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Auster muda de estilo no romance "4 3 2 1"

por Dellano Rios - Editor de Área
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O escritor Paul Auster: novo romance, extenso e ousado, reafirma sua maestria literária
Em pelo menos dois sentidos, "4 3 2 1" é uma obra monumental. O primeiro, mais evidente porque físico, é aquele que salva aos olhos de quem encontra esse novo livro de Paul Auster na livraria. A edição brasileira, que a editora Companhia das Letras lança no dia 16, terá 816 páginas, um pouco menos do as versões lançadas no mercado anglo-americano.
O dado é mais significativo do que pode parecer. Auster é um autor prolífico, que começou a publicar livros em 1974, quando ainda era exclusivamente poeta. Estreou na ficção em 1984, com "Squeeze Play", e de lá para cá publicou mais de uma dezena de romances. Nenhum passou de 320 páginas ("A Trilogia de Nova York" supera a marca de 400 páginas, mas é a reunião de três novelas, não um romance). A brevidade dos livros de Auster reproduzem a precisão e a economia em seu uso das palavras. Frases curtas, sem volteios, imagens claras e diretas são marcas de sua prosa, ainda que na alquimia artística do autor toda essa simplicidade resulte num quadro complexo e rico, a cada história contada, a cada tema tratado.
De certa forma, o esquematismo servia de contraponto às ousadias do que era narrado, em especial nas incursões do autor pelo absurdo. As histórias de detetive da "Trilogia" são o melhor exemplo disso - a racionalidade da narrativa serve de âncora para que o leitor não seja arrastado para a loucura como os personagens da trama.
O que faria Auster, então, se demorar ao longo de mais de 800 páginas? Uma mudança de estilo. Em uma entrevista dada ao jornal britânico The Guardian, no ano passado, o escritor afirmou que esta transformação já estava sendo ensaiada nos romances anteriores a "4 3 2 1". No romance, ele constrói frases longas e a história se faz de arcos narrativos que, de tanto se estenderem, parecem não se encerrar. A economia de outrora dá lugar à pujança; a precisão à riqueza de detalhes, que parece inabarcável.

Realismo matemático
O segundo sentido da monumentalidade de "4 3 2 1" é de seus méritos literários. Quando foi lançado lá fora, no começo do ano passado, a mudança de estilo foi questionada em parte das críticas. A ousadia do veterano, contudo, teve a garantia de sua habitual competência no ofício. O romance não mancha a carreira de Auster e ainda reafirma o nome do autor norte-americano como um dos principais escritores em atividade (sem que se tenha em vista, exclusivamente, os EUA).
Auster atualiza o realismo. Muitos lembrarão dos mestres franceses do século XIX, mas a falta de melindres moralistas e um narrador que mimetiza a percepção do protagonista (é ingênuo, quando ele é uma criança; e abre os olhos no passo que o herói de Auster cresce) aproxima o escritor do modernismo de um James Joyce (1882-1941), em especial o Joyce de "O retrato do artista quando jovem" (1914).
"4 3 2 1" lida com a antiquíssima questão do possível. O personagem central é Archie Ferguson, um garoto judeu, de lar de classe média de New Jersey. Dividido em quatro capítulos (cada um deles, repartido em quatro partes), o romance mostra a vida de Ferguson em diferentes versões. As pequenas variações iniciais são as raízes de divergências maiores, no correr das ações, entre as décadas de 1950 e 1960, tempos de agitação social, cultural e política dos EUA.
Auster faz um exercício duplo: histórico, ao comentar criticamente o período, a partir de seus personagem em formação; e filosófico, ao pensar, em forma de ficção, as possibilidades de uma vida. Parte da crítica assegura que se trata de um romance autobiográfico. E, ironicamente, pode se responder, como Auster em seu livro, que sim, essa é uma possibilidade dentre outras.

Livro
4 3 2 1
Paul Auster
Tradução: Rubens Figueiredo
Cia. Das Letras
2018, 816 páginas
R$ 89,90 (pré-venda)

Diário do Nordeste

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