A literatura periférica

Autoria:  Adilma Alencar
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A origem etimológica do termo periferia encontra-se no latim peripherĭa, cujo conceito refere-se àquilo que rodeia um determinado centro. Durante muito tempo o exercício da escrita literária foi um privilégio de classe. Segundo dados de pesquisa realizados pela UNB (Universidade de Brasília), o perfil do escritor brasileiro é pouco diverso. A pesquisa mostra que nos livros publicados entre 1965 e 2014, mais de 70% deles foram escritos por homens, 90% são brancos e pelo menos a metade veio do Rio de Janeiro e de São Paulo.Com estes dados fica claro o que é o centro do consumo de literatura, o tal cânone, mas a pesquisa nada diz sobre a potência da literatura produzida na periferia.
As aulas de literaturas da 2ª série do Ensino Médio do Santa Maria propõem uma literatura viva, por isso a presença pulsante da literatura periférica. Os alunos conheceram o diário de Carolina Maria de Jesus, publicado na década de 1960, Quarto de despejo: diário de uma favelada relata o cotidiano de uma moradora da extinta favela do Canindé, a leitura do livro foi alinhavada com os versos de Castro Alves. Observar as sequelas sociais da escravidão dentro da obra fez com que os alunos percebessem de maneira angustiada a cor da nossa desigualdade social. Apesar desta observação, costurar a aproximação entre Castro Alves e Carolina, esta não foi a única discussão levantada. Falar da favela em sala de aula é uma oportunidade de mudar esse olhar estandardizado que temos a respeito da periferia, este olhar alimentado pela cobertura televisiva de perseguição policial, por manchetes violentas. A periferia de São Paulo mata a fome de poesia de seus moradores. Os alunos conheceram autores importantes para a cena cultural da cidade, Ferréz e Marcelino Freire foram bem recebidos pelos alunos, junto a estes autores a potência de suas palavras, enredos que tratam de reprodução de violência, como em Pão doce, outros que tratam da marginalização dos corpos negros, como em Trabalhadores do Brasil, narrativas que apresentaram aos alunos do Santa Maria a rica produção periférica, assim como a apresentação dos saraus, dos slams, da Cooperifa e da arte que grita na voz dos periféricos, grita pois a força vem da necessidade de dizer o que a literatura deste centro “inventado” não diz.
A experiência de levar estes textos para sala de aula não é confortável, mas é urgente. Estar em sala de aula diariamente não traz conforto, traz inquietação, a paixão está aí. Levar o aluno a desconstruir o que os discursos sociais solidificam o tempo todo pode ser uma tarefa desconfortável, mas é vigorosa, é potente. A literatura periférica não pede licença a senhor nenhum, a mulher, o negro, o favelado são vozes imperativas, poucos estão acostumados a esta voz ativa na literatura, por isso é urgente mostrá-la. É preciso nomear. É preciso enfrentar a violência das palavras e da carga histórica que cada uma encerra em si, como a palavra periferia.
Nas aulas, a alteridade aparece quando o aluno pergunta o que é um “camburão” ou onde fica o Capão Redondo, este léxico tão comumente ligado à violência é tessitura de conto, romance e poesia. Esta curiosidade alimenta nossa crença na literatura como fomento das mudanças.
Fonte: Estadão

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