Livreiros apostam em vendas onde o leitor compra a obra sem ver a capa


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Livros embalados com papel da loja virtual Beco Literário: no esquema "às s escuras", vendas já superaram expectativas iniciais
Raro era quem não se encantava com a qualidade impecável dos livros produzidos pela extinta editora Cosac Naify. Ou não desejava uma obra pela capa nas belíssimas edições da Dark Side. Há mesmo quem compre um livro só pelo título, ao passear em uma livraria.
Esses são elementos importantes de comunicação com o leitor, inclusive na hora de "fisgá-lo". Muitas vezes, porém, a surpresa vem daquele livro cuja capa ou título nada lhe dizem. "Comprar novas experiências pelo que elas são" é a proposta do Beco Literário, site criado em dezembro de 2013.
A priori, o blog tinha como iniciativa escrever e falar sobre literatura. Pouco depois, filmes e séries ganharam espaço, um pouco pelo volume de produções cinematográficas baseadas em publicações. Agora, o site funciona como uma espécie de sebo, onde leitores podem vender seus livros usados.
Entretanto, um mercado tão difícil quando o editorial exige estratégias criativas. Há pouco mais de duas semanas, o Beco acrescentou uma nova seção em sua plataforma, a "Becompre", dedicada à venda de livros usados de maneira diferente. O comprador não tem acesso a imagens, sinopse ou nome do livro. A única informação é uma pequena descrição da história, que no final das contas é o que importa.
"No ano passado tivemos um projeto limitado no site de enviar livros às cegas para alguns assinantes, e conforme enviávamos, percebemos o interesse crescente do pessoal pelas surpresas. Como era um projeto limitado, não conseguimos atender todo mundo que queria participar desse clube", lembra o CEO do Beco Literário, Gabu Camacho.
Aposta
Após o fim do projeto, o site Beco Literário se inspirou em outras experiências existentes fora do Brasil para trazer ao País essa vivência, que se assemelha a um encontro às escuras. Em 2015, a livraria australiana Elizabeths Bookshops foi considerada uma das pioneiras nesse tipo de venda.
Intitulada "Blind Date With a Book" (Encontro às Cegas com um Livro), a iniciativa consistia em escrever algumas palavras-chave sobre a história na embalagem (de papel). A pessoa precisaria comprar guiada apenas por elas.
"Pegamos essa ideia e resolvemos incrementar um pouco mais, porque leitor é curioso e nós sabemos disso. Colocamos uma sinopse mais completa de cada obra e também damos a possibilidade do pessoal vender seus livros pela plataforma", ressalta Camacho, ao enfatizar as vendas de usados.
No caso desses últimos, também constam informações sobre o estado físico do exemplar e quem está vendendo. Pode até haver indicações sobre assunto e faixa etária, mas título e capa permanecem em segredo, revelados apenas na chegada da encomenda.
Pioneirismo
Em 2016, a experiência de comprar livros às cegas no Brasil despontou. Uma das pioneiras, a Livraria Leonardo da Vinci, no Centro do Rio de Janeiro, inspirou-se nas livrarias independentes norte-americanas que usavam desse artifício para concorrerem com grandes redes.
"Nosso experimento é muito pessoal. Não colocamos muita descrição na embalagem, apenas palavras soltas, às vezes só um desenho. O segredo para o sucesso é que a gente não faz em série", explica Daniel Louzada, dono da livraria. "Na verdade, ficamos mais no espírito do livro, escolhemos para a venda às cegas aqueles que já lemos e gostamos. Não são necessariamente lançamentos", completa.
Ele compara a compra dos livros à relação que o livreiro tem com seu leitor e vice-versa. "O encontro às cegas é para quem gosta de livros. Simboliza um pouco o que é o espírito de uma livraria, o contato do livreiro com o leitor. Nosso slogan é: se você não confiar no seu livreiro em que você vai confiar?", destaca, ao recordar o tempo em que donos de livrarias indicavam livros.
Números
De 2016 até hoje, Daniel calcula já ter vendido mais de 3 mil exemplares no esquema às cegas. De todos, houve apenas 10 trocas, mas porque as pessoas já tinham o livro. Recentemente, a livraria levou a experiência de seu espaço físico para a internet.
No Beco Literário as compras também já superaram expectativas. "Antes de abrir estipulamos uma meta que deveríamos cumprir até o lançamento da plataforma na totalidade. Uma semana depois, já tínhamos triplicado", conta Gabu Camacho.
"Abrimos a plataforma com 300 livros de usuários disponíveis para venda e nas primeiras horas, vendemos mais de 50 histórias", comemora.
Diferencial
Em plena época de empreendedorismo criativo, os sebos não deixam de ser uma possibilidade. A principal crítica do dono da Beco Literário é o valor baixo pago por muitos sebos na compra de livros usados e o preço cobrado na revenda.
"Você pega um livro pelo qual pagou R$ 50 na livraria, leva em um sebo e eles querem te pagar R$ 5 e revender por R$ 30. É comum vermos leitores sendo injustiçados em prol do lucro".
O Becompre cobra uma taxa fixa de R$ 1,99 para quem quiser vender seus livros na plataforma, independente do preço estabelecido pelo vendedor. A equipe aposta nessa estratégia como um diferencial em relação a outros sebos.
Para Daniel Louzada, a venda às cegas é uma maneira de livrarias menores competirem no mercado editorial, a partir do contato frequente entre livreiro e leitor,
O Beco Literário, por sua vez, aposta nos usados e na agilidade da internet. No final, quem sai ganhando é o leitor ávido por novas histórias.
Mais informações:
Site Beco Literário - becoliterario.com
Livraria Leonardo da Vinci - leonardodavinci.livreiros.com.br
Diário do Nordeste

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