Rio debate intolerância religiosa e racismo

'Nós não podemos mais admitir que as nossas casas sejam vilipendiadas', diz mãe de santo.

Já em 2014 representantes de religiões de matriz africana entregam ao presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, carta em que denunciam a discriminação do Estado brasileiro contra praticantes de candomblé e umbanda.
Já em 2014 representantes de religiões de matriz africana entregam ao presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, carta em que denunciam a discriminação do Estado brasileiro contra praticantes de candomblé e umbanda. (Luis Macedo / Câmara dos Deputados)

Por Cristina Índio do Brasil
A invocação da energia dos orixás, uma cerimônia chamada de Xirê, em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, abriu caminho para uma noite de discussão sobre o racismo e a intolerância religiosa e em defesa da cultura africana.
Ao som dos atabaques, integrantes de terreiros do Rio dançaram em homenagem a todos os orixás, observados por quem passava na praça e era atraído pela cerimônia.
No alto da escadaria, sentada em uma cadeira, dona Rosália Oliveira dos Santos, a mãe Rosinha de Odé, com seus 92 anos de vida e 62 anos de iniciação no candomblé, acompanhava tudo.
A religião tem papel importante no dia a dia dela. “Adoro e vou morrer nessa”, contou, antes da cerimônia, em entrevista à Agência Brasil, a baiana que só entrou para o candomblé depois de deixar Salvador e se mudar para o Rio.
Mãe Rosinha de Odé, tem 13 filhos biológicos, mas não faz conta de quantos são os seus filhos de santo. O número é muito grande. Quem já viu tantas coisas na vida não consegue entender porque não há respeito para a sua religião. Tem medo da intolerância e de atos violentos nos terreiros e contra seus companheiros de fé.
“Isso é abuso. Desfazer das coisas que Deus determina. Como pode queimar, querer jogar fora, arrebentar tudo, fazer um bocado de bagunça. Se nós estamos lá é porque Deus nos trouxe aqui. Fico chateada e triste quando vejo certas coisas. Já passei tanta coisa no santo. Tenho medo que acabe”, disse, completando que ainda incorpora orixás. “Recebo o santo, sou de Oxossi. Oxossi com Yansã”.
Respeito
Ao lado dela, mãe Mara de Yemanjá, da Casa Ilê axé Egbé Omó Eja, do Parque Anchieta, zona norte do Rio, contou que o respeito é um conceito passado para os mais novos desde os seus ancestrais, por isso uma pessoa como a mãe Rosinha é tratada com reverência.
“Mãe Rosinha é uma das nossas Abás, uma das nossas anciãs, uma das joias do candomblé, porque é uma história viva do candomblé, que nós ainda temos oportunidade de lidar com ela, usufruir do saber dela, de estar com ela, de recebermos dela o axé, a vivência dela nesses anos todos. Por isso, ela é uma pessoa respeitada por todos nós. O candomblé tem um sentido hierárquico e ela, como uma das pessoas mais velhas, é digna de todo nosso respeito e da nossa reverência. Mãe Rosinha é iniciada de Oxóssi, então, a presença de mãe Rosinha entre nós é a presença do orixá Oxóssi entre nós”, apontou.
Racismo é condenado
Mãe Mara também defendeu a cultura africana e lembrou que o Brasil não deveria ter racismo porque tem uma forte presença de negros desde a sua origem.
“Nós não podemos mais admitir que as nossas casas sejam vilipendiadas, não podemos mais ser desonrados, porque fazem da nossa população uma população marginal e nós não somos. Nós somos força de trabalho e força de saber. A maior construção nossa é a história da nossa ancestralidade. Tudo isso que pisamos e tudo que temos foi através de nossos ancestrais. Temos que honrar isso e fazer com que a sociedade entenda que somos parte dela. Não é favor nenhum nos aceitar. Estamos aqui porque aqui é nosso lugar. O Brasil é negro. Não existe branco puro no Brasil”, apontou.
Lavagem
Após o Xirê, mães e filhas de santo fizeram a lavagem da escadaria da Câmara Municipal. Depois, todos seguiram para o plenário e começarem o debate público sobre Racismo Religioso e Cultural, proposto pelo vereador Reimont (PT), após pedido do Movimento Não Mexa na Minha Ancestralidade.
Em sua página no Facebook, o movimento informa que é uma “comunidade voltada para a luta contra o desmonte das religiões de matrizes africanas e manifestações culturais que delas se originaram, assim como pela garantia de direitos ao povo preto”.
O coordenador geral do Movimento Não Mexa na Minha Ancestralidade, João Paulo de Xangô, lembrou que as casas de candomblé têm enfrentado dificuldades com a liberação, pela prefeitura do Rio, de alvarás temporários para manifestações culturais como rodas de samba e de capoeira e os definitivos para os templos religiosos de matriz africana, que estejam localizados em áreas residenciais ou em fundos de quintais de imóveis.
Segundo João Paulo, a maioria dos terreiros está em regiões deste tipo, o que representa uma dificuldade para as casas, com exceção dos templos ligados à Federação de Umbanda e Candomblé, que têm as permissões para funcionar.
“Como se vai falar que uma fé não pode funcionar? Que um templo religioso não pode funcionar? É muito complicado. A fé envolve muito o seu espírito, a sua essência, principalmente, o candomblé que fala de uma questão ancestral”, afirmou.
O vereador Reimont, presidente da Comissão de Cultura da Câmara Municipal, disse que atendeu o pedido do Movimento Não Mexa na Minha Ancestralidade porque era preciso discutir a preservação dessa cultura e os casos de ataques a integrantes de religiões de matriz africana.
Apoio ao debate
O deputado estadual Carlos Minc (PSB), presidente da Comissão contra o Racismo e a Intolerância Religiosa da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) que também estava presente. Ele apoia o debate e disse que vai encaminhar o resultado do encontro para discussão dos seus colegas na casa. “Vamos levar [o resultado] para a Assembleia Legislativa e para o governo do estado, porque as mesmas questões que existem na cidade existem no estado e as linhas que esse debate avançar com prioridade serão também abraçadas pela Assembleia e encaminhadas não só para o governo estadual, como para o Ministério Público Estadual”, disse.
Mãe Marli de Xangô estava no grupo com integrantes de religião de matriz africana, do samba e da capoeira. Ela disse que não é “muito fã” de política, mas destacou que, diante das dificuldades que a cultura vem enfrentando atualmente com casos de violência e intolerância, é bom que o tema seja discutido pelos parlamentares.
“É o caminho para a gente conseguir algum objetivo. É um povo tão sofrido e corremos risco, hoje em dia, de acabar com a nossa fé. Acho que está sendo superlegal ter o debate e dou meu apoio”, afirmou.

Agência Brasil

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