Nos 60 anos de Cazuza, artistas falam sobre a permanência da sua arte

AGENOR de Miranda Araújo Neto nasceu no Rio de Janeiro em 4 de abril de 1958. O apelido Cazuza foi dado ainda na infância NEM DE TAL/ESTADÃO CONTEÚDO
AGENOR de Miranda Araújo Neto nasceu no Rio de Janeiro em 4 de abril de 1958. O apelido Cazuza foi dado ainda na infância NEM DE TAL/ESTADÃO CONTEÚDO
A intensidade característica de Cazuza está presente em suas letras politizadas, nas românticas e também nas vivências. Morto aos 32 anos em 1990, em decorrência de complicações relacionadas à aids, o cantor e compositor carioca completaria hoje, 4, 60 anos. Partindo da data, o Vida&Arte convidou artistas para refletirem sobre o legado de Cazuza e quais lugares o discurso e a poesia transgressoras dele encontram hoje no Brasil.
A atriz e diretora Hertenha Glauce ressalta a produção rica e franca do artista. “Sempre me surpreendo quando penso que ele morreu aos 32 anos, tão à frente do tempo e com tantas composições”, afirma. “Cazuza não tinha meias palavras, era direto, áspero, ferino. Ao mesmo tempo, conseguia ser doce, sensível, beirando até o brega”.
Como defende a cantora e jornalista Mona Gadelha, Cazuza é “um dos criadores do blues brasileiro” e seguidor da “tradição dos grandes letristas surgidos nos anos 1960 e 1970, que escreviam com belos versos e achados poéticos inspiradores”. A artista chama atenção para a permanência de vários desses versos no linguajar popular do País. “‘Segredos de liquidificador’, ‘um museu de grandes novidades’, ‘o nosso amor a gente inventa’. Isso, pra mim, é a verdadeira consagração popular, quando a obra transcende o tempo e adentra o cotidiano da língua”.
O lado crítico de Cazuza é lembrado por Mona, que o considera “símbolo de transgressão, contestação e precursor da visibilidade gay” - a exposição do HIV, como afirma a cantora, é um “símbolo de coragem”. Para o músico Ricardo Bacelar, membro da banda Hanói-Hanói, a principal característica do carioca era a sua franqueza. “Ele fez época com discursos de protesto contra as mazelas do Brasil da época, que são quase as mesmas”, compara. “Ele tinha muita personalidade e colocava isso nas letras, na escolha das temáticas. Cazuza acreditava muito no que escrevia, sem se preocupar em agradar. O rock, além de ser uma música, é um comportamento, uma postura crítica em relação ao mundo. Cazuza cumpriu essa função muito bem com o que escreveu”, avança.
Parte do acervo de composições do carioca, inclusive, foi escrita em parceria com Arnaldo Brandão, criador da Hanói-Hanói. “Eles dois fizeram muitas músicas juntos. O Tempo Não Para, por exemplo, é deles. No final da década de 1980, ele nos deu uma parceria deles, a música Jovem. Ela, na época, foi censurada porque tinha a palavra ‘viado’ (Jovem/ Você tá muito avançado/ Seus amigos desconfiam/ Que você é viado). Ele já estava doente e seguia falando as coisas que gostava de falar”, afirma.
No atual contexto do País, Ricardo imagina que Cazuza seguiria na luta contra a “caretice”. “Hoje ele estaria mandando ver com a corrupção, a violência, escrevendo sobre elas. A personalidade dele era essa: usar o lado artístico para lutar contra aquilo que ele acreditava estar errado”. Para Hertenha, os discursos do artista seguem importantes nos “tempos tão obscuros que vivemos”, nos quais o “senhor” Cazuza “seria um velhote desbocado, atrevido e indignado”.
Mona lembra que os discursos afiados do cantor podem ser encontrados em “ecos de transgressão e coragem” nos versos de Edvaldo Santana, no rap de Erivan ou na atitude de cantores como Johnny Hooker, Daniel Peixoto, Jonnata Doll, Liniker, Solead e Ana Cañas - “além das veteranas e contundentes vozes de Marina Lima, Angela Ro Ro e muitos artistas que tocam na nervura do convencionalismo e dos padrões. A sua poesia é absolutamente contemporânea nesse ambiente doloroso em que vivemos, quando é preciso mais do que nunca resistir e não se abater diante de propostas dantescas de retrocesso. Cazuza permanece imantado no seu lugar poético e político”, resume.
ROCK
Cazuza iniciou a carreira musical como vocalista e letrista da banda Barão Vermelho, com quem gravou três discos - apenas o terceiro alcançou sucesso popular. Em seguida, como artista solo, lançou outros seis discos, sendo o último póstumo.

JOÃO GABRIEL TRÉZ
O Povo

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