Médicos utilizam redes sociais para se aproximarem dos pacientes

Texto: Áquila Leite
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Em meio a era digital, nem só de look do dia e fotos de viagem vivem as redes sociais. A área da saúde, por exemplo, ganha cada vez mais espaço em aplicativos como o Instagram, em que profissionais pilotam perfis com dicas e informações diárias sobre temas diversificados. A excelente recepção dos internautas, anfitriões da rede, contribui com o estreitamento da relação com médicos e nutricionistas, que, com milhares de seguidores, revelam em entrevista a experiência de ter a ferramenta como uma extensão do consultório.
Fernando Guanabara também faz relatos pessoais em seu perfil, já que perdeu 35 quilos de gordura em quatro anos FOTO: Kid Júnior
Com mais de 75 mil seguidores no Instagram, o médico cearense Fernando Guanabara, referência em medicina preventiva, utiliza a rede social para passar dicas e mensagens de incentivo à prática de exercícios físicos e alimentação balanceada. Praticante de triathlon, ele também costuma fazer relatos pessoais sobre sua relação com o esporte que lhe ajudou a lutar contra a obesidade e eliminar 35 quilos de gordura em um período de quatro anos.
As redes sociais mudaram a relação entre profissional e paciente. Eles nos conhecem antes mesmo de chegar ao consultório, não só no aspecto profissional, mas no aspecto pessoal
Fernando Guanabara, médico
“A ideia (de levar o trabalho para as redes sociais) surgiu quando eu comecei a estudar sobre a nutrologia. Queria informar os seguidores sobre o que poderia acontecer, transmitir informação. Eu realmente não esperava um engajamento tão grande”, ressalta Fernando, que recentemente lançou também um canal no YouTube com vídeos mais completos sobre doenças relacionadas à alimentação e outras curiosidades da medicina preventiva. “A ideia é ajudar as pessoas que não conseguem chegar ao nosso consultório”, complementa o médico.

“As redes sociais mudaram a relação entre profissional e paciente. Eles nos conhecem antes mesmo de chegar ao consultório, não só no aspecto profissional, mas no aspecto pessoal. Eu sei que acabo expondo minha vida, mas os pacientes se identificam com isso. A empatia aumenta”, pontua. Segundo ele, ao acompanhar sua rotina, os seguidores também passam a dar mais credibilidade para as dicas que são passadas na internet. “Orientamos que façam isso, então a gente precisa ser modelo para eles”.Além de informar seus seguidores sobre assuntos relacionados à saúde, Fernando Guanabara também utiliza sua conta para mostrar detalhes de sua vida pessoal. Segundo ele, este tipo de exposição faz parte de uma nova relação de proximidade entre médico e paciente, algo que vem crescendo ao longo dos últimos anos e tornando os profissionais da saúde mais humanizados.

De mãe para mãe

Mãe coruja de dois filhos, a pediatra Isa Xavier faz sucesso nas redes sociais com seu estilo descontraído e didático de falar com outras mamães sobre os cuidados com os pequenos. Dona de um perfil com mais de 22 mil seguidores no Instagram, ela conta que passou a levar seu trabalho para as redes sociais a partir da chegada da função 'Stories' no aplicativo, que permite aos usuários criarem vídeos curtos, que desaparecem depois de 24 horas de sua publicação.

“Quando comecei a fazer os vídeos sobre assuntos da pediatria e dando dicas da emergência, percebi que havia uma procura absurda por parte das mães e uma identificação com meu modo de falar. Muitas passavam por aquela situação e queriam dicas do pediatra. Senti essa necessidade de orientar”, diz a médica, que também procurou levar suas experiências no consultório para seus seguidores. “Às vezes atendia uma criança e via que aquela mãe carecia de informação. Muitas não sabiam o que fazer quando o filho gripava, davam medicação errada, levavam para a emergência com menos de 24 horas de febre. Elas não tinham essa imagem para passar segurança".

