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Dhanny Marinho usa o teatro como ferramenta para combater a violência contra a mulher; Ela integra o grupo Somos Todas Marias

Dhanny Marinho fala sobre sua relação entre arte e militância Mateus Dantas
Dhanny Marinho fala sobre sua relação entre arte e militância Mateus Dantas
Para começo de conversa, um aviso: "Cuidado com o que você se acostuma!". A frase-alerta dá nome ao espetáculo de repertório do Somos Todas Marias, grupo fundado pela atriz, performer e arte-educadora Dhanny Marinho. Para a artista, o título norteia muitas das suas ações (dentro e fora do teatro) e levanta o debate sobre práticas "absurdas" que vão sendo naturalizadas e, consequentemente, não combatidas. "Uma adolescente de 12, 13 anos gestante não causa uma comoção social tão grande se ela for preta e periférica. Por quê?", indaga. É nesse processo de buscar respostas e levantar novos questionamentos que, há seis anos, Dhanny realiza trabalhos nas periferias de Fortaleza.
A trajetória da moradora da Barra do Ceará foi atravessada pela arte a partir da atuação em movimentos sociais. "Eu fazia curso de Direito, mas mudei para o teatro porque eu percebi que existia uma arte muito forte dentro de mim que sempre pulsou de forma orgânica", conta ela, dona de uma voz mansa e firme. A decisão de abraçar de vez a arte dramática como âncora para as lutas foi tomada na Marcha das Vadias, movimento nascido no Canadá em 2011 e que se espalhou mundo afora. "A marcha surgiu como resposta à série de estupros que estavam acontecendo em universidade do Canadá e que era justificada porque as mulheres estariam se vestindo como vadias", se indigna. Foi aí que os grupos feministas se apropriaram do termo "vadia" e, em Fortaleza, foram realizadas passeatas cheias de artifícios cênicos e instrumentos musicais. Dhanny, então, descobriu-se artista.Hoje, aos 38 anos, a atriz está concluindo licenciatura em teatro no Instituto Federal do Ceará (IFCE) e estuda também arte-educação e cultura popular. Como pesquisa e também bandeira de vida, ela se debruça a um tema: o enfrentamento da violência contra as mulheres, especialmente as mais jovens. "Quando você tem contato com a menina de 18 anos, ela já vem num histórico de violência desde os 10 anos de idade, porque o corpo da menina preta periférica é um corpo hipersexualizado e, muitas vezes, banalizado", pondera. Ela completa: "Quando vou falar sobre a pauta da mulher, preciso chegar mais cedo nisso, preciso ter uma conversa com essas meninas para que elas consigam perceber o estado de vulnerabilidade delas".Foi com esse intuito que surgiu o Somos Todas Marias, grupo que já ganhou por quatro vezes o edital Ação Jovem Cuca e que tem impacto direto em muitas trajetórias pela Capital. Atualmente o grupo realiza ações quinzenais no Cuca Barra, a partir de oficinas de artes cênicas. O objetivo é chegar a mulheres de diferentes perfis, mesmo as que não têm proximidade com movimentos sociais. "A gente está falando de algo que atinge a todas as mulheres, de todas as classes sociais, mas que acabava só fortalecendo quem já estava no movimento. Eu sinto essa necessidade de me perguntar o que falta para puxar aquela menina que nunca ouviu falar de feminismo na vida dela", se provoca, sempre inquieta.A comunicação acaba sendo uma prioridade nessa busca por expansão das temáticas e Dhanny celebra os passos já dados. "Nós já ganhamos um edital da Liga Experimental de Comunicação da UFC (projeto de extensão do curso de Comunicação Social), que se propôs a cuidar da comunicação dos movimentos sociais", conta. A partir dessa experiência, em 2013, ela vem afinando suas ferramentas para ecoar a mensagem do coletivo artístico. "Nós que atuamos nas periferias não somos muitos. Não que não tenha gente interessada, mas há processos de desarticulação. Porque não tem apoio e as pessoas precisam trabalhar em outras coisas para conseguir dinheiro e acaba não indo para a frente", lamenta, destacando o privilégio que é conseguir seguir, já há seis anos, com atividades ininterruptas.No currículo do grupo, há espetáculos como o Marias e o Pretas, ações sociais como Maria vai com as outras, performances a exemplo do Quebrando o silêncio do medo e atividades como Contação de Histórias Sobre Heroínas Negras. A artista, porém, não para e tem atuado também na educação formal. "Para além de comunidade, é importante chegar às escolas. São espaços que precisam desse debate da violência contra a mulher. Toda vez que a gente chega para falar sobre as propostas, as escolas abraçam. Sempre fazemos em escola pública e até hoje não teve uma resistência", conta.O próximo passo, conta a arte-educadora, é impulsionar esse debate junto a outros profissionais parceiros. "Estamos nos voltando a assistentes sociais, psicólogas, advogadas, gente que precisa compreender questões que não estão nos livros acadêmicos, mas nas vivências", afirma. "Estamos em negociação com algumas faculdades para realizar ciclos de diálogos para poder falar sobre violência de gênero a partir do que acontece na periferia e sem deixar de falar de arte, que é a ferramenta que eu uso para a transformação social", se empodera.
Somos Todas Marias 
Conheça o trabalho do grupo artístico em facebook.com/Gruposomostodasmarias/
O Povo

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