amizade, respeito e solidariedade. Também ensinamos as danças, as músicas e o toré", explica a professora de arte, cultura, religião e expressão corporal. Formada no magistério indígena (nível médio), Sheila agora é aluna do Pitakajá II, curso de Licenciatura Intercultural Indígena promovido pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Com a graduação, ela também poderá lecionar no ensino médio. "Para ensinar, tem que gostar de estudar. Quando a gente ensina, a gente sempre aprende mais", fala com paixão pelo magistério indígena.
Dedicação que contagia alunos como João Paulo Teixeira, 10 anos. Na hora de falar sobre sua etnia, dá uma aula de sabedoria. Primeiro, diz o nome e o sobrenome dos pais, dos avós, e a origem dos tapeba. E assim, revela personalidade capaz de torná-lo uma liderança.
O ex-aluno da educação infantil ao ensino médio da Escola Índios Tapeba, Cassimiro Neto, 23 anos, é outro exemplo da influência por parte da escola, a qual frequentou da educação infantil ao ensino médio. Desde os 13 anos, envolve-se com as causas de seu povo, sendo um dos idealizadores do Movimento da Juventude Indígena do Ceará.
Parcerias
Agora, no último semestre do curso de engenharia agrícola e ambiental numa faculdade particular em Caucaia, Cassimiro prepara o TCC com o tema: o bem viver nas comunidades indígenas e a gestão territorial e ambiental em terras indígenas.
"Na faculdade, eu aprendo os recursos tecnológicos e repasso também meus conhecimentos do manejo natural da terra. O meu povo é muito forte na agricultura de subsistência, mas quero também orientá-lo a usar técnicas para que possam produzir mais e vender para fora das aldeias. É uma troca de saberes", afirma Cassimiro.
Personagem
a
Com apenas 10 anos, João Paulo Teixeira parece já ter aprendido muitas lições na Escola Indígena Índios Tapeba, na qual  cursa o 5° ano. O menino falante e simpático gosta de ler em voz alta com os livros da biblioteca, de fazer artesanato com sementes e penas e de plantar. Sim, os alunos também são estimulados a trabalhar com a agricultura.

João Paulo já tem ajudado a família no plantio feito em casa, onde tem milho, feijão e mandioca. "Quando a gente planta, a gente não vai precisar comprar", fala com maturidade. Mas não é somente nesta área que o garoto se destaca. 
Na aula de artesanato, também demonstra habilidade e disposição. Coloca semente por semente e vai explicando como fazer uma pulseira: "são três vermelha (pau-Brasil), três marrom (açaí) e três dessa cor. Ela vai ficar igual a nossa cobra-coral", compara.
Distraído com a conversa, João Paulo coloca, sem querer, uma semente no lugar errado. Ao perceber o erro, ele desmancha e refaz com perfeccionismo. Na hora de discorrer sobre a sua etnia, dá uma verdadeira aula. Primeiro fala o nome e o sobrenome dos pais, dos avós, e de onde vêm os Tapeba. João Paulo revela vários indicativos capazes de torná-lo uma grande liderança indígena.
Diário do Nordeste

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