Isa Xavier tem quadros como Mitos e Verdades e Tema de Hoje, mas reforça que post no Instagram não substitui consulta médica FOTO: Divulgação
Com quadros como "Mitos e Verdades" e "Tema de Hoje", Isa Xavier conversa diretamente com seus seguidores para tentar desmistificar alguns assuntos que ainda estão enrustidos entre os pais. Segundo ela, como existem muitos mitos na pediatria, é importante passar a informação correta para que as pessoas tenham mais segurança durante o tratamento dos filhos. “A gente acaba escutando muita crença, muita coisa cultural, aí eu gosto de desmistificar isso. Há, por exemplo, a ideia de que o corticoide é antialérgico, o que não é verdade, pois se trata apenas de um anti-inflamatório potente que ajuda nos quadros respiratórios, que são a base da doença alérgica. Esclarecer temas assim ajuda a evitar o uso de medicações inadequadas”, reforça.
O engajamento dos seguidores é tão elevado que a pediatra utiliza até dúvidas e perguntas enviadas pelo público para organizar suas postagens. “Peço para mandarem as principais queixas e transformo em conteúdo”, explica. Ela garante que tem gostado de estreitar a relação com os pacientes através das redes sociais e vê como positiva a troca de experiências na internet. “Às vezes o paciente tem uma ideia do profissional de distanciamento, e eu acabei encurtando isso. Somos humanos, nossa profissão procura cada vez mais ser humana. O médico 'raiz' não quer ter esse distanciamento. Ele quer ter uma amizade e envolvimento com seu paciente”.

Receitas saudáveis e dicas nutricionais

Assim como geralmente acontece, a nutricionista Carla Laprovitera começou sua empreitada nas redes sociais de forma despretensiosa, postando sua rotina e os alimentos que comia para os amigos, que passaram a pedir mais informações sobre alguns assuntos. Com o tempo, a profissional passou a se destacar e ganhar a simpatia do público pela forma leve como transmitia seus conhecimentos no Instagram. Atualmente, já conta com mais de 23 mil seguidores em seu perfil profissional, considerado uma referência para quem busca dicas de alimentação saudável em Fortaleza. “Foi tudo tão natural, que confesso que não esperava”, assume.
O grande destaque do perfil de Carla são as receitas saudáveis que a nutricionista divulga para seus seguidores. “As pessoas amam! Eu adoro preparar e postar as receitas. É muito bom ver quando as pessoas fazem em casa e mostram como ficou”, comenta ela, que também costuma publicar conteúdos mais específicos, com dicas nutricionais e informações sobre alimentos. “O que eu mais gosto são os posts mais informativos, pois assim posso transmitir o que sei, de uma forma leve e que o público leigo entenda, e ajudar várias pessoas que, de repente, não podem ir a uma consulta comigo. Isso é muito gratificante”, destaca Laprovitera.
  1. Promover suas atividades profissionais com mensagens enganosas ou sensacionalistas
  2. Alegar exclusividade ou garantia dos resultados de produtos, serviços ou métodos
  3. Realizar promoções e sorteios como forma de publicidade e propaganda para si ou para seu local de trabalho
  4. Divulgar imagem corporal de si ou de terceiros, atribuindo resultados a produtos, equipamentos, técnicas e protocolos (o popular 'antes e depois')
  5. Realizar qualquer tipo de consulta ou prescrição à distância
  6. Indicar, manifestar preferência ou associar sua imagem intencionalmente para divulgar marcas de produtos alimentícios
É preciso tomar todo o cuidado com o que se escreve e se divulga, pois, infelizmente, nem todos têm o mesmo cuidado. E para a pessoa que lê é importante sempre verificar a fonte
Carla Laprovitera, nutricionista
Ainda de acordo com a nutricionista, a aproximação do profissional com o grande público também ajuda a passar informações mais precisas para as pessoas, tendo em vista que, no ambiente digital, muitos dados inverídicos chegam aos internautas. “Na internet vemos muita informação errada sendo divulgada por pessoas que não são capacitadas, não são formadas na área da saúde, ou até mesmo por profissionais que só querem se aproveitar da mídia para se autobeneficiar. Essas informações erradas podem influenciar de uma forma negativa e até prejudicial à saúde”, alerta.
Em constante contato com seus seguidores, Carla diz que pretende expandir ainda mais sua geração de conteúdo nas redes sociais e se tornar cada vez mais acessível, já que enxerga na ferramenta uma forma de levar informação e conhecimento de saúde e bem-estar para o público como um todo, não se limitando aos seus pacientes. O estreitamento desta relação, diz, é importante para conscientizar os internautas sobre o que é 'consumido' na internet. “É preciso tomar todo o cuidado com o que se escreve e se divulga, pois, infelizmente, nem todos têm o mesmo cuidado. E para a pessoa que lê é importante sempre verificar a fonte, se confia na pessoa que está falando sobre cada assunto”.
Em suas postagens, os profissionais da saúde também procuram esclarecer que as dicas publicadas na internet não substituem uma consulta. A médica Isa Xavier, por exemplo, diz que é importante deixar claro para os seguidores que as informações visam apenas auxiliar e informar o público, mas não podem ser encaradas como verdades absolutas. “Nos vídeos, sempre falo que a dica que dou não substitui a avaliação de um profissional. Recebo vários pedidos de receitas e diagnósticos. Para todos digo que, pelas redes sociais, só posso passar dicas gerais. Para acompanhamento específico, só no consultório”.
A nutricionista Carla Laprovitera segue a mesma linha e vai além: diz que o que é 'remédio' para uma pessoa pode ser 'veneno' para outra. “Sempre deixo bem claro a importância da consulta. E na forma como trabalho, os pacientes percebem bem isso, pois prezo muito por um planejamento alimentar bem individualizado”, reforça. Segundo ela, realizar consultas e diagnósticos nutricionais pela internet e outros meios de comunicação é ilegal, assim como a prescrição de qualquer dieta.

