Literatura do confronto: Depois de vender 300 mil na França, 'O fim de Eddy' chega ao Brasil

ANDRÉ DUCHIADE (andre.duchiade@jb.com.br)

Sucesso flamejante na França, onde vendeu mais de 300 mil exemplares, traduzido em mais de 20 países, capa de alguns dos maiores jornais do mundo, chega ao Brasil “O fim de Eddy”, livro de estreia de Édouard Louis. Publicado em 2014, quando o autor tinha 21 anos, o romance autobiográfico conta, em estilo seco e brutal, as humilhações e ataques sofridos pela criança e adolescente gay de uma família pobre de Hallencourt, no norte da França. 
No começo da história, Eddy Bellegueule é surrado e escarrado na escola. Tudo marca sua inadequação: sua voz é estridente, seu andar, saracoteado, sua vontade é de fazer dança e não futebol. Como diz uma vizinha, é bastante evidente para todos, principalmente para o próprio, que Eddy “não é como os outros”. Há, contudo, uma pressão sufocante por virilidade e ele tenta se ajustar, vendo jogos na TV, se obrigando a encontros com garotas, achincalhando outros jovens na escola para distrair as atenções. 
Até 2012, Édouard Louis se chamava Eddy Bellegueule, o jovem que enfrenta uma série de humilhações e violências em uma cidade degradada do norte da França
O personagem do livro, no caso, é o próprio autor. Eddy Bellegueule é o seu nome de batismo, que ele portou até 2012, quando mudou o registro civil. A mudança de nome foi parte de um processo amplo de refundação da personalidade, que teve um marco importante aos 17 anos, quando o escritor se tornou leitor ávido.
“Eu queria me afastar de quem eu era. Fiz tudo o que pude para me adaptar. Meu sonho era simplesmente me conformar, ser chamado de normal, não causar vergonha em meu pai”, diz Édouard. “O que me salvou foi o meu fracasso. Quando fui ler e, depois, escrever, só queria me afastar do mundo onde cresci. Tentei tudo o que podia e fracassei. Não tinha outra opção”, ele diz. 
No livro, o escritor, que estudou sociologia em uma prestigiosa faculdade parisiense, também faz um retrato cru de grupos sociais degradados e invisíveis da sociedade francesa. Os pais de Édouard fazem parte de uma subclasse trabalhadora que fica o dia inteiro vendo TV, convive com o alcoolismo, o desemprego e a gravidez precoce, destila racismo, vota na Frente Nacional (partido de extrema-direita) e está sujeita a uma aniquilante sensação de impotência. 
Mais do que condenar a família,  a obra aborda aquilo que Édouard descreve como os “mecanismos de exclusão, pobreza e dominação” que levaram as pessoas ao lugar onde estão. Seu alvo, ele afirma, não são os pais, mas a sociedade que os produziu. “A classe dominante é sempre mais responsável, porque tem poder para falar e agir. Quero envergonhar a burguesia, deixá-la desconfortável, para que as pessoas se perguntem sobre a própria responsabilidade”, afirma. 
Personagem é o próprio autor
Desde a publicação da estreia, o autor lançou mais dois romances autobiográficos: “Histoire de la violence” (“História da violência”), de 2016, e “Qui a tué mon père” (“Quem matou meu pai”), publicado mês passado. No primeiro, o autor reflete sobre as causas e repercussões de um estupro que sofreu. Já na obra mais recente são analisadas as interferências de políticas governamentais na vida de seu pai. 
O escritor reivindica para si a designação de autor político. “Quando você pertence a um meio privilegiado, você não sente a política no próprio corpo. Mas quando se é pobre, uma decisão do governo define se você vai ou não ter o que comer”, ele diz. “É por isso que a maioria dos escritores não quer falar sobre política: porque eles nunca  a sentiram na própria pele”. 
Já o seu interesse, ele afirma, é “reduzir a distância entre a literatura e a realidade”.  O meio para fazê-lo é chamando a atenção para a violência que conheceu tão de perto. “É impossível para mim falar sobre coisas bonitas. A beleza é um luxo, que tem sempre um custo. Tento reconstruir a história de várias formas de violência e, para isso, me dedico a entender como foi produzida. Se você entender como ela funciona, fornecerá ferramentas para as pessoas a desfazerem. E assim poderá haver mais beleza”, diz.
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Serviço 
“O fim de Eddy”, Édouard Louis. Planeta. R$ 40, 176 pp.

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