O Presidente da AMLEF e professor Régis Frota lança hoje “Memória & Silêncio no cinema Chileno”

Há uma década, o cinema chileno conheceu uma explosão de criatividade. Decorrido apenas um lustro da histórica decisão plebiscitária e popular chilena de desprendimento/olvido do general Pinochet e sua ideologia, a cinematografi a do Chile se renova, retoma sua criatividade, obtém o reconhecimento internacional através de inúmeros prêmios nos maiores festivais cinematográfi cos do ocidente. A intenção desse livro é proceder a uma análise do potencial dessa cinematografi a hoje. Busca tornar conhecido do público leitor brasileiro o potencial do fi lme chileno, sua identidade com uma pós-modernidade, atento às intimidades desencantadas pelos filmes produzidos após o ano 2000.
Assim como a classe média brasileira parece ter descoberto, após a entrada do milênio, a beleza da geografia chilena, a simpatia de seu povo, a prepotência da cordilheira que cerca a capital Santiago, bem como acompanha longilínea e horizontalmente todos os recantos do deserto de Atacama, ao norte, até os lindos lagos azuis, ao sul, e vulcões provocativos que por lá ameaçam expulsar do interior da terra larvas e fumaças, o brasileiro passou a superlotar os aviões da LATAM rumo às turísticas visitas das vinhas e montanhas geladas do país andino, para despertar para um novo destino durante as férias, de janeiro a dezembro, de igual modo, o público brasileiro somente agora descobriu o valor do cinema chileno, eis minha intenção ao publicar este livro: possibilitar uma intimidade com a bibliografi a especializada daquele país que aborda sua atual cinematografia.
No corrente ano de 2017, o cinema chileno será, merecidamente, homenageado com grande retrospectiva e máster class na cidade de Fortaleza, por ocasião da realização da 27ª edição do Cine Ceará. E já em julho de 2016 entrara em cartaz nas salas de exibição do Brasil, o recente documentário El botón de Nácar(O botão de pérola,2015), dirigido por Patrício Gúzman, veterano cineasta chileno, o qual juntamente com Miguel Littin e Raul Ruiz, pavimentaram o caminho não só para seus conterrâneos e contemporâneos, como para as gerações que se seguiram e que produzem um cinema superlativo e icônico, pleno de “intimidades desencantadas”, como descrito no primeiro capítulo deste livro. Gúzman, aliás, fi zera filmes bem antes de o cine chileno despontar e eclodir nos grandes festivais (como o Cine Ceará 2015, quando outro fi lme chileno, “O Clube”, dirigido por Pablo Larraín, obteve o troféu de melhor filme), e foi pioneiro em quase todas as fases do cinema de seu país- e também um expoente em todas elas, em uma contribuição para o documentário de longa metragem que a consideração da crítica inglesa lhe atribuiu entre os dez melhores documentários de todos os tempos, por seus fi lmes anteriores, La nostalgia de la luz(2010) e La batalla de Chile I a III (1974/1979), mal poderia dimensionar.
Divididas as atenções entre longas metragens de fi cção e documentários, o atual cine chileno ocupa o imaginário do povo daquele país andino de forma emblemática e vigorosa: realizados ambos os fi lmes em 2015, “O Clube” e o “Botão de pérola” refl etem todo o silêncio e toda a memória de uma história heroica de um povo bravio, imprensado entre a cordilheira e o mar pacífi co, da resistência à ditadura pinochetista aos escândalos de pedofilia na Igreja do país.
Este livro analisa como o cinema chileno contemporâneo aborda as relações familiares. Se nos filmes dos anos 1960 o indivíduo e a família surgem desfocados, para que a cena política e social ganhe evidência, nos filmes aqui analisados, sobremodo as películas referidas no primeiro capitulo sobre o novíssimo cine chileno, os conflitos individuais e as relações familiares protagonizam a ação e tornam-se uma representação de conceitos como país, pátria e sociedade. Algo que, de certo modo, igualmente aconteceu com o cinema brasileiro da retomada.
Os demais capítulos se dividem, ora em apreciações estéticas e comparativas entre algumas películas chilenas e brasileiras, ora em ressaltar aspectos históricos das diversas fases evolutivas da produção cinematográfica chilena. Espero que o leitor brasileiro encontre alguma resposta para as tantas indagações sobre a eventual relevância do cinema chileno hoje, um cinema periférico ao modelo dominante hollywoodiano, mas que se identifica com estas características que marcam a recente história e a cultura do povo chileno: o silêncio e a memória.

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