O que prevê os Conselhos

Com o crescimento da relação entre profissionais da saúde e seus pacientes nas redes sociais, os Conselhos de cada profissão têm se preocupado, cada vez mais, em regular e supervisionar este tipo de prática. Conforme o doutor Emmanuel Fortes, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), a resolução 1974/11 prevê que, não sendo autopromocional ou sensacionalista, a divulgação de dicas em benefício da sociedade está amparada nos dispositivos éticos e é permitida.
“O que o médico não pode fazer é dizer que é detentor de um saber exclusivo, pois ninguém tem isso na medicina. Também não pode dizer que aquele serviço prestado por ele é o melhor disponível, ou levar à população a esperança de métodos e técnicas não reconhecidas pelo CFM”, afirma Emmanuel Fortes. Ainda de acordo com o vice-presidente do Conselho, os profissionais também não devem se manifestar como especialista em um assunto que não tenha o registro adequado. “Tanto na resolução 1974/11 como em outros dispositivos, também é proibida qualquer tipo de consulta à distância”, reforça.
O vice-presidente do CFM diz que o Conselho precisou fazer uma série de previsões sobre o que os médicos podem fazer nas redes sociais, em virtude do crescimento deste tipo de exposição por parte dos profissionais da saúde. “Ao médico já é permitido até, depois de realizar a primeira consulta, tirar dúvidas do paciente ou da família sobre a prescrição e evolução em uma rede privada, como o WhatsApp”, comenta o doutor Emmanuel Fortes.
O mesmo cuidado com o que é divulgado nas redes sociais deve ser tomado por profissionais da Nutrição, informa o presidente do Conselho Regional de Nutricionistas da 6ª Região (CRN-6), Hillário Damázio. Segundo ele, o novo código de ética da profissão possui artigos especificamente voltados a esta interação na internet. “Usar as redes sociais para falar sobre alimentação e nutrição é considerado como uma prática de educação alimentar. O problema é os excessos nessas 'dicas', que às vezes se tornam verdades absolutas, podendo trazer riscos à saúde do consumidor”, alerta.
Assim como o CFM, o CRN-6 reforça que as dicas e informações postadas nas redes sociais nunca substituirão uma orientação nutricional pessoal, individualizada. “Cada organismo é próprio, com uma necessidade específica. Então, o zelo e cautela com o paciente/cliente deve ser a premissa básica do nutricionista. Por isso deve haver cuidado com as informações passadas nas redes, para não trazer risco à saúde de ninguém”, destaca Damázio.
Diário do Nordeste

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