Sair do armário, um dilema adolescente que chega a Hollywood

Assumir a orientação sexual é uma decisão difícil para qualquer adolescente, devido à incerteza do que virá. Essa luta interna é retratada no filme 'Com Amor, Simon', dirigido por Greg Berlanti.
Elenco do filme
Elenco do filme "Com Amor, Simon" em Los Angeles em março. (GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP/Arquivos)

A jovem Orquídea contou a seis pessoas apenas que é lésbica, e ainda acha difícil falar disso, pois treme só de pensar que sua mãe possa descobrir.
"Ela me disse que se eu for gay não vai me apoiar, não vai fazer nada por mim e vai me expulsar de casa", diz a adolescente de 14 anos, que pediu para que seu nome fosse substituído pelo de sua flor favorita, em uma escola de Los Angeles.
Está certa de sua orientação sexual e todos os dias pensa em dizer ao mundo o que sente, mas ainda não está pronta.
"É a homofobia que minha mãe colocou na minha cabeça", diz.
Sair do armário é uma decisão difícil para qualquer adolescente, devido à incerteza do que dirão.
Essa luta interna é retratada no filme "Com Amor, Simon", dirigido por Greg Berlanti, que chegou aos cinemas dos Estados Unidos há um mês e arrecadou quase 40 milhões de dólares em bilheteria.
É uma comédia romântica que retrata um adolescente gay sem cair nos estereótipos.
O filme se soma a outros projetos que abordam temas sensíveis sobre a adolescência, como a série da Netflix "13 Reasons Why", que conta o suicídio de uma estudante de ensino médio.
Minoria na família
No filme, o protagonista, Simon, não consegue anunciar sua homossexualidade apesar de ter uma família e amigos abertos, que sabe que o apoiariam.
Harmony Sánchez, outra estudante de 17 anos que é abertamente bissexual, se identificou com esse dilema.
Embora sua mãe nunca tenha manifestado preconceitos, para ela não foi fácil. "Me perguntou porque eu não contei antes, porque não queria falar disto", diz. Tinha medo do que seus avós iriam pensar.
A família continua sendo o principal fator inibidor. A ONG The Trevor Project, dedicada à prevenção de suicídios de jovens LGBTI, estima que os adolescentes rejeitados por suas famílias por sair do armário "são 8,4 vezes mais propensos a cometer suicídio" que os que recebem apoio, segundo seu gerente de Serviços de Crises, Adam Hunt.
"É muito possível que qualquer um que saia do armário se torne uma minoria em sua própria família", complementa Judy Chiasson, do Departamento de Relações Humanas, Diversidade e Equidade do distrito escolar de Los Angeles (LAUSD).
Adrienne (nome fictício), de 15 anos, pôde dizer a sua mãe que é bissexual, mas o pai quase enlouqueceu quando ela abordou essa possibilidade.
"Dizia que não poderia fazer festas do pijama, que vigiaria minha interação com meninas", conta a jovem. "Que sentido tinha então sair do armário se vai arruinar minha adolescência?".
No fim das contas, negou tudo e jurou que era heterossexual. Uma "mentira de sobrevivência", segundo ela.
 "Lugar seguro"
Estas meninas vão ao colégio Daniel Pearl em Van Nuys, um subúrbio de Los Angeles, com cerca de 365 estudantes, pequeno em comparação com outros da cidade.
Harmony o considera um "lugar seguro para jovens da comunidade LGBTI", embora os meninos tenham se mostrado mais coibidos e nenhum tenha concordado em falar com a AFP. O estigma sobre eles é maior.
"Se alguém é vítima de bullying, não necessariamente os funcionários da escola têm que intervir, mas os próprios estudantes".
Muitas escolas em Los Angeles têm clubes LGBTI e em todas se promove os movimentos anti-bullying e se oferece ajuda psicológica, mas no fim das contas "são microcosmos da comunidade em que se situam", aponta Chiasson. "Certamente a tendência é em direção a uma maior aceitação".
Nos corredores da Daniel Pearl há, por exemplo, panfletos coloridos convidando a uma festa "Queer".
Mas o problema persiste: um estudo da ONG GLSEN, publicado em 2016, mostra que 85% dos estudantes LGBTI consultados sofreram algum tipo de assédio verbal e 66% experimentaram algum tipo de discriminação em sala de aula.
Orquídea não sabe se falará mais sobre sua orientação sexual na escola; em casa, é quase certo que não.
"Sempre penso que sairei do armário quando tiver saído de casa e for autossuficiente", diz com a voz cortada. "Direi: 'sou isto e se você não me aceita será sua escolha. No entanto, eduque-se mais antes de julgar assim tão rápido'".

AFP

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