Machado de Assis, máquina de fazer leitores

Estado da Arte
10 Maio 2018 | 18h00
por Thiago Blumenthal
“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.” Assim inicia-se o conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, publicado pela primeira vez na revista A Semana, em 12 de maio de 1894. De ordem memorialista, como boa parte da obra machadiana, o conto se desdobra em buscar, pela memória de um narrador-protagonista que retoma uma história acontecida anos antes, em sua juventude, reatualizar o significado do que se passara. Mais: esse narrador procura formar o pequeno quebra-cabeça a partir das peças que lhe restam, um pouco fragmentadas pelo caráter fugidio da lembrança. Neste artigo, gostaria de discutir as relações que há entre os elementos presentes no enredo do conto, pela análise e interpretação, e o contexto histórico em que foi escrito, tanto pelas referências diretas do texto como a partir da observação dos diferentes meios e contextos em que fora escrito por Machado.
“Missa do Galo” se configura como um modelo de conto muito comum a esse período de toda a extensa obra machadiana, a ser publicado em jornal ou revista de circulação semanal ou mensal. Em revista, foram dois momentos distintos em que foi publicado: primeiramente em 1894 (revista A Semana) e, um ano depois, em A Revista Brasileira. Ainda não há acesso, na hemeroteca brasileira, à segunda publicação do conto, mas supõe-se, como era de praxe entre os jornais cariocas de então, muitos deles ligados a um mesmo dono ou ao mesmo grupo de pessoas, que da primeira para a segunda data não tenha havido alteração significativa em seu conteúdo. A própria publicação do conto no livro Páginas Recolhidas, de 1899, que apresenta uma alteração mínima de uma quebra de parágrafo inexistente na versão para jornal, ajuda a confirmar que o conto se manteve intacto, quase sem revisão conteudística (vocabular, estilística ou de enredo), em todos os meios em que foi publicado, como veremos mais adiante.
Estruturalmente, o conto segue um percurso que parece funcionar de maneira fluida ora para um leitor mais apressado do jornal ora para um leitor de maior fôlego, como aquele que se dedicou a folhear o volume de Páginas Recolhidas. Em “Missa do Galo”, o protagonista/narrador passa a noite em claro na casa do casal Conceição e Meneses na capital carioca. Está à espera de um amigo para assistirem juntos, à meia noite, à Missa do Galo, a que o título se refere. Este narrador desenvolve seu relato a partir do que tem em sua memória, como se olhasse para trás e começasse a contar ao leitor o que lhe acontecera anos antes durante aquela noite de espera para a missa. A partir da engrenagem escorregadia da memória, o narrador, que em determinado ponto do conto, saberemos que atende pelo nome de “Sr. Nogueira”, se esforça para dar à sua história o máximo de verossimilhança, embora esteja consciente e faça menção ao fato de que essas lembranças podem muito bem estar confusas. O tempo passou e o que restou daquela noite são fragmentos de uma conversa que teve na meia-luz da sala entre ele e Conceição, de uma atmosfera de tensão sexual e dissimulação, temas que aliás são caros a Machado e podemos pontuar em diversos contos e romances.
O aspecto memorialista do conto se explicita pela presença de termos como “lembro que” e pela própria abordagem do narrador em relação ao que lembra. Períodos como “Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me” estão presentes ao longo de todo o texto e ajudam a criar uma espécie de distância segura entre quem narra e quem lê, estando a própria narrativa sob o xeque da desconfiança, o que reflete o tema da infidelidade que paira no ar.
É pelo estudo que esta narração em primeira pessoa faz de um acontecimento que soa distante que podemos detectar certos aspectos que ampliam um pouco as referências que temos internas ao próprio conto e àquela própria realidade. Demarcada logo de início pelo verbo conjugado “pude”, na primeira frase, e colocando de pronto a questão fundamental do conto “nunca pude entender”, esta primeira pessoa já se mostra distante do objeto que pretende e vai narrar: deixa o benefício da dúvida ao leitor do que de fato aconteceu naquela determinada noite. Funcionando como um personagem do tipo “forasteiro” que visita a capital carioca, Nogueira, que é de Mangaratiba, interior do Rio de Janeiro, parece passar por um rito de iniciação que faz um paralelo interessante com o rito da própria Missa do Galo, nome dado pela tradição católica à missa celebrada na véspera do Natal, com uma simbologia muito forte referente à anunciação do Messias na Terra. O rito do galo que anuncia as primeiras horas do sol na madrugada e o rito de indícios de certa iniciação sexual (pelo tom do diálogo com Conceição) ajudam a desdobrar a figura deste narrador que, à época do ocorrido, tinha apenas dezessete anos, como relata na primeira frase do conto.
O tom, pontuado entre o falado e o escrito, no diálogo entre os dois personagens determina o ritmo e a espontaneidade próprios da linguagem do jornal, o primeiro meio de divulgação de “Missa do Galo”. Para John Gledson, organizador de uma antologia já clássica dos contos de Machado, é na figura feminina de Conceição que esse efeito se mostra com mais clareza, em suas falas e em especialmente no que não diz: ela “não é necessariamente tão passiva e monótona como o narrador imagina; a frase final do conto (‘ouvi, mais tarde, que casara com o escrevente juramentado do marido’) está magnificamente colocada para nos fazer perceber o quanto esse narrador deixa de ver”. Para Gledson, aliás, Machado estava muito ciente de que escrevia para um público majoritariamente feminino, em que a maioria das mulheres dos contos são como as leitoras do Jornal das Famílias e do A Estação: “ricas, ou pelo menos de classe média, casadas ou no mercado matrimonial”.
Sem necessariamente entrar no mérito do gênero ao qual estes jornais se dirigiam, a incluir A Semana, onde “Missa do Galo” foi primeiramente publicado, e a quem Machado de fato escrevia (e se tinha algum público leitor em mente no ato da escritura), a observação de Gledson parece bastante pertinente, pelo menos no que se atém ao fato de que, no presente conto analisado, Conceição chega inclusive a comentar de suas leituras favoritas e em quais jornais.
– Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
– Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
– Justamente: é muito bonito.
– Gosta de romances?
– Gosto.
– Já leu a Moreninha?
– Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
– Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim.
O próprio narrador informa que lia Os Três Mosqueteiros, “velha tradução creio do Jornal do Comércio”  e esse tipo de dado, interno à costura do enredo, revela uma ambientação literária muito próxima à da realidade carioca, com suas publicações e traduções. As amarras da intriga machadiana se soltam no contexto histórico, em especial do universo editorial presente à época em que foi escrito e publicado. A Moreninha, de 1844, de Joaquim Manuel de Macedo, e traduções de clássicos da língua inglesa e francesa são exemplos do que se publicava em jornais e revistas como às em que Machado escrevia.
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Para apurar esse diálogo interno que se estabelece entre as obras precisamos investigar melhor como se davam essas publicações. No caso deste “Missa do Galo”, sabemos que a revista A Semana circulou semanalmente, aos sábados, no Rio de Janeiro, entre 1885 e 1895 (o conto foi publicado um ano antes de a publicação acabar). Foi dirigida por Valentim Magalhães, um dos fundadores da ABL (Academia Brasileira de Letras), e por Max Fleuiss, outra figura célebre do mundo editorial de então. Em São Paulo, era representada pela Livraria Clássica, o que nos é confirmado pelas últimas páginas de cada edição, onde havia a referência, em anúncio, de que “A Livraria Clássica, em S. Paulo, vende pelos mesmos preços da do Rio. A Livraria Clássica é a agência geral d’A Semana no estado de S. Paulo” (A Semana, 1894: 328).
Os contos costumavam ser publicados em duas páginas, com um destaque central, com cinco colunas (três na primeira página e duas na segunda). Aliás, inúmeros contos de Machado têm praticamente o mesmo tamanho, o que revela que o autor escrevia sob a demanda de determinado número de caracteres, prática esta até hoje usada por veículos impressos. É na adaptação ao livro em que se revelam as alterações editoriais frente a um meio diferente; no entanto, no caso de “Missa do Galo”, como já referenciamos acima, há apenas uma quebra de parágrafo extra no livro Páginas Recolhidas que não havia na publicação original da revista. Não há nenhuma troca de vocabulário ou mesmo de enredo. Em outros contos, ou novelas, como no caso de O Alienista, as trocas são mais frequentes e significativas na passagem do jornal para o livro. No caso da história de Simão Bacamarte o fôlego maior da narrativa talvez justifique tais alterações mais profundas.
O primeiro registro que se sabe de Machado contribuindo para a revista em questão é de 21 de fevereiro de 1885, ou seja, no primeiro ano da revista. Tratava-se então de um obituário a Arthur Barreiros, jornalista e escritor que também contribuía para diversos veículos. Ao longo dos anos, notamos, em pesquisa na hemeroteca brasileira online, que as contribuições do autor que eram a princípio mais esparsas se tornam mais frequentes. Coincide com o período em que Machado publicaria Quincas Borba (1891) e já com um certo trânsito entre as figuras letradas da época.
Em 1899, quando Páginas Recolhidas é lançado, José Veríssimo dedica longa resenha ao livro. Diz ele:
Dos contos coligidos neste livro, Missa do Galo me parece um dos melhores que haja escrito o autor. A análise de certo sentimento, ou antes de um desejo, que eu não posso dizer aqui, é feita com uma sutileza, aguda e delicado a um tempo, raramente vista. E com isto, verdadeiro, humano, como é, apesar talvez de aparências contrárias, toda a obra do. Sr. Machado de Assis. Somente humana sem piedade ou sequer simpatia, ou com a piedade ou simpatia disfarçada, ciosamente ocultas, na ironia, no “humor”, sob que a vela e resguarda o poeta.
José Veríssimo, que assina a resenha, é outro dos fundadores da ABL, junto a Machado e a Valentim Magalhães, diretor e editor da revista em que “Missa do Galo” foi publicada pela primeira vez. Não somente isso, é a José Veríssimo que Machado dedica o prefácio de seu Páginas Recolhidas. Notamos assim a presença de um Machado já bastante inserido no meio editorial e literário de seu tempo. Não que esses nomes que vão nos saltando a cada referência tenham tido um papel primordial ou essencial para transformar o autor em um dos maiores brasileiros, mas é inevitável refletir que Machado sabia bem para quem escrevia e o que escrevia, dentro de uma lógica de mercado com certas regras próprias.
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A verossimilhança que Veríssimo reitera em sua resenha ao livro em 1899 acaba sendo também um dos motivos do conto, já que a desconfiança do narrador em relação à Conceição termina por colocá-lo em uma situação de relato em que ele também desconfia já de sua memória, daqueles longínquos tempos que “contava dezessete anos”.
É esse caráter duplo, em que a verossimilhança do relato é posta em dúvida a partir de dentro, que vincula duas histórias: primeiro, uma secreta que ameaça colidir com a história mais visível, do não dito, das palavras que Conceição deixa pela metade, de seu pensamento fragmentado a partir das leituras de Joaquim Manuel de Macedo e outros folhetins. A história visível fragmenta ou compartimenta a invisível, do mesmo modo em que o teatro era o espaço do adultério de Meneses. O diálogo de Conceição com Nogueira também é teatralizado, porém agora tramado pelos fios não muito confiáveis da memória deste narrador que está olhando para trás.
Conceição praticamente emerge da leitura que Nogueira fazia de Os Três Mosqueteiros: “tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro”. Quase como uma cena típica da Recherche proustiana, em que o narrador já não sabe mais distinguir, no meio da noite e na recuperação de suas memórias, o que é ficção e o que é realidade, o que se tem em “Missa do Galo” é um clima de dúvida, de hesitação e de ambivalência em relação ao que se vê e ao que se sente. Compactuar com a sedução (possível, em potencialidade) de Conceição ou ir à Missa do Galo, quando o amigo já lhe chama da janela, ao fim do conto, resistindo a ela, portanto?
É na discussão dos romances e do que cada um lê que a insinuação e a sensualidade mais amplificam cada palavra ou meia-palavra. Além de registrar um período da nossa literatura, e o registro das publicações de Machado em jornais e revistas, ele mesmo, um escritor maduro já familiarizado a suas lógicas de mercado, o conto deixa em aberto o não dito pelo que se é dito. “Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?”
Busca-se assim o passado no presente, no presente relato especialmente. A armadilha das repetições dos mesmos enganos, da lembrança que vem fugidia como naquela atmosfera de meia-luz em que se deu o diálogo com Conceição faz titubear a voz, faz não confirmar a ocorrência, vasculhando o que sobrou daquela ocasião. E é justamente nesta investigação do passado, do rito da juventude, do choque entre o sagrado (o Natal) e o profano (o adultério), dos romances que nos punham ideias na cabeça, e das conversas que tínhamos sobre essas histórias, que se desvela o sentimento que resta firme, inalterável: que somos todos resultado de nosso passado.
Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutor em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Fonte: Estadão

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