Artesão de Icó faz maquetes do patrimônio com palitos

por Honório Barbosa - Colaborador
Icó. Por 35 anos, Danúbio Pessoa Freire, trabalhou como agente de endemias da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), nesta cidade, na região Centro-Sul cearense. Durante esse tempo, deixou adormecido um antigo desejo de fazer, com o uso de palitos de picolé, maquetes do casario local tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Agora, aposentado, começou a elaborar os primeiros trabalhos, que vêm despertando a atenção dos moradores da Cidade.
O incentivo veio da esposa, Maria Soares Cândido Freire, presidente da Associação dos Produtores de Artesanato, Gestores Culturais e Artistas de Icó (Aproarti). "Fiquei preocupada com o que ele iria fazer após a aposentadoria e sugeri que retomasse os trabalhos de produção das peças que retratam os imóveis tombados de Icó com os palitinhos", contou. "É um trabalho artesanal, que exige muita paciência e criatividade".
Freire seguiu a sugestão da mulher e é o mais recente membro da Aproarti. "Ganhamos mais um sócio e quero que ele participe das feiras, acompanhe o nosso trabalho", pontuou.
O incentivo foi dado e o novo artesão já começou a trabalhar, tirar do papel antigos projetos, ideias que ganham forma em maquetes, montadas por etapas, com riqueza de detalhes, a partir da união de palitinhos, milhares deles.
"Quando era adolescente, eu fazia umas caixinhas com palito de fósforo, com vários compartimentos", relembrou. "Aprendi sozinho, com curiosidade e com muito trabalho, muitas tentativas". Durante três décadas e meia de trabalho árduo na Funasa, Freire justificou que não dispunha de tempo para a produção artesanal. "A gente chega em casa cansado e, no fim de semana, procura fazer outras atividades, cuidar da casa".
Antes de começar o trabalho de montagem das peças, Freire faz esboço, tira fotos do imóvel e, por um determinado tempo, fica observando o prédio, na rua. "É preciso assimilar bem a ideia, as formas arquitetônicas, os detalhes, portas, janelas, curvas, vincos, adereços, ver também o contexto, o entorno", revelou. "Depois, volto, olho outras vezes".
Com a ideia amadurecida começa o trabalho de montagem das peças com a colagem dos palitos. As peças são feitas separadamente, mas, depois de unidas, formam a miniatura do imóvel. "Olho com rigor os detalhes, busco outros materiais para montar, como os sinos de uma igreja, puxadores de portas, mas, no fim, forma-se uma peça única", pontuou Freire. "Geralmente, é um mês para elaborar um trabalho".
Após a produção das primeiras maquetes, Danúbio Freire retomou a vontade de dar continuidade ao trabalho artesanal. "Com certeza vou fazer novas peças, participar de feiras, acompanhar outros artistas, fazer exposição e procurar vendê-las", frisou. "O meu projeto é retratar o patrimônio, o casario do Centro Histórico".
Tombamento
O Centro Histórico de Icó foi o primeiro a ser tombado pelo Iphan no Interior do Ceará, em 1998. A cidade é conhecida por suas ruas largas e cheias de casarões, igrejas, que remontam ao século XVIII. No Sítio Histórico, estão o Teatro da Ribeira dos Icós, a Igreja do Senhor do Bonfim, a Matriz de Nossa Senhora da Expectação, a antiga Casa de Câmara e Cadeia e dezenas de sobrados.
Aproart
Icó dispõe de vários artesãos, reunidos na Aproarti, fundada em 2005. O objetivo da entidade é estimular a produção artesanal local e oferecer maior estrutura aos artesãos, por meio de formações e difusão das manifestações culturais e artesanais da cidade. A organização estimula a capacidade produtiva de cerca de 60 bordadeiras e a venda dos produtos de alta qualidade nas regiões urbana e rural. Dentre diversas atividades, realiza cursos de bordado Rococó, uma prática exclusiva da região, inspirada na arquitetura local. Os produtos são comercializados na loja da associação, em feiras regionais e interestaduais.
Além do trabalho com o artesanato, a Associação reúne outros núcleos de atuação, como o teatro, a música, a dança, as artes plásticas, o patrimônio histórico, o turismo. Atualmente, o grupo constitui importante referência cultural para o Município e de difusor da cultura do lugar para a região e para País.
Segundo a presidente da Aproarti, Maria Soares, o designer Túlio Paracampos está preparando um projeto - um conjunto de traços e linhas para a formação de uma nova coleção para os bordados, mas sempre com inspiração no Patrimônio Histórico. Atualmente, a entidade trabalha com nove coleções.
Os artesãos desta cidade encontraram nos traços da arquitetura colonial, do século XVIII, nos desenhos das fachadas dos casarões e prédios históricos, a inspiração para a produção de peças e bordados na tipologia ponto rococó: guarnições de mesa, toalhas, redes, almofadas, aventais, bolsas de couro. A produção local vem ganhando destaque no Ceará e em outras praças. A coleção Patrimônio Arquitetônico sobressai-se pela beleza singela, gera trabalho e renda às famílias dedicadas ao artesanato.
Observação
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"É preciso assimilar a ideia, formas arquitetônicas, detalhes, portas, janelas, curvas, vincos, adereços, e também o entorno"
Danúbio Pessoa Freire
Artesão
Diário do Nordeste

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