Está na hora de mudar a forma como comemoramos o Dia do Índio

A representação do “índio genérico” não vale mais para representar todas as etnias presentes no país. Mas por que será que ainda persiste?
Soraia Yoshida
Foto: Getty Images
Uma pergunta para você, professor: quando fala em índio brasileiro, qual é a imagem que passa aos alunos? A turma ainda faz cocar de cartolina e penas? Cara pintada de guache? Se esse é o caso, a atividade pode ser movida pela melhor das intenções – discutir inclusão e diversidade cultural – mas naufraga no mar de estereótipos do Brasil colônia. Para reciclar esse imaginário, NOVA ESCOLA ouviu alguns especialistas para sugerir atividades, abordagens e leituras que vão diminuir esse abismo entre vida real e sala de aula.
Mas primeiro, vamos aos fatos: a Lei nº 11.645, promulgada em março de 2008, determina a inclusão nos currículos escolares da Educação Básica pública e privada o ensino da História e Culturas Afro-brasileiras e Indígenas. Dez anos depois, pode-se dizer que houve um avanço tímido na discussão em sala de aula, pautada em uma visão que foge da história pré-colônia do Brasil. Se estamos falando de formação da sociedade brasileira e de identidade nacional, então é preciso entender que essa visão deve ser baseada nas sociodiversidades – e entender que, mesmo entre os indígenas, essa diversidade se mantém. Por isso, não existe um “índio genérico” ou “padrão” que possa ser representado.
“Eu acho que a primeira coisa para um professor trabalhar essa temática em sala de aula é entender que aquele índio que vive na floresta, de cabelo lisinho, não é representativo”, diz Flavia Alves Costa, professora de Artes e uma das vencedoras do prêmio Educador Nota 10, promovido pela Fundação Victor Civita. Com uma pesquisa etnográfica para conhecer as comunidades indígenas de Pernambuco e sua produção artística, ela envolve os alunos em atividades, durante todo o semestre, da cultura e arte indígena. “O professor precisa pesquisar primeiro quais comunidades indígenas estão presentes em sua cidade ou no estado, até para que seu trabalho fique distante daquela figura do índio que vive na floresta”, diz.
Flavia acredita que uma parte da culpa pela imagem deturpada dos indígenas se deve aos livros didáticos. “Mesmo quando eu mostro um vídeo aos alunos, eu percebo que alguns ainda ficam presos a essa imagem velha. E eu pergunto: ‘Vocês acabaram de ver os índios no vídeo, eles estavam de cocar? Não’. Os livros didáticos reforçam essa imagem e talvez por não verem tantas reportagens atuais, eles acabam pendendo para essa noção que não tem nada a ver com a realidade”, conta.
Contribui para essa visão o fato de que os livros didáticos citam muito a cultura indígena no passado. "Quando falam de índio nas escolas, é sempre o índio vivia, o índio falava, o índio comia", diz Cristina Martins Fargetti, livre docente pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e líder do LINBRA - Grupo de Pesquisa de Línguas Indígenas Brasileiras, do CNPq. "Toda a diversidade linguística e cultural que existe sempre foi ignorada pela escola. Por falta de informação dos professores, enquanto educadores, essa questão sempre foi relegada e o que a gente vê na sociedade só reforça isso".
Para o pesquisador Edson Silva, do Centro de Educação-Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a pesquisa é fundamental, mas de fato o problema maior é a formação. “Pode ter um livro ruim, em que o índio ainda é aquele vinculado ao passado colonial longínquo, mas a maior deficiência está na formação do professorado”, afirma. Edson diz que as instituições que formam professores não levam em conta outras expressões socioculturais, limitando-se à visão ocidental. “É preciso ter uma política pública de formação para termos avanços. Por que senão qual é a formação que vamos passar para nossos filhos e nossos netos? Sem isso, não vai mudar”, diz.
Em seu texto “Os Povos Indígenas e o Ensino: Reflexões e Questionamentos às Práticas Pedagógicas”, o professor questiona as crianças vestidas com saiotes de papel verde e gritos, supostamente para “homenagear” o Dia do Índio. “Quais serão suas atitudes quando se depararem com os índios reais?”, escreve. “Quais as consequências da reprodução dessas desinformações para o (re)conhecimento das diversidades étnicas indígenas existentes no nosso país?”. 
Autora do recém-lançado "Fala de bicho, fala de gente", obra que reúne 49 cantigas de ninar da cultura juruna (grupo que vive no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso), Cristina Fargetti entende que para sair dessa representação exótica, só mesmo divulgando mais a produção das pesquisas feitas pelas universidades. "Falta material didático de qualidade, falta ler a respeito dos indígenas do Brasil e falta pesquisa de base. Nós precisamos de projetos para conhecer essa diversidade e compreender quem somos nós", diz. "O que a universidade produziu deveria voltar para a sociedade."
Uma maneira de mostrar como a ideia do índio pré-colonial não faz o menor sentido hoje é indagar aos alunos como eles se veem e se essa visão corresponde, por exemplo, às pinturas do tempo do Brasil Império. “É a mesma coisa que falar do português de hoje e achar que ele ainda é o mesmo que usava roupa de manga bufante”, compara. “Da mesma forma, o indígena hoje usa roupas contemporâneas. Quando levei meus alunos para conhecer vários jovens, eles se surpreenderam, conversaram muito e até agora trocam mensagens por WhatsApp”, diz Flavia.
Membros da etnia indígena paiter surui, no interior de Rondônia  Foto: Marcus Mesquita
Quem é o índio brasileiro
Vamos aos números: há mais de 900 mil índios no Brasil. Divididos entre 305 etnias, eles falam ao menos 274 línguas, de acordo com o “Caderno Temático: Populações Indígenas”, estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base no Censo de 2010. A pesquisa, divulgada em 2016, mostra que o Brasil é um dos países com maior diversidade sociocultural do planeta.

Onde está a população indígena
O mesmo estudo aponta que a região Norte abriga a maior parcela de índios brasileiros (37,4%), seguida pelo Nordeste (25,5%), Centro-Oeste (16%), Sudeste (12%) e Sul (9,2%). Os dados do IBGE mostravam que 57,7% dos índios brasileiros viviam em terras indígenas em 2010.

Lugar de fala do índio
Trabalhar a temática indígena em sala de aula não é simplesmente criar atividades lúdicas para que os alunos pintem a cara. Segundo a professora Flavia Costa, as escolas podem pesquisar as etnias mais próximas – começando por sua cidade ou estado. O professor pode usar textos e vídeos para tornar o aprendizado mais interessante. A partir de seu trabalho, ela também junta à pesquisa um convite para que representantes de comunidades indígenas possam vir até a escola para conversar com os alunos. “É muito mais legal quando os próprios indígenas falam sobre sua cultura e, em geral, eles estão muito abertos a esse diálogo com a escola”. Edson Silva atenta apenas para que haja uma boa preparação, para não cair na folclorização. “É importante ler textos de jornais, ver documentários para estabelecer uma conexão com o grupo indígena”.

Para ler com os alunos
Há pesquisas e livros que podem ajudar no encaminhamento das discussões. O escritor e professor Daniel Munduruku, um dos premiados com o Jabuti em 2017 na categoria literatura infanto-juvenil, tem várias obras em que discute a cultura indígena brasileira, entre elas "Contos Indígenas Brasileiros". "Kurumi Guaré no Coração da ?Amazônia", de Yaguarê Yamã, e "A Terra dos Mil Povos: História indígena do Brasil contada por um índio", de Kaka Werá Jecupé, também são leituras para os mais jovens. Há também artigos para leitura dos professores que podem ajudar na formação, com "Povos Indígenas e Ensino de História: Subsídios para Abordagem da Temática Indígena em Sala de Aula", de Edson Silva, e "Culturas em Transformação - Os índios e a civilização", de Clarice Cohn. 

Estudo do meio
Após o trabalho em sala de aula, o professor pode levar os alunos para uma visita a um museu a fim de apresentar mais evidências. Ou, se houver a possibilidade, uma visita a uma aldeia ou território indígena. Como professor de Educação Básica, Edson e seus colegas já levaram quase 200 alunos da 6ª série para visitar território Xukuru. “Vamos a uma escola indígena e passamos uma tarde lá para trocar experiências. Na volta, discutimos com as crianças o entendimento delas a partir da nossa leitura. Mas tudo muito bem preparado antes, exatamente para quebrar essa imagem folclórica”.

Fonte: Nova Escola

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