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São Luiz exibe "Vidas Secas" e homenageia Nelson Pereira dos Santos


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De cima para baixo: o escritor Graciliano Ramos, cenas do filme "Vidas Secas" e o diretor do longa, o cineasta Nelson Pereira dos Santos ( Fotos: Walter Craveiro/div. )
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Pelas janelas do navio francês Brésil e pelas lentes do italiano Affonso Segretto o Rio de Janeiro antigo, sua orla e barcos ganharam uma versão cinematográfica em "Uma Vista da Baía de Guanabara". Isso aconteceu no dia 19 de junho de 1898, no "Salão Novidades de Paris".
A filmagem de Segretto não sobreviveu ao tempo, mas a data deu origem ao Dia do Cinema Brasileiro, que em 2018 comemora 120 anos de muitos altos e baixos. Para celebrar a efeméride, o Cineteatro São Luiz oferece nesta terça (19) sessões especiais de um outro filme bastante significativo na história da produção nacional: "Vidas Secas" (1963) de Nelson Pereira dos Santos.
As exibições são gratuitas e estão marcadas para as 10h e 19h. Na primeira, haverá uma breve fala de Jair Costa, funcionário do São Luiz, sobre o livro e a obra cinematográfica.
Além de rememorar o cinema de maneira geral, o evento também visa festejar os 80 anos de obra de Graciliano Ramos - escrita em 1938 - e homenagear um dos grandes mestre da sétima arte nacional, Nelson Pereira dos Santos, que faleceu em abril passado. "Vimos a oportunidade fazer essa homenagem tríplice: à obra de Graciliano Ramos, aos 120 anos do cinema brasileiro e ao Nelson", pontua Duarte Dias, curador do Cineteatro São Luiz.
"Resolvemos unir a literatura e o cinema. Essas duas artes sempre estiveram muito próximas, os grandes filmes têm essa associação com adaptações de obras literárias", complementa.

Temática atual
"O livro 'Vidas Secas' foi uma obra que influenciou uma geração inteira, do Cinema Novo. É considerado, na verdade, uma espécie de patriarca, porque precede o movimento desse cinema, a estética desse estilo. A fotografia deve muito ao filme. É uma produção fundadora de uma cinematografia que veio futuramente", ressalta Duarte.
"O filme de Nelson Pereira dos Santos traduz o estilo do escritor (Graciliano Ramos), sobretudo na composição da imagem e no tom da fotografia, intencionalmente super exposta, feita quase só de branco, de uma luz que agride como o sol do sertão". Assim define Julio César Borges Bomfim em sua tese de mestrado sobre a adaptação de "Vidas Secas" para o cinema.
A seca no Nordeste é o cerne do clássico de Graciliano, cercado de aspectos como o pressentimento da chuva - como expressa Fabiano em determinado trecho do filme: "vai chover". E chove, para a alegria do sertanejo.
Ao longo de sua viagem, Sinhá Vitória sonha em ter uma cama de couro, enquanto Fabiano sonha em ter seu próprio gado. É durante esse percurso sob o sol a pino que outro tema, bem atual, aliás, surge na obra desses dois grandes mestres: a migração.
"O êxodo é um elemento que ainda hoje dialoga muito com nossa realidade. A migração que estamos vendo, a diáspora que o mundo está presenciando, tende a se agravar. O tempo passa e as coisas continuam a mesma. Dar a oportunidade ao público, de forma gratuita, de ver esse clássico, que possam vir e ter o contato com essa obra e fazer suas próprias reflexões é gratificante para a gente", anima-se o curador.

Clássico em cena
Filmado em 1963 no interior de Minador do Negrão e Palmeira dos Índios, sertão de Alagoas, o filme acaba por sofrer com o desgaste do tempo. Para proporcionar uma melhor experiência, o Cine São Luiz entrou em contato com a produtora do cineasta, Regina Filmes (administrada pelos filhos de Nelson), e conseguiu uma versão DCP (Digital Cinema Package) - "um arquivo de qualidade máxima utilizada no cinema", explicou Dias.
Famoso por suas mostras especiais e maratonas, com programação totalmente gratuita, o Cineteatro São Luiz é conhecido por exibir clássicos importantes do cinema mundial. "Vidas Secas" se encontra nessa categoria: é considerado pela British Film - entidade que incentiva o desenvolvimento e a disseminação do cinema internacional - uma das 360 obras fundamentais da cinematografia mundial.
O longa de Nelson também aparece na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), atrás apenas de "Limite" (1931), de Mario Peixoto e de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha.
Glauber Rocha, aliás, foi um dos homenageados pelo equipamento cultural em 2017, com a comemoração dos 50 anos de "Terra em Transe". Para o segundo semestre de 2018, Duarte Dias revela que o São Luiz pretende fazer uma mostra especial de Nelson Pereira dos Santos.
"A produtora de Nelson tem um catálogo imenso dele e queremos, sim, fazer uma coisa mais robusta, mais consistente sobre a obra desse cineasta que influenciou tanto o cinema do nosso País", finaliza.

Mais informações:
Dia do Cinema Brasileiro com exibição de "Vidas Secas". Nesta terça-feira (19), às 10h e 19h, no Cineteatro São Luiz (Rua Major Facundo, 500, Centro). Classificação livre. Gratuito. Contato: (85) 3252.4138

Saiba mais
"Vidas Secas"
Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 1963
Duração: 1h43
Drama
Sinopse: Uma família miserável tenta escapar da seca no sertão nordestino. Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), seus dois filhos e a cachorra Baleia vagam sem destino e já quase sem esperanças pelos confins do Interior, sobrevivendo às forças da natureza e à crueldade dos homens. Adaptação da obra de Graciliano Ramos.

Diário do Nordeste

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