Romeu Duarte discute a formação arquitetônica do Ceará em livro

A cidade contemporânea é um grande quebra-cabeça: repleta de proximidades e distanciamentos, territórios sobrepostos e fronteiras tênues, a metrópole é o lugar do conflito por excelência. Essas desigualdades estão gravadas nas formas estruturais e o espaço urbano, em cada uma de suas rugosidades, encarrega-se de narrar suas histórias. No Ceará, a arquitetura testemunha a complexa relação entre o homem e a natureza.
A formação arquitetônica cearense se iniciou no século XVIII, quando o Estado se tornou administrativamente independente de Pernambuco e começou a projetar vilas, matrizes e sobrados. Responsável pelo primeiro ciclo econômico regional, a criação do gado estruturou cidades como Sobral e Icó. “Um traço arquitetônico comum entre Capital e interior é a relação da edificação construída com os ventos e a luz, o compromisso com a redução da temperatura e a produção de sombras. Nas fazendas, por exemplo, se fazia arquitetura com meios extremamente escassos, como a carnaúba e o tijolo branco, mas havia uma preocupação com o conforto ambiental. Hoje nós estamos trocando as superfícies rugosas dos prédios pelas lisas, usando vidro em tudo e reféns da tirania do ar-condicionado, gastando uma energia brutal. Estamos esquecendo essas inspirações do passado que poderiam muito bem ser atualizadas”, argumenta o arquiteto e urbanista Romeu Duarte, que lança o livro Uma breve história da Arquitetura Cearense no Festival Vida&Arte, na próxima sexta-feira, 22, às 15 horas. No evento, acontece um debate entre o autor e os arquitetos e urbanistas Ricardo Paiva e Ricardo Muratori com mediação de Humberto Pinheiro.
Graduado pela Universidade Federal do Ceará e Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, Romeu foi superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), de 1987 a 2008, e é conselheiro vitalício do Instituto de Arquitetos do Brasil, além de ser professor.
O livro é um passeio pelas tendências e tradições que desenham as cidades cearenses, desde a arquitetura civil e religiosa do século XVIII aos projetos multiculturais contemporâneos como o Mercado dos Peixes. Homenagear os planejadores urbanos, aliás, é outro objetivo de Romeu Duarte na obra e o autor dedica-se a apresentar o trabalho de arquitetos como os modernistas José Liberal de Castro e José Neudson Braga. No entanto, a pesquisa evidencia um problema crítico: pensar em uma identidade da arquitetura cearense é um desafio.
“Principalmente de certo período pra cá, se tornou mais difícil identificar uma marca que caracteriza a arquitetura cearense. Ela é muito feita de modismos e até Dubai tem sido inspiração. Durante a vigência da arquitetura moderna, a gente conseguia enxergar traços mais característicos, como a utilização dos cobogós, esquadrias de madeira, pergolados, tijolo. Os arquitetos tinham essa preocupação não só nas residências, mas nos prédios públicos também. Eles assimilaram os princípios modernistas aprendidos no Sul do País, mas queriam imprimir nosso lugar. Fortaleza mudou e, agora, o que vale é o liso e o brilhante. Isso não tem nada a ver de fato com nossos materiais, com nosso clima, com a nossa terra”, analisa a pesquisadora e professora da UFC Beatriz Diógenes.
Fortaleza sofre intensos processos de crescimento desordenado, e de financeirização da moradia e do solo urbano. Basta observar os contrastes da Capital para compreender que a demanda arquitetônica, agora, é de outra ordem: “Da década de 1980 em diante, o mercado imobiliário, gradativamente, ditou as normas dos lançamentos e os programas de necessidade. Surgem os shoppings centers, o Centro começa a perder força para outras áreas e a Cidade se turistifica”, explica Romeu. Longe de saudosismos, ele acredita que o planejamento urbano deve unir tradição e contemporaneidade para promover qualidade de vida e ampliar a relação entre os habitantes e a Cidade.
“A gente tem que partir daquilo que é inegociável para pensar a cidade: o patrimônio cultural e o patrimônio natural. O ponto de partida para fazer uma arquitetura nossa é olharmos para dentro de nós, para a simplicidade da nossa vida, para o que realmente nos interessa, para os elementos do passado atualizados no presente, para o nosso artesanato e para as nossas manifestações artísticas. Vamos planejar a cidade a partir da valorização dessas joias que temos aqui”, defende o arquiteto.
Lançamento do livro Uma breve história da Arquitetura Cearense
Quando: 22 de junho, às 15 horas. Sessão de autógrafo às 16h30min.
Quanto: R (inteira) R (meia) - válido para toda a programação do dia no evento (o acesso às atrações está sujeito à lotação dos espaços onde elas se apresentarão)
Onde: Centro de Eventos do Ceará (av. Washington Soares, 999)
Ingressos à venda no site: www.festivalvidaearte.com.br, na portaria do Jornal O POVO (av. Aguanambi, 282 - José Bonifácio) e nas lojas JEF (RioMar Fortaleza e Iguatemi)
Programação completa: www.festivalvidaearte.com.br
O Povo